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Q4111656 Português
Relação conturbada

Embarco com muitas dúvidas. Não sei direito quem são essas pessoas que vou ver; sei seus nomes, de onde as conheço, e tenho uma imagem vaga de alguns deles, mas não sei como são nem como vou chegar até eles. Tudo que sei é que tenho oito horas e uma cadeira para pensar sobre isso.

Por oito horas o mundo se torna aquela poltrona. Você tenta se distrair, mas, no fim, é ela quem rouba sua atenção. Mesmo sentado, quase sem se mover, o corpo definha: a postura trava, o pescoço endurece, a espinha se desconcerta, os músculos enrijecem. De tempos em tempos você tenta esticar as pernas, preso num minúsculo cativeiro. Quem diria que ficar sentado cansa?

Desde que comecei a faculdade, tenho me habituado à fadiga da viagem, o estar aqui, ser de lá, pertencer a lugar algum. Três horas de ônibus já bastam para vilanizar a cadeira: vibração constante, nervos amortecidos, a memória chacoalhada. Perguntas se sentam e empedram: Devia voltar mais vezes? Devia ligar? Devia mudar?

Desta vez o ônibus é diferente; a viagem, mais longa; a cadeira, mais abusada. Estou indo para uma terra desconhecida ver gente que não vejo há uns seis, sete anos. Por pouco não falamos mais a mesma língua, mas ainda assim é família. Alguns caminhos são mais tortuosos que outros — e umas cadeiras, mais macias que outras. Mas não essa. Oito horas depois, me sinto carne moída. Não aguento mais ficar sentado.

Texto Adaptado

SALMAR, Ian. Relação conturbada. In: Portal de Livros Abertos da USP. São Paulo: Universidade de São Paulo, [s.d.]. Disponível em: https://www.livrosabertos.abcd.usp.br/portaldelivrosUSP/catalog/view/1 512/1378/5380 . Acesso em: 16 nov. 2025.
Com base no texto apresentado, analise as assertivas abaixo e assinale a alternativa que contém a interpretação coerente com o sentido global do texto, considerando a construção subjetiva do enunciador e os mecanismos de coesão e coerência empregados na narrativa.
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Gabarito: C

Fundamento decisivo: O critério decisivo é textual-semântico: a alternativa correta deve preservar a ideia explicitamente enunciada de deslocamento associado a não pertencimento, sem extrapolar para ruptura definitiva, compensação otimista ou passividade resignada. Isso está concentrado em “Desde que comecei a faculdade, tenho me habituado à fadiga da viagem, o estar aqui, ser de lá, pertencer a lugar algum.”, que articula a viagem ao estranhamento identitário e valida a leitura da C.

Tema central: não pertencimento
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa erra por extrapolação interpretativa. O texto realmente aproxima desconforto da viagem e distanciamento afetivo, mas não autoriza concluir que o narrador “não reconhece mais os vínculos familiares” nem que houve “rompimento definitivo”. O próprio texto impede essa leitura ao afirmar: “mas ainda assim é família.” Estranhamento não equivale a ruptura total.
B
Errada
A alternativa contraria o tom global da narrativa. O texto não apresenta o reencontro como compensação do sofrimento da viagem nem constrói expectativa otimista. Predominam dúvida, fadiga, desconforto, estranhamento e não pertencimento, não uma compensação emocional pelo reencontro familiar.
C
Certa
A alternativa C está correta porque sintetiza o núcleo do texto sem extrapolar. A narrativa é introspectiva, marcada por dúvida e autoquestionamento, como em “Embarco com muitas dúvidas. Não sei direito quem são essas pessoas que vou ver;” e “Perguntas se sentam e empedram: Devia voltar mais vezes? Devia ligar? Devia mudar?”. Além disso, a viagem não aparece só como trajeto físico: ela amplia a sensação de desenraizamento, explicitada em “o estar aqui, ser de lá, pertencer a lugar algum.” e reforçada por “Estou indo para uma terra desconhecida ver gente que não vejo há uns seis, sete anos. Por pouco não falamos mais a mesma língua, mas ainda assim é família.” Por isso, a alternativa acerta ao ler a travessia no tempo e no espaço como intensificação do estranhamento e do não pertencimento.
D
Errada
A alternativa erra ao atribuir ao narrador passividade resignada. A imobilidade física da viagem não se converte em inércia subjetiva; ao contrário, o texto explicita inquietação reflexiva em “Perguntas se sentam e empedram: Devia voltar mais vezes? Devia ligar? Devia mudar?”. Portanto, não há resignação, mas incômodo e questionamento sobre origem e vínculos.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre desconforto corporal e sentido global do texto: quem lê a cadeira e o cansaço como tema exclusivo erra, porque esses elementos estão articulados ao distanciamento afetivo e ao não pertencimento; também é pegadinha transformar estranhamento em rompimento definitivo ou em resignação.
Dica para questões semelhantes
  • Localize o trecho em que o próprio texto nomeia seu núcleo de sentido; aqui, ele está em “pertencer a lugar algum”.
  • Não transforme estranhamento, distância ou dúvida em conclusão mais forte do que o texto autoriza, como rompimento definitivo ou tom otimista.
  • Observe se elementos concretos do relato, como corpo, espaço e viagem, estão funcionando também como suporte da subjetividade do narrador.

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