Descrito há pouco mais de um século, o Alzheimer apaga a
memória e reduz a capacidade de planejar e realizar as tarefas
do dia a dia. Todavia, esses sinais são típicos dos estágios
avançados da doença. Muito antes, ela pode se manifestar de
modo dissimulado, fazendo-se confundir com problemas como
a depressão, a ansiedade ou alterações súbitas no padrão de
sono e apetite.
Sabe-se que esses distúrbios psiquiátricos são mais
frequentes nas pessoas que desenvolvem Alzheimer do que na
população idosa saudável. Parte dos especialistas defende, com
base em estudos populacionais, que a depressão e a ansiedade
surgiriam primeiro, em decorrência das dificuldades impostas
pelo próprio envelhecimento, e, se não tratadas, aumentariam
o risco de Alzheimer. Contudo, surgem evidências de que, ao
menos em parte dos casos, o oposto pode acontecer: as
manifestações psiquiátricas seriam consequência dos danos
neurológicos dos estágios iniciais do Alzheimer.
Em um trabalho conduzido pela neuropatologista brasileira
Lea Tenenholz Grinberg, observou-se que, após surgirem as
primeiras lesões neurológicas do Alzheimer, o risco de
problemas psiquiátricos aumenta. “Esses resultados indicam
que, em parte desses casos, a doença de Alzheimer já está
instalada em áreas que modulam a atividade cerebral quando
as primeiras manifestações psiquiátricas surgem”, afirma Lea.
Os novos achados podem representar dois avanços para a
pesquisa e o tratamento do Alzheimer. O primeiro é que a
identificação precoce de sinais psiquiátricos pode auxiliar no
teste de novos medicamentos. Além disso, a manifestação
psiquiátrica do Alzheimer talvez torne possível iniciar mais cedo
o uso de medicações já disponíveis.
“Uma importância do estudo coordenado por Lea é mostrar
que a depressão no idoso pode não ser de origem primária,
causada por fatores sociais ou ambientais, mas resultado de
degeneração de regiões cerebrais”, afirma a psiquiatra Paula
Villela Nunes, professora da Faculdade de Medicina de Jundiaí.
Isso não significa que seria mais fácil tratar essas pessoas.
Especializada em psiquiatria geriátrica e pesquisadora do
Instituto de Psiquiatria (IPq) da USP, Paula suspeita que a
depressão decorrente do Alzheimer responda pior aos
antidepressivos por causa das lesões degenerativas no cérebro.
“Tratar esses casos de depressão talvez seja tão desafiador
quanto tratar as demências”, diz Paula.
Dezenas de compostos já foram testados para tentar deter
ou retardar o Alzheimer. Atualmente, os especialistas apostam
que a saída é buscar formas de identificar as lesões no início ou
antes de começarem e usar compostos que evitem os danos
antes de surgirem os sinais clínicos da doença.
Há urgência para encontrar tratamentos eficazes contra o
Alzheimer. Os compostos usados para retardar a perda de
memória agem sobre o neurotransmissor acetilcolina,
aumentando a atenção. Eles, no entanto, funcionam por, no
máximo, alguns anos. Além disso, a doença vem se tornando
mais frequente à medida que as pessoas vivem mais. A
Organização Mundial da Saúde calcula que existam quase 50
milhões de pessoas com demência no mundo, de 60% a 80% dos
casos provocados por Alzheimer. Esse número deve triplicar até
2050.
Ricardo Zorzetto. Revista Fapesp. Edição 273, nov. 2018. Adaptado.