Bateria quântica armazena energia em metade do
tempo necessário para carregar sua versão clássica
Para os acompanhantes das novidades científicas,
tornou-se rotineiro observar avanços em tecnologias
baseadas no controle de propriedades físicas de átomos
e partículas subatômicas, tais como a computação, a
criptografia e o sensoriamento quânticos. Contudo, uma
quarta aplicação ganha espaço: as baterias quânticas.
No curto prazo, esses dispositivos aumentam a eficiência
de computadores quânticos e, no futuro, permitirão o
carregamento quase instantâneo de celulares e veículos
elétricos.
O físico brasileiro Alan Costa dos Santos, do Instituto de
Física Fundamental do Conselho Superior de
Investigações Científicas em Madri, ressalta o enorme
potencial teórico da tecnologia, embora reconheça que
ainda há um longo percurso até sua consolidação.
Santos, ao lado dos físicos Andreia Saguia e Marcelo
Sarandy, da Universidade Federal Fluminense,
coordenou o planejamento teórico de um experimento
conduzido na Universidade de Ciência e Tecnologia do
Sul, na China, sob a liderança dos físicos Chang-Kang
Hu e Dian Tan. A pesquisa, que reuniu os três teóricos
brasileiros e vinte experimentais chineses, foi capa da
revista Physical Review Letters em fevereiro.
A equipe demonstrou de forma inédita que uma bateria
capaz de gerar emaranhamento quântico carrega na
metade do tempo exigido por um dispositivo sem essa
propriedade. No emaranhamento, duas ou mais
partículas comportam-se de maneira entrelaçada como
um único ente, independentemente da distância entre
elas.
Para o teste, construiu-se um circuito
supercondutor quadrado de dez milímetros dotado de
dezesseis bits quânticos, ou qubits. O desempenho foi
avaliado
comparando-se
os
qubits
totalmente
desconectados — equivalente a uma bateria clássica —
com uma configuração em que parte dos qubits interagia
de forma entrelaçada. Ambas as condições receberam a
mesma quantidade de energia.
Os resultados revelaram que a bateria quântica carregou
60% mais rápido com cinco qubits entrelaçados e atingiu
uma taxa de armazenamento quase 100% superior ao
utilizar doze qubits emaranhados, que foi o limite
alcançado no teste. Em entrevista, Dian Tan explicou
que a realização exigiu controle e calibração delicados
para equilibrar as interações entre os qubits e otimizar a
carga sem perturbar o sistema, destacando os desafios
de aplicar pulsos precisos de micro-ondas enquanto se
ampliava a quantidade de bits ativos.
Um dos maiores obstáculos no setor é expandir o
emaranhamento para o maior número possível de qubits.
Diversamente das baterias convencionais de íons de
lítio, nas quais uma capacidade maior exige mais tempo
de recarga, os sistemas quânticos operam de forma inversa: quanto maior o sistema, mais veloz é a recarga.
Em tese, elevar a quantidade de qubits em dez mil vezes
reduziria o tempo de carregamento na mesma
proporção, viabilizando recargas em frações de segundo
se os dispositivos atingirem o porte das baterias
comerciais.
No âmbito da física, qualquer estrutura capaz de
armazenar energia temporariamente é considerada uma
bateria, seja uma represa hidrelétrica ou um acumulador
eletroquímico. As baterias modernas de lítio utilizam o
mesmo princípio básico da pilha criada por Alessandro
Volta em 1800, forçando a separação de partículas
encarregadas de gerar corrente elétrica. Por sua vez, um
qubit é um sistema quântico que transita entre o estado
fundamental zero e o estado excitado um, podendo
permanecer em sobreposição de ambos até que uma
medição seja feita. O processo de carga da bateria
quântica consiste em transferir energia aos qubits para
elevar seus estados de zero para um.
Atualmente, diferentes métodos buscam explorar tais
propriedades. Uma equipe liderada por James Quach, da
Organização da Commonwealth para Pesquisa Científica
e Industrial na Austrália, publicou na Light: Science &
Applications em março de 2026 um modelo baseado em
lasers e moléculas. O protótipo usa uma película com
centenas de trilhões de moléculas do corante ftalocianina
de cobre em uma cavidade óptica. O feixe de laser ativa
um estado coletivo chamado superabsorção, que amplia
a eficiência do processo em relação à absorção
individual.
O protótipo australiano obteve carga em
femtossegundos, unidade de medida de tempo que vale
um quatrilionésimo de segundo, e reteve a energia
durante nanossegundos. Houve um ganho substancial
na extração de energia elétrica à medida que mais
moléculas foram expostas ao laser, superando em até
120% o modelo sem cavidade. Quach sinalizou que o
próximo objetivo da equipe é estender o tempo de
retenção dessa energia para viabilizar comercialmente a
tecnologia.
Paralelamente, um grupo sino-brasileiro planeja integrar
no mesmo circuito a bateria quântica e um motor térmico
quântico, que reaproveitaria o calor residual dos
computadores quânticos para reconvertê-lo em energia
reutilizável. Segundo pesquisadores, a integração criaria
um ciclo fechado de geração, armazenamento e uso de
energia, abrandando ruídos térmicos na máquina.
Por fim, Alan Costa dos Santos lembrou que questões
como a autodescarga espontânea ainda precisam ser
detalhadamente compreendidas no plano quântico.
Em tese, "elevar" a quantidade de qubits em dez mil
vezes "reduziria" o tempo de carregamento na mesma
proporção, viabilizando recargas em frações de segundo
se os dispositivos "atingirem" o porte das baterias
comerciais.
Em relação aos verbos destacados, assinale a
alternativa CORRETA.