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Q787758 Português
A CULTURA DO ESTUPOR

Por Lucio Carvalho

  Pelo menos que eu saiba, felizmente não vivo nem perto da cultura do estupro, mas vivo, sim, dentro da cultura do estupor. Vivemos todos.
  Não ouço piadas machistas. Não consumo nem ouço músicas apelativas ou com conteúdo violento nem sobre a mulher nem sobre ninguém. Não dou legitimidade nem por hipótese a preconceitos, seja de que espécie forem. Entretanto, porque não viva em contato direto com ela, a tal cultura do estupro, não é por isso que vou dizer que não exista. E isso porque esse é o mesmo comportamento negacionista de quem vive na cultura do estupor e não percebe.
  A cultura do estupor é quase o mesmo que a cultura da indiferença, com a diferença de que ela implica numa espécie de assombro perpétuo perpetuamente sem ação, estéril, de quem não age, de quem não toma qualquer atitude, de quem tem toneladas de informação, mas ação que é bom, quase nenhuma. Na cultura da indiferença, por outro lado, há uma escolha prévia, o que a torna ainda mais comprometedora, pelo menos no que diz respeito as mentalidades. Dessa eu não vivo dentro, mas fatalmente vivo perto, porque em alguma medida todo mundo vive. Uns mais, outros menos.
  Não estou querendo dizer que a cultura do estupor é mais grave que a do estupro porque não é, mas elas têm entre si um alto grau de parentesco, se é que uma não está contida na outra. Só que, enquanto uma vítima de estupro se vê forçada a reinventar a própria vida, na cultura do estupor às vítimas resta apenas trocar a fonte, o canal ou o link dos terrores diários. Sair e voltar a entrar no Facebook, por exemplo.
  Mesmo dentro disso que chamo de cultura do estupor parece haver graus variados de acometimento. Pode ir do embasbacamento à inconsciência. Da surpresa à alienação. Da imobilidade à dessensibilização completa. Da empatia seletiva à misantropia, essa que parece ser sua forma mais extremada.
  Confesso que tive de ler bastante sobre tudo o que se divulgou sobre a cultura do estupro após o trágico evento do RJ para entender como é que isso me afetava e a resposta que encontrei é que, como a maioria dos homens, pelo menos os que não tiveram a sombra do estupro rondando sua vida, é um assunto quase extraterreno. É como uma hipótese sobre a qual não se quer nem pensar. Mas isso é assim porque não estamos no lugar de ser sem mais nem menos uma vítima ocasional da situação e por isso minimizamos o horror alheio, submersos na cultura do estupor.
  De certa maneira, eu penso que o bombardeio dos últimos dias, em sua extensa maioria feita por mulheres, foi providencial e embora acredite na necessidade de uma política penal eficiente contra os criminosos, é preciso vencer o estupor social. Denunciar e não só denunciar, não permitir a impunidade, desnormalizar a violência de gênero. Não se trata apenas de empatia, mas de um compromisso do laço humano em não fechar-se em si mesmo e na sua perspectiva individual. Nesse ponto de vista, a questão de violência de gênero é até primária e simples demais, mas é justamente (e não coincidentemente) dela, da integridade do corpo feminino, que viemos todos.
  Lembro ainda que, assim como o estupro, violências sexuais acontecem diariamente – quase sempre na invisibilidade – contra pessoas com deficiência (especialmente a intelectual), crianças de qualquer sexo, gays, travestis, transgêneros, idosos e quaisquer pessoas em situação de vulnerabilidade. A violência é uma excrescência do convívio social e deve ser punida e combatida em sua origem, sob pena de sua permanente reprodução.
  A questão é bem mais complexa que um meme. Embora se assuma rápida e repetidamente a atribuição de culpabilização social e se deseje fazer crer que esta seria uma característica encruada na sociedade brasileira, eu discordo dessa ideia. Penso que não existe este ente coletivo: a sociedade brasileira. Existem sociedades brasileiras. No plural. E a exacerbação da violência costuma acontecer em territórios conflagrados, não necessariamente os periféricos.
  Discordo que a violência seja um traço cultural da sociedade brasileira, população acostumada a enfrentar violências e privações seculares sem maiores registros de levantes e revoltas populares. A violência extremada implica um complexo dinâmico envolvendo tanto a expressão do ódio quanto ao escasso cerceamento moral. Não por acaso costuma ocorrer contra segmentos vulneráveis, como os indígenas e moradores de rua eventualmente incinerados em espaços públicos, contra prostitutas e contra pessoas sem qualquer defesa. 
  Não se trata de invocar aqui mais uma vez a platitude da necessidade de investimento em educação, mas na de uma educação humanizante, cujos resultados não visem meramente o sucesso econômico e social, mas o aprendizado do humano, suas pulsões e de uma ética capaz de garantir, ou pelo menos promover, a integridade de todos e o respeito ao sujeito e às individualidades.
  Ainda assim, apenas o investimento em educação pública poderia de fato reverter a banalização da violência e substituí-la por acesso a outros e mais complexos elementos culturais. É bem pouco simples, porque a cultura da violência parece também ser uma mimese de uma cultura de poder. Ou seja, reproduz-se com argumentos precários e de dominação violenta aquilo que em outras esferas econômicas e culturais está dito e representado de outra maneira, mas de uma forma essencialmente idêntica, que é a preponderância do poder econômico e sua simbologia.
  Seja como for, é preciso seguir o exemplo das mulheres que, diante do horror de uma situação inadmissível como a que se repetiu recentemente no RJ, romperam justamente a acachapante cultura do estupor, como se irrompendo de dentro de uma bolha estourada. É absolutamente triste que precisemos de casos tão extremados para fazê-lo, mas esse é justamente o indicativo do alto grau de naturalização cultural da violência social em que vivemos todos.
  A cultura do estupor funciona como a película dessa bolha, abrigando em seu interior diversos tipos de violência, entre as quais a de gênero e a própria cultura do estupro. Se regularmente é possível viver em seu interior longe de uma ou de outra, mais ou menos repugnante, é de perguntar como podemos nos abrigar dentro disso e com estes mesmos valores. E como e por que razões, uma vez saídos dali, desejaríamos voltar. A multiplicação de denúncias e o expurgo coletivo em função do crime de estupro coletivo, dessa vez no RJ, que não deveria ter existido nem sequer ter nenhuma função social, eu quero crer que pelo menos serviu para nos mostrar o quão hediondo é ter de viver sob a cultura do estupor e o quanto nos habituamos e dessensibilizamos em suas muitas derivações violentas.

