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Q3947133 Português

Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto seguinte.



Memórias sem imaginação



     Fiquei entusiasmadíssimo com recursos da internet, quando finalmente comecei a me valer deles, tempos atrás. Pois não é que de repente passei a ter acesso a imagens e sons de um passado que dava por perdido? Ruas antigas, objetos da casa desaparecida, ingênuos anúncios, canções marcantes, utensílios domésticos carregados de magia - tudo se estampava agora em imagens nitidas e voltava em sons precisos, por meio de plataformas eletrônicas. O mundo das imagens e das ondas sonoras da minha infância e de antes dela estava ali, a um toque do milagre digital.


    Mas de repente... Mas de repente comecei a me afogar nesse repertório inesgotável de sensações, que eu podia repetir tanto quanto quisesse. E comecei a dar pela falta de um elemento fundamental para a vida da memória afetiva: o imaginário nosso que parte dela. A força mecânica das coisas recuperadas num buscador digital não trazia consigo a alma da minha imaginação, aquela de quando eu ia me lembrando de algo contando apenas com minha memória interiorizada, sem signos ostensivos. De repente, exposição iluminada das coisas mágicas do meu passado era solar demais, impunha suas imagens à minha imaginação, a riqueza do passado me aparecia agora esbanjada, perdulária, barateada... Faltava às lembranças digitalizadas a hesitação na escolha dos detalhes, a invenção necessária para cobrir lacunas, a dificuldade laboriosa da tentativa de remontagem das antigas experiências. Faltava, em cada imagem exibida e inconteste, a construção compensatória do meu imaginário.


   Não estou sendo ingrato. Aos canais de música não tenho como agradecer por abrir um leque incomensurável das composições que o mundo já conheceu e está conhecendo. Mas no campo da memória pessoal, a contundência dos arquivos implacáveis da internet suprime os vazios humanizantes da nossa memória que, segundo Bergson, corta e costura o passado segundo convocações do presente - convocações pessoais e intransferíveis. Colocando diante de nós as marcas físicas de nosso passado, а digitalização computacional suprime as franjas e as sombras que eram parte fundamental de cada lembrança afetiva. Para me proporcionar todas as visões do passado, o computador precisa que eu escancare os olhos e me deixe cegar com tanta iluminação. Fica comigo, no entanto, a saudade da memória que eu praticava misturando lembrança e imaginação, me valendo da riqueza comovente dos vazios que eu me esmerava em preencher. Fica comigo a memória da memória que era a minha.



(Almino Valares, a editar)

O autor exprime uma impressão sua por meio de um paradoxo ao se valer das seguintes expressões:
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: B

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a identificação de paradoxo como aproximação de ideias aparentemente inconciliáveis no mesmo enunciado. No trecho obrigatório, "Para me proporcionar todas as visões do passado, o computador precisa que eu escancare os olhos e me deixe cegar com tanta iluminação.", a oposição entre "escancare os olhos" e "me deixe cegar" produz a contradição expressiva que define o paradoxo e sustenta a alternativa B.

Tema central: identificação de paradoxo
Análise das alternativas
A
Errada
Incorreta. "hesitação na escolha dos detalhes" e "construção compensatória do meu imaginário" não se opõem; elas participam do mesmo processo de elaboração da memória afetiva. A primeira indica a dificuldade de remontagem das lembranças; a segunda, o preenchimento imaginativo das lacunas. A relação é de complementação semântica, não de contradição paradoxal.
B
Certa
A alternativa B está correta porque reúne duas expressões semanticamente antagônicas dentro do mesmo movimento enunciativo: abrir ao máximo os olhos para ver e, ao mesmo tempo, ficar cego pelo excesso de iluminação. Essa contradição aparente não destrói o sentido do texto; ao contrário, expressa a crítica ao excesso de visibilidade digital, que oferece tudo de modo tão iluminado e objetivo que empobrece a experiência subjetiva da memória. É esse efeito de contradição expressiva que caracteriza o paradoxo.
C
Errada
Incorreta. "Fiquei entusiasmadíssimo" e "passei a ter acesso a imagens e sons de um passado" mantêm encadeamento coerente de causa e efeito: o entusiasmo decorre do acesso ao conteúdo recuperado. Há intensidade expressiva, mas não há ideias inconciliáveis reunidas no mesmo enunciado.
D
Errada
Incorreta. "imagens nítidas" e "por meio de plataformas eletrônicas" apenas articulam conteúdo e suporte de transmissão. Não existe incompatibilidade semântica entre a nitidez das imagens e o meio tecnológico que as apresenta. O contraste entre passado e tecnologia, por si só, não forma paradoxo nessas expressões.
E
Errada
Incorreta. "repertório inesgotável de sensações" e "eu podia repetir tanto quanto quisesse" convergem para a mesma ideia de abundância e repetibilidade do acervo digital. Uma expressão reforça a outra. O efeito é de intensificação semântica, não de oposição aparente.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre paradoxo e simples intensidade ou exagero. Várias alternativas trazem expressões fortes, abstratas ou contrastes temáticos, mas só a letra B apresenta contradição interna real entre ampliar a visão e ser cegado pela luz.
Dica para questões semelhantes
  • Procure, nas expressões destacadas, oposição interna de sentido no mesmo enunciado; sem essa tensão, não há paradoxo.
  • Não confunda reforço semântico, causa e efeito ou complementação de ideias com contradição expressiva.
  • Se houver exagero, verifique se ele apenas intensifica o sentido ou se aproxima ideias incompatíveis em aparência.

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Comentários

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Um paradoxo é uma declaração, ideia ou situação que contradiz a lógica, o senso comum ou a si mesma, apresentando ideias opostas que se anulam, mas que podem coexistir. Frequentemente usada como figura de linguagem (oxímoro). No caso, a única alternativa que traz ideias opostas é a letra B:

"o computador precisa que eu escancare os olhos e me deixe cegar com tanta iluminação."

Escancarar os olhos dar a ideia de enxergar, que é oposta a ideia de cegar.

Que belíssimo texto

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