Na passagem “E, como me ensinou minha jabuticabeira, tudo te...

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A lição da jabuticabeira


    Quando nos mudamos para o novo apartamento, há quinze anos, ganhei uma jabuticabeira do meu marido. Sempre amei jabuticabas e, talvez ainda mais, as jabuticabeiras. Minha mãe, quando morava no Mato Grosso, dizia que cada pessoa da família tinha uma árvore no quintal, e que ela refletia o momento de vida de cada um. A minha era uma jabuticabeira. Quando ela dava muitos frutos, minha mãe tirava uma foto e mandava: “Olha que linda! Sua vida está florindo.” Ela nunca mandava fotos sem flores ou frutos. Não porque a vida estivesse sempre florida, mas por aquela delicadeza que só as mães têm.
    Há algum tempo, a jabuticabeira da varanda começou a ficar amarelada. Achamos que fosse falta de sol — abrimos as cortinas. Nada. Depois abrimos as janelas, para que o vento circulasse. Também não funcionou. O Google (sim, ainda sou do tempo do Google) dizia que restavam duas alternativas: adubar ou trocar a terra. Optei pelo adubo. Mais rápido, mais fácil e muito menos possibilidade de sujeira. Escolhi o mais eficiente, com a embalagem mais bonita e as melhores recomendações. Li a bula com atenção, mas como sou péssima com medidas, fiz “no olho”. Quatro colheres e água até o pó desaparecer. Pronto. No dia seguinte, percebi algumas folhas no chão. No segundo dia, nenhuma nos galhos. Coloquei adubo demais. Chamei um jardineiro, um especialista na vida real, não mais no mundo virtual. Ele foi direto: talvez houvesse salvação, talvez não. Entrei em choque. Sempre associei adubo à força. E força, achava eu, nunca era demais. Engano.
    Passei a olhar em volta e percebi: o excesso de adubo tem seu equivalente na vida. O excesso de cuidado também sufoca. Quantas vezes, com boas intenções, pais e mães “adubam demais” os filhos? São crianças e adolescentes que, desde pequenos, não precisam lidar com o tédio, nem cumprir pequenas obrigações, nem ser responsáveis por suas tarefas. Há sempre um adulto disponível – pais, babás, professores – pronto para lembrar, ajudar e, muitas vezes, resolver o problema antes mesmo que ele aconteça.
    Mas sem tropeços, raramente há aprendizado. Sem esforço, dificilmente há conquista.
    Não defendo o “se vira” da educação mais antiga, mas também não precisamos viver no “eu resolvo”, tão contemporâneo. No meio do caminho existe o “vamos juntos”. A questão é sempre a medida. Paracelso já dizia no século 16: “A diferença entre o remédio e o veneno está na dose.” Cuidado demais é como adubo demais: sufoca a possibilidade de crescer por conta própria. Impede o outro de desenvolver sua própria forma de florescer, no seu tempo e do seu jeito. Talvez, no fundo, a gente queira evitar o sofrimento do outro para não enfrentar o nosso medo de vê-los tropeçar, a dor de achar que poderíamos ter impedido a queda. Mas um dia a gente entende: é preciso aprender a ficar no banco do passageiro. Confiar no caminho, no aprendizado e estar junto sem tirar o volante das mãos de quem precisa dirigir. E, como me ensinou minha jabuticabeira, tudo tem seu tempo: o de florescer, o de frutificar, o de perder as folhas. E, se houver paciência, o de renascer.


Fonte: MADALOZZO, Regina. A lição da jabuticabeira. Disponível em: vidasimples.co/voce-simples/a-licao-da-jabuticabeira/. Acesso em: 22 jan. 2026. 
Na passagem “E, como me ensinou minha jabuticabeira, tudo tem seu tempo: o de florescer, o de frutificar, o de perder as folhas.”, a omissão da palavra “tempo” no trecho “[...] o de florescer, o de frutificar, o de perder as folhas [...]” constitui um recurso de expressão denominado
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: No trecho “E, como me ensinou minha jabuticabeira, tudo tem seu tempo: o de florescer, o de frutificar, o de perder as folhas.”, a palavra “tempo” fica subentendida nas sequências posteriores por já ter sido expressa antes. Essa omissão de termo facilmente recuperável pelo contexto caracteriza elipse, o que sustenta a alternativa C.