Texto adaptado. Fonte: http://www.inclusive.org.br/arquivos/29417
Assinale a alternativa cujo item em destaque NÃO esteja funcionando como pronome relativo no caso.
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Tema central: A questão exige do candidato a identificação de pronomes relativos e o reconhecimento de seus usos dentro da norma-padrão. Pronomes relativos são fundamentais para a coesão do texto, pois retomam um termo já citado (antecedente) e introduzem uma oração subordinada adjetiva, relacionada a esse termo.

Alternativa correta: A

O termo destacado em como a película dessa bolha” NÃO é pronome relativo. Aqui, "como" funciona como preposição acidental ou advérbio de comparação, estabelecendo uma analogia entre “a cultura do estupor” e “a película dessa bolha”. Não retoma nenhum termo antecedente nem introduz oração subordinada adjetiva. Portanto, está fora da definição de pronome relativo conforme a norma-padrão (Cunha & Cintra).

Análise das demais alternativas:

B) “seja de que espécie forem”: QUE é pronome relativo, pois retoma “preconceitos” e introduz a oração adjetiva “de que espécie forem”. Exemplo clássico: “Os problemas que enfrentei eram enormes”.

C) “sobre a qual não se quer nem pensar”: QUAL também é pronome relativo, retomando “hipótese” e introduzindo a oração “sobre a qual não se quer nem pensar”.

D) “entre as quais a de gênero...”: QUAIS retoma “tipos de violência” e introduz a oração que detalha as violências exemplificadas.

E) “cujos resultados não visem...”: CUJOS é pronome relativo possessivo, estabelecendo relação de posse entre “educação” (resultados de uma educação humanizante) e “resultados”. Regra: “cujo” sempre possui antecedente e se refere ao termo seguinte com ideia de posse.

Regra prática: Pronome relativo sempre retoma um antecedente (um substantivo) e introduz uma oração que informa, qualifica ou especifica esse antecedente, garantindo a coesão do texto.

Ponto de atenção (pegadinha): É comum em provas confundir o uso de “como” (que não é pronome relativo) com “que”, “qual”, “cujo”, que são pronomes relativos autênticos. Quando a banca pede o termo NÃO relativo, busque sempre aquele que não retoma substantivo nem inicia oração adjetiva.

Referência: Veja “Nova Gramática do Português Contemporâneo”, de Cunha & Cintra, para aprofundar sua compreensão sobre pronomes relativos e suas funções.

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Comentários

Veja os comentários dos nossos alunos

gab a 

 

como = conforme= conjunção conformativa

NEGATIVO!

EXELENTÍSSIMO SENHOR RODRIGO JANOT!

 

ESSE COMO NA FRASE É UMA CONJUNÇÃO COMPARATIVA!

A cultura do estupor funciona como a película dessa bolha (FUNCIONA)

O pronome relativo 'COMO' para ser considerado pronome relativo deverá ser PRECEDIDO das palavras: modo, maneira, forma e jeito e equivale a "pelo qual", normalmente.

 

 

COMPLEMENTANDO


Os pronomes relativos "que" e "qual" podem ser antecedidos pelos pronomes demonstrativos "o", "a", "os", "as" (quando esses equivalerem a "isto", "isso", "aquele(s)", "aquela(s)", "aquilo".). 

 

Pronome Relativos Variáveis 
Masculino: o qual / os quais ;  cujo / cujos ; quanto / quantos

Feminino: a qual / as quais ; cuja / cujas ; quanta / quantas

 

Pronome Relativos Invariáveis

quem ; que ; onde

A) A palavra COMO  funciona como conjunção comparativa, pois exerce a função de comparar a cultura do estupro a uma película de bolha.

B) A palavra "QUE" funciona como pronome indefinido, análogo a " De qual espécie". Por conseguinte, esse termo destacado também não funciona como pronome relativo.

QUESTÃO DEVERIA TER SIDO ANULADA POR POSSUIR DUAS POSSIBILIDADES DE RESPOSTA.

Prof. Pestana

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