Ao dirigir-se ao cronista dizendo que nele "o outono é manif...

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Q3884581 Português
Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo.


"Fala, amendoeira"


     Este oficio de rabiscar sobre as coisas do tempo exige que prestemos alguma atenção à natureza. Abrindo a janela, o cronista pousou a vista nas árvores, que estavam todas verdes, menos uma. Essa ostentava algumas folhas amarelas e outras já estriadas de vermelho, numa gradação fantasista que chegava mesmo até o marrom - cor final de decomposição, depois da qual as folhas caеm. E como o cronista lhe perguntasse -fala, amendoeira! -por que fugia ao rito de suas irmãs, adotando vestes assim particulares a árvore pareceu explicar-lhe:

     - Não vés? Começo a outonear. É 21 de março, data que as folhinhas assinalam o equinócio de outono. Cumpro meu dever de árvore.

     -E vais outoneando sozinha?

    - Na medida do possível. Anda tudo muito desorganizado e, como deves notar, trago comigo um resto de verão, uma antecipação da primavera, e mesmo, se reparares bem neste ventinho que me fustiga, uma suspeita de inverno.

    - Somos todos assim. 

    -Os homens, não. Em ti, por exemplo, o outono é manifesto e exclusivo. Acho-te bem outonal, meu filho, e teu trabalho é exatamente o que os autores chamam de outonada: são frutos colhidos numa hora da vida que já não é clara, mas ainda não se dilui em treva. Repara que o outono é mais estação da alma que da natureza.

    - Não me entristeça.

   - Não, querido, sou tua árvore da guarda e simbolizo teu outono pessoal. Quero apenas que outonizes com paciência e doçura. O dardo de luz fere menos, a chuva dá às frutas seu definitivo sabor. As folhas caem, é certo, e os cabelos também, mas há alguma coisa de gracioso em tudo isso: parábolas, ritmos, tons suaves... Outoniza-te com dignidade, meu velho.


(Adaptado de: ANDRADE, Carlos Drummond. Fala, amendoeira. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 13-14)
Ao dirigir-se ao cronista dizendo que nele "o outono é manifesto e exclusivo" (6o parágrafo), a natureza se apoia na convicção de que esse escritor
Alternativas

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: O critério decisivo é semântico-textual: a expressão "o outono é manifesto e exclusivo" deve ser lida pela metáfora existencial explicitada no próprio texto, especialmente em "Acho-te bem outonal, meu filho, e teu trabalho é exatamente o que os autores chamam de outonada: são frutos colhidos numa hora da vida que já não é clara, mas ainda não se dilui em treva. [...] Quero apenas que outonizes com paciência e doçura." Isso define o cronista como alguém numa fase madura e intermediária da vida, vivida com serenidade, o que conduz à alternativa C.

Tema central: metáfora do outono
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa erra por extrapolação psicológica indevida. O texto não fala em "complexo de emoções", nem sugere que o cronista seja impedido de ser natural. A metáfora do outono é apresentada como etapa existencial da vida, com maturidade e declínio sereno, não como desajuste emocional ou artificialidade pessoal.
B
Errada
A alternativa transfere ao cronista uma caracterização que o texto atribui à árvore. Quem reúne traços de várias estações é a amendoeira: "trago comigo um resto de verão, uma antecipação da primavera, e mesmo [...] uma suspeita de inverno". Em seguida, ela contrapõe claramente: "Os homens, não. Em ti, por exemplo, o outono é manifesto e exclusivo." Portanto, no cronista há predominância do outono, não combinação de estações.
C
Certa
A alternativa C traduz com precisão a imagem construída pela amendoeira: o "outono" do cronista não indica mistura de estados nem decadência trágica, mas uma passagem entre fases da vida. O trecho "já não é clara, mas ainda não se dilui em treva" marca exatamente uma condição de transição, e a recomendação "com paciência e doçura" dá a essa travessia um tom sereno. Por isso, a ideia de transitar com serenidade de um estado a outro é a consequência textual correta.
D
Errada
A alternativa é incompatível com o campo semântico do trecho. Não há qualquer base textual para "intensidade máxima de suas paixões". Ao contrário, a passagem é construída com marcas de moderação e suavidade: "paciência", "doçura" e "gracioso". O texto caracteriza amadurecimento sereno, não exaltação passional.
E
Errada
A alternativa contraria diretamente a metáfora central. O cronista é associado a uma fase madura da existência, não à imaturidade. A definição de "outonada" como frutos colhidos numa hora da vida "que já não é clara, mas ainda não se dilui em treva", além da referência a folhas e cabelos que caem, aponta para maturidade e envelhecimento, não para juventude com vantagens excepcionais.
Pegadinha da questão
A banca opõe duas leituras possíveis e cobra que o candidato não confunda a condição da árvore com a do cronista: a mistura de estações pertence à amendoeira, enquanto no escritor o "outono" é "manifesto e exclusivo". A outra armadilha é ler "outono" só como decadência, ignorando que o texto o qualifica por "paciência e doçura".
Dica para questões semelhantes
  • Quando o texto usa uma estação do ano de modo figurado, procure no próprio trecho a definição dessa metáfora antes de julgar as alternativas.
  • Observe contrastes explícitos do texto: aqui, a árvore é híbrida, mas o cronista é descrito como exclusivamente outonal.
  • Para validar inferências, use os qualificadores do texto: "já não é clara, mas ainda não se dilui em treva" e "paciência e doçura" delimitam o sentido correto.

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Comentários

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C

C) está num momento da vida em que se transita com serenidade de um estado a outro.

Interpretação:

A amendoeira associa o cronista ao outono, que no texto simboliza uma fase mais madura da vida. Diz que o trabalho dele é uma "outonada", tipo um fruto de uma época em que a vida "já não é clara, mas ainda não se dilui em treva"...

E tem essa parte também:

"Outoniza-te com paciência e doçura"...

Meio que sugerindo uma transição serena entre etapas da existência, pela reflexão e pela aceitação natural do tempo.

"são frutos colhidos numa hora da vida que já não é clara, mas ainda não se dilui em treva. "

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