Tema central: omissão de termo
Análise das alternativas
A
Errada
Apóstrofe é chamamento ou interpelação direta. No trecho, não há vocativo nem interlocução com alguém ou algo; o que existe é a omissão de um termo já expresso anteriormente.
B
Errada
Assíndeto é ausência de conectivos entre termos ou orações. A sequência pode parecer enumerativa, mas a questão delimita expressamente outro fenômeno: a omissão da palavra “tempo”. O núcleo do caso não é falta de conjunção, e sim termo elidido e recuperável pelo contexto.
C
Certa
A alternativa C está correta porque o enunciado pede o nome do recurso formado pela omissão da palavra “tempo” no trecho posterior. Em “tudo tem seu tempo”, o substantivo está expresso; depois, em “o de florescer, o de frutificar, o de perder as folhas”, subentende-se “o tempo de florescer”, “o tempo de frutificar” e “o tempo de perder as folhas”. Essa supressão sem prejuízo de compreensão caracteriza elipse.
D
Errada
Silepse envolve concordância feita com a ideia, e não com a forma gramatical. No trecho, não há concordância ideológica de gênero, número ou pessoa; portanto, esse conceito não se aplica.
E
Errada
Sinestesia exige mistura de sensações de campos sensoriais diferentes. O trecho não combina percepções sensoriais; ele organiza uma sequência com omissão de um substantivo anteriormente expresso.
Pegadinha da questão
A banca explora a enumeração para induzir à marcação de assíndeto, mas o comando já fixa o foco correto: a omissão da palavra “tempo”.
Dica para questões semelhantes
  • Quando a questão apontar uma palavra omitida, localize primeiro onde ela apareceu expressa no período.
  • Se o termo ausente puder ser recuperado com clareza pelo contexto, o critério decisivo é elipse.
  • Não troque o fenômeno pedido por outro apenas porque a frase também é expressiva ou enumerativa.

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Comentários

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apóstrofe é uma figura de linguagem usada para fazer um chamamento direto, uma invocação ou uma interpelação a alguém ou a alguma coisa (que pode ser real, imaginária, viva, morta ou até um objeto).Aqui estão as características principais e exemplos para você dominar o assunto:CaracterísticasFunção Sintática: Na gramática, ela sempre exerce a função de vocativo.Pontuação: Geralmente vem isolada por vírgulas ou acompanhada de pontos de exclamação.Efeito: Serve para dar ênfase, drama ou expressar uma emoção intensa no texto.

Assíndeto: Omissão de conjunções (conectivos), deixando as frases mais rápidas (ex: "Vim, vi, venci").

Elipse: Omissão de um termo que pode ser facilmente subentendido pelo contexto (ex: "Cheguei cedo" — o pronome eu foi ocultado).

Silepse: Concordância que ocorre não com a palavra escrita, mas com a ideia (ex: "A multidão gritava e aplaudiam").

Sinestesia: Mistura de sensações pertencentes a sentidos diferentes (ex: "Voz doce" — mistura audição com paladar).

A omissão de um termo que pode ser facilmente identificado pelo contexto é uma figura de linguagem (ou recurso de expressão) chamada elipse.

No trecho, para evitar a repetição excessiva, o autor esconde a palavra "tempo", mas nosso cérebro a recupera automaticamente ao ler:

(Nota: Quando o termo omitido já apareceu antes no texto — como é o caso —, esse tipo específico de elipse também é conhecido como zeugma, que é uma subcategoria da elipse. Como "zeugma" não está entre as opções, a resposta é o conceito geral: elipse).

  • A) Apóstrofe: É uma invocação ou chamamento de algo ou alguém (ex: "Ó Deus, onde estás?").

  • B) Assíndeto: É a omissão de conjunções coordenativas entre orações ou termos (ex: "Vim, vi, venci" em vez de "Vim, vi e venci").

  • D) Silepse: É a concordância feita com a ideia e não com a palavra explícita (pode ser de gênero, número ou pessoa. Ex: "A maioria dos alunos saíram").

  • E) Sinestesia: É a mistura de diferentes sentidos humanos em uma mesma expressão (ex: "um cheiro doce", "uma voz áspera").

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