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Q3577277 Português
Leia o texto a seguir para responder à questão:


A voz sem microfone


    Semana passada, animais de toda sorte, desde o cavalo à tartaruga, passando pelo esquilo, foram abençoados por um frade, em praça pública de Ipanema. Não sei o que eles acharam da benção. O ponto de vista dos animais não é necessariamente o nosso, por muito que eles façam para entender-nos. Mas a benção foi dada com a melhor das intenções, e a tartaruga não terá motivo para reclamar contra essa efusão espiritual sobre sua carapaça.

    O que não quer dizer que os bichos não tenham opinião. Tanto a têm que editam um jornalzinho, ou encarregam gente de editá-lo por eles. Chama-se precisamente A Voz dos Animais e já vai pelo sexto número. Em cinco anos, saiu à rua seis vezes. Não se pode dizer que os animais abusem do direito de manifestar-se.

    Tenho à mão o número 6 e parece-me ouvir, de fato, a voz do animal através da modesta textura do papel de mimeógrafo. Porque o jornal é mimeografado. As finanças da organização não dão para mais. De qualquer modo, a voz, as vozes múltiplas e não raro pungentes dos chamados bichos, os signos linguísticos específicos de várias espécies irrompem do jornalzinho pobre e vêm cutucar-nos o ouvido pouco afeito a linguagens não dicionarizadas.

    Precisamos falar, precisamos ser escutados – diz o vozeio humilde, e aqui é um gato a protestar contra a estúpida corrida de gatos, ali é o cavalo pingando sangue depois do rodeio em que o obrigam a derrubar o cavaleiro, esporeando-o nas partes mais sensíveis. 

    O animal como ator compulsório de um espetáculo de sadismo com fins comerciais – eis uma das misérias da sociedade de entretenimento ou de consumo de crueldade. Ainda nos comprazemos em fazer sofrer, e tiramos disso um lucro em moeda corrente, que mais uma vez a pequenina, débil e mimeografada voz dos animais denuncia nos limites do melhor dos nossos órgãos de imprensa.


(Carlos Drummond de Andrade. Disponível em: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/18017/a-voz-sem-microfone)
Assinale a alternativa em que o trecho do texto foi reescrito em conformidade com a norma-padrão de colocação pronominal.
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Tema central da questão: Morfologia — Colocação Pronominal (próclise, ênclise e mesóclise). Discute-se a posição correta dos pronomes oblíquos átonos em relação ao verbo, fundamental para responder de forma adequada conforme a norma-padrão exigida em redação oficial e provas de concursos.

Justificativa para a alternativa correta – Letra D

Na alternativa D) "... abusem do direito de se manifestar.", a colocação do pronome "se" está correta. Segundo a norma-padrão, após a preposição "de" + verbo no infinitivo, há preferência pela próclise: "de se manifestar". Não existe fator de atração para outro tipo de colocação, e a próclise nesse contexto é a forma culta e recomendada.
Gramáticas de referência como Bechara (2009) e Cunha & Cintra (2008) ratificam essa preferência: “O pronome átono anteposto ao infinitivo é preferível em situações formais.”

Análise crítica das alternativas incorretas:

A) "Tanto têm-na que editam..."Incorreta. "Tanto" funciona como palavra atrativa. O correto seria "Tanto a têm que editam..." (próclise devido ao fator atrativo).

B) "Se chama precisamente A Voz dos Animais..."Incorreta. O verbo "chamar" no sentido de nomear pede ênclise porque inicia a oração. O correto é "Chama-se precisamente..."

C) "Não pode-se dizer..."Incorreta. A palavra de sentido negativo "não" exige próclise. O correto: "Não se pode dizer..."

E) "Ainda comprazemo-nos em fazer sofrer..." — Por mais que use ênclise, que é aceita quando o verbo inicia a oração, há preferência pela próclise em contextos formais. O Manual de Redação da Presidência da República e gramáticas modernas consideram menos elegante esse uso; o preferível seria "Ainda nos comprazemos..."

Estratégias de prova: Preste atenção a palavras atrativas (não, tanto, que) e início de oração. Observe se há pausas/vírgulas, pois também interferem na colocação. Leia as opções pensando na “musicalidade culta” da língua, muito útil para detectar desvios.

Resumo das regras essenciais:
- Próclise: após palavras negativas, conjunções, advérbios e pronomes relacionados (“não se pode dizer...”).
- Ênclise: início de oração sem fator atrativo (“Chama-se...”), mas evite quando há elementos atrativos.
- Mesóclise: específicos casos com verbo no futuro, sem palavras atrativas (“Convidar-me-ão”).

A alternativa D demonstra domínio da norma culta, crucial para cargos de Analista Legislativo. Pratique identificar fatores de atração e lembre-se das exceções!
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GABARITO LETRA D

. Após preposição (“de”), a próclise é obrigatória: "de se manifestar".

Se chama precisamente A Voz dos Animais… (2° parágrafo)

No início de frase, a próclise (“Se chama”) não é aceita na norma-padrão; deveria ser: "Chama-se precisamente A Voz dos Animais…"

Não pode-se dizer que os animais abusem

 Depois de palavra atrativa (“não”), a norma exige próclise. Correto seria: "Não se pode dizer…".

Ainda comprazemo-nos em fazer sofrer…

Após advérbio (“ainda”), a norma pede próclise: "Ainda nos comprazemos…"

Letra "D" é a única alternativa que não há atrativo para próclise

O advérbio “tanto” atrai o pronome para antes do verbo → o correto seria “Tanto a têm que…”.

❌ Incorreto.

O verbo “chamar-se” está no início da oração. No início de frase, a norma-padrão não admite próclise (uso do “se” antes do verbo). O correto seria “Chama-se precisamente…”.

❌ Incorreto.

A partícula de negação (“não”) obriga a próclise. O correto seria “Não se pode dizer…”.

❌ Incorreto.

O verbo “manifestar-se” está em infinitivo, e neste caso a ênclise (se manifestar) é aceita na norma-padrão.

✅ Correto.

O advérbio “ainda” atrai o pronome para antes do verbo → o correto seria “Ainda nos comprazemos…”.

❌ Incorreto.

Analisando:

  • A) Tanto têm-na... → correto: próclise obrigatória (“tanto a têm”). Errado.
  • B) Se chama precisamente... → correto: ênclise no início de frase não é admitida (“Chama-se...”). Errado.
  • C) Não pode-se dizer... → correto: com “não” exige próclise (“Não se pode dizer”). Errado.
  • D) ... abusem do direito de se manifestar. → certo: verbo + infinitivo admite próclise (“de se manifestar”). Correto.
  • E) Ainda comprazemo-nos... → correto: com advérbio (“ainda”) → exige próclise (“Ainda nos comprazemos”). Errado.

✅ Resposta: D

A colocação pronominal é influenciada por fatores de atração:

  • Próclise (pronome antes do verbo) é obrigatória com palavras negativas (não, nunca, nada, ninguém), advérbios sem pausa (aqui, hoje, já, muito), pronomes relativos (que, quem, cujo), pronomes indefinidos (tudo, alguém), conjunções subordinativas (se, quando, que, conforme), em frases exclamativas/interrogativas e em orações iniciadas por preposição seguida de gerúndio.
  • Ênclise (pronome depois do verbo) é a colocação de base e ocorre quando não há fator de atração. É obrigatória em inícios de frase, com o verbo no infinitivo impessoal e no gerúndio sem preposição.
  • Mesóclise (pronome no meio do verbo) ocorre apenas com verbos no futuro do presente ou futuro do pretérito, desde que não haja fator de atração.

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