O texto seguinte servirá de base para responder à questão.
Família feliz
Família é feliz quando sua casa vive cheia. Isso não me sai da cabeça. Sei o valor da paz, de um final de
semana de silêncio e preguiça, mas, talvez por efeitos da criação, costumo medir o contentamento pela
bagunça.
A residência na infância se mantinha concorrida, a tal ponto que até as visitas abriam a porta para
quem tocava a campainha. Não dávamos conta de cumprir as formalidades de anfitriões. Não havia
certeza e garantia de quantos pratos seriam necessários. O feijão recebia sempre mais um copo d'água
para não se morrer de fome. Pessoas chegavam e partiam sem avisar.
Família feliz terá um estoque de colchonetes. Como as camas pertencem aos seus donos, o negócio é
tomar o chão. Lembro que, de férias no litoral, era difícil levantar e não pisar nos parentes que
dormiam na sala. Você pulava obstáculos, minas humanas. Cada um se acomodava como podia para
aproveitar o veraneio.
Família feliz terá um arsenal de cadeiras de praia. Aquelas dobráveis, amarelas, penduradas em
ganchos na parede ou encostadas na área de serviço. Pois é má-educação permitir que alguém fique de
pé. Parece que somos proprietários de bar. Trata-se de uma prevenção para nunca faltar assento. A
decoração se perde em uma roda de chimarrão em torno da televisão. Qualquer ambiente fechado se
eleva à condição de varanda improvisada.
Família feliz terá pilha de cervejas na geladeira. Ainda que seja abstêmia, não proíbe o prazer da
saideira.
Família feliz terá a louça acumulada na pia no sábado e domingo. Não consegue parar para lavar.
Usará sua última porcelana antes de pegar na esponja. Maníacos por limpeza enlouquecem.
A mesa jamais é desfeita. O almoço vira sobremesa, que vira café da tarde, que vira jantar, que vira
sobremesa de novo. A toalha ganha nódoas de molho e contornos vermelhos dos cálices de vinho e das
xícaras: um sudário da gula. Impossível se conservar imaculada. Lotará o varal na segunda-feira.
Família feliz terá manta no sofá. Desistiu de tentar salvá-lo das manchas, dos rasgões, da descostura, e
cobriu seus ombros. É o móvel mais frequentado, sobretudo se existe como recliná-lo. Um pit stop para
a digestão e para as sestas involuntárias.
Família feliz terá baralho de cartas, dominó ou varetas, todos gastos pelo uso. O entardecer combina
com pife, e buraco, e brigas, e implicâncias entre quem joga sério e quem rouba.
Família feliz terá uma caixinha de som. Começa com MPB dos velhos, os jovens assumem o controle
pouco a pouco e a playlist desanda em funk e coreografias incompreensíveis.
Família feliz é a desordem doméstica e a busca desesperada por atender tanta gente de surpresa com
ventiladores barulhentos e isopores.
Todos falam ao mesmo tempo e ninguém deixa de ser ouvido. Os apelidos sufocam os nomes próprios.
Os objetos circulam anonimamente: um carregador de celular, um abajur, uma travessa. Aceitam-se as
piadas e as lembranças remotas mais constrangedoras.
O lar oferece horas de saudável confusão, de vozerio, de brincadeiras. Apenas a faxina na manhã
seguinte é terrivelmente solitária.
Autor: Fabrício Carpinejar
A concepção de felicidade familiar construída ao longo do texto contrapõe-se a determinados valores
tradicionalmente relacionados à organização doméstica. Considerando a articulação entre o primeiro e
o último parágrafos, assinale a alternativa que adequadamente expressa o ponto de vista do autor.