Analisar os itens e assinalar as funções sintáticas respect...

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Q3875188 Português
Entre amigos


    Para que serve um amigo? Para rachar a gasolina, emprestar a prancha, recomendar um disco, dar carona para a festa, passar cola, caminhar no shopping, segurar a barra. Todas as alternativas estão corretas, porém isso não basta para guardar um amigo do lado esquerdo do peito.

    Milan Kundera, escritor tcheco, escreveu em seu último livro, “A Identidade”, que a amizade é indispensável para o bom funcionamento da memória e para a integridade do próprio eu. Chama os amigos de testemunhas do passado e diz que eles são nosso espelho, que através deles podemos nos olhar. Vai além: diz que toda amizade é uma aliança contra a adversidade, aliança sem a qual o ser humano ficaria desarmado contra seus inimigos. 

    Verdade verdadeira. Amigos recentes custam a perceber essa aliança, não valorizam ainda o que está sendo construído. São amizades não testadas pelo tempo, não se sabe se enfrentarão com solidez as tempestades ou se serão varridos numa chuva de verão. Veremos.

    Um amigo não racha apenas a gasolina: racha lembranças, crises de choro, experiências. Racha a culpa, racha segredos.

    Um amigo não empresta apenas a prancha. Empresta o verbo, empresta o ombro, empresta o tempo, empresta o calor e a jaqueta. 

    Um amigo não recomenda apenas um disco. Recomenda cautela, recomenda um emprego, recomenda um país.

    Um amigo não dá carona apenas para festa. Te leva para o mundo dele, e topa conhecer o teu.

    Um amigo não passa apenas cola. Passa contigo um aperto, passa junto o réveillon.

    Um amigo não caminha apenas no shopping. Anda em silêncio na dor, entra contigo em campo, sai do fracasso ao teu lado.

    Um amigo não segura a barra, apenas. Segura a mão, a ausência, segura uma confissão, segura o tranco, o palavrão, segura o elevador.

    Duas dúzias de amigos assim ninguém tem. Se tiver um, amém.


Fonte: Martha Medeiros.
Analisar os itens e assinalar as funções sintáticas respectivas dos termos sublinhados.

I. “[...] Chama os amigos de testemunhas do passado. [...]” (2º parágrafo).
II. “[...] Diz que eles são nosso espelho. [...]” (2º parágrafo).
III. “[...] O ser humano ficaria desarmado contra seus inimigos.” (2º parágrafo).
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: “Chama os amigos de testemunhas do passado. / Diz que eles são nosso espelho. / O ser humano ficaria desarmado contra seus inimigos.” O item I traz a estrutura “chamar alguém de algo”, em que “de testemunhas do passado” atribui nomeação ao objeto direto e funciona como predicativo do objeto; no item II, “nosso espelho” caracteriza o sujeito após o verbo de ligação “são”, como predicativo do sujeito; no item III, “contra seus inimigos” completa o sentido do adjetivo “desarmado”, configurando complemento nominal. Essa leitura conduz à alternativa C.

Tema central: funções sintáticas
Análise das alternativas
A
Errada
Erra o item I. Em “Chama os amigos de testemunhas do passado”, a expressão sublinhada não é objeto indireto, porque não completa o verbo como complemento indireto autônomo; ela atribui denominação a “os amigos”, que é o objeto direto. Por isso, sua função é predicativo do objeto. Os itens II e III coincidem com a análise correta, mas a alternativa cai pelo erro no primeiro item.
B
Errada
Erra o item I pelo mesmo motivo da alternativa A: “de testemunhas do passado” é predicativo do objeto, não objeto indireto. Erra também o item III, porque “contra seus inimigos” não é objeto indireto: objeto indireto completa verbo transitivo indireto, e aqui o termo preposicionado completa o adjetivo “desarmado”. Portanto, a função correta é complemento nominal.
C
Certa
A alternativa C acerta os três itens porque aplica o critério sintático correto em cada estrutura. Em I, “de testemunhas do passado” não funciona como complemento verbal indireto, mas como termo que renomeia “os amigos” na construção “chamar alguém de algo”, logo é predicativo do objeto. Em II, “nosso espelho” identifica o sujeito “eles” depois do verbo de ligação “são”, por isso é predicativo do sujeito. Em III, “contra seus inimigos” não se liga ao verbo “ficaria”, mas ao adjetivo “desarmado”, completando-lhe o sentido; assim, exerce função de complemento nominal.
D
Errada
Erra os três itens. Em I, “de testemunhas do passado” não é adjunto adnominal, porque não determina substantivo; na estrutura “chamar alguém de algo”, o termo atribui nomeação ao objeto, funcionando como predicativo do objeto. Em II, “nosso espelho” não é objeto direto, pois aparece com o verbo de ligação “são” e caracteriza o sujeito “eles”, sendo predicativo do sujeito. Em III, “contra seus inimigos” não é predicativo do sujeito, porque não atribui característica ao sujeito; ele completa o sentido do adjetivo “desarmado”, sendo complemento nominal.
Pegadinha da questão
A banca explorou a confusão entre forma e função: a preposição em “de testemunhas do passado” e em “contra seus inimigos” pode induzir à leitura de objeto indireto, mas a função sintática depende da relação estrutural. No item I, o termo nomeia o objeto; no item III, o termo completa o adjetivo “desarmado”.
Dica para questões semelhantes
  • Não classifique termo preposicionado automaticamente como objeto indireto; verifique se ele completa verbo ou nome/adjetivo.
  • Em construções como “chamar alguém de algo”, o segundo termo atribui nomeação ou característica ao objeto direto, o que indica predicativo do objeto.
  • Se houver verbo de ligação, como “ser”, observe se o termo seguinte identifica ou caracteriza o sujeito; nesse caso, a função é predicativo do sujeito.
  • Quando o sentido incompleto estiver em um adjetivo, como “desarmado”, o termo que o completa exerce função de complemento nominal.

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