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Q3577270 Português
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Chuvas e constelações


    Um tema pouco veiculado na literatura etnológica brasileira é o calendário das atividades de subsistência de um grupo indígena – os Desâna, do rio Tiquié –, determinado pelo aparecimento de certas constelações. O conhecimento empírico dos Desâna divide o clima da região em certo número de “verões”, alguns muito curtos, outros mais longos, entremeados por chuvas, estas anunciadas pelas constelações. A ambas – constelações e chuvas – estão associados os ciclos econômicos naturais: início, amadurecimento e término das safras de frutas; ocorrência de piracemas; safras de insetos, como a maniuara e a saúva, de grande importância alimentar. Às referidas mudanças climáticas vincula-se também o ciclo agrícola, pois a queima das roças é feita nas estiagens. 

    O ano dos indígenas Desâna começa em outubro, quando surge no poente a constelação “Iluminação da jararaca” (añá siñoliru). A pesada chuva que ela anuncia também tem esse nome. Logo surgem, uma em seguida à outra, as constelações que completam a figura da cobra: a “Cabeça de jararaca” (añá dihpuro puiró) e o “Corpo de jararaca” (añá dëhpë puiro). É época de fazer a limpeza do solo e a derrubada das árvores para abrir novas roças.

    Em janeiro vem o “verão do abiu” (kané were: abiu, verão), que dura cinco dias. É quando essa fruta começa a escassear. Vem em seguida o “verão do ingá” (mené were: ingá, verão), também assinalado pelo término da safra dessa fruta de vagem comprida. Esse verão dura de oito a 15 dias, tempo dedicado à queima da roça aberta na mata virgem derrubada em outubro. Quando acaba esse verão, no fim de janeiro, começa a chuva “Fêmur de tatu”, anunciada pela constelação do mesmo nome (pamo ngoá dëhka).

    As observações climáticas dos Desâna contradizem a noção de que, na região, há apenas duas estações: seca e chuvosa, ou “verão” e “inverno”. Também superam outra classificação simplista, que só distingue no solo amazônico a terra firme, a campina e a várzea. Disso se conclui que o conhecimento indígena dos fenômenos climáticos deve ser considerado para a compreensão da etnoecologia da Amazônia.


(Berta Ribeiro e Tolamãn Kenhíri. Chuvas e Constelações: Calendário econômico dos índios Desâna. Disponível em: https://revistacienciaecultura.org.br/?artigos=chuvas-e-constelacoes)
Assinale a alternativa em que a expressão entre colchetes substitui aquela destacada, sem prejuízo da norma­-padrão da língua.
Alternativas

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Tema central: Esta questão avalia o domínio sobre pronomes relativos (função morfossintática do “que”), especialmente a possibilidade de substituir “que” por “a qual” nas estruturas relativas, respeitando as regras da norma-padrão de regência e concordância.

Justificativa da alternativa correta (D):

No trecho “...classificação simplista, que só distingue no solo amazônico a terra firme, a campina e a várzea”, o “que” atua como pronome relativo, retomando “classificação simplista”, termo feminino e singular. A substituição por “a qual” é correta, pois mantém o sentido, a coesão e a concordância:

“...classificação simplista, a qual só distingue no solo amazônico...”

Conforme Bechara (Moderna Gramática Portuguesa), “o qual” e variações são pronomes relativos que concordam com o antecedente e podem substituir “que” quando não houver perda de sentido ou erro de regência.

Análise das alternativas incorretas:

A) “A pesada chuva que [na qual] ela anuncia...” – Incorreta. “Anunciar” não pede preposição “em”. Usar “na qual” geraria erro de regência.

B) “As constelações que [das quais] completam...” – Incorreta. O verbo “completar” não exige a preposição “de”. “Das quais” só é aceitável se a regência exigir “de”.

C) “Verão do abiu, que [onde] dura cinco dias” – Incorreta. “Onde” só pode ser empregado referindo-se a lugar físico. “Verão” não é local.

E) “Disso se conclui que [no qual] o conhecimento indígena...” – Incorreta. Aqui, “que” inicia uma oração subordinada substantiva, não relativa; não pode ser substituído por “no qual”, que retoma termos antecedentes com valor preposicional.

Dicas e estratégias:

✔ Sempre observe a regência verbal (se o verbo exige preposição) e o sentido do antecedente ao substituir pronomes relativos.

✔ Não troque “que” por “a qual” se isto provocar incoerência, perda de sentido ou erro gramatical (como uso indevido de preposição ou mudança de referência).

Resumo: O pronome “que” pode ser substituído por “a qual” (e suas flexões) quando houver plena equivalência gramatical e semântica, obedecendo concordância e regência, como orientam Bechara e Cunha & Cintra.

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Comentários

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Na alternativa D, o “que” está funcionando como sujeito, e pode ser substituído por “a qual”.

A) A pesada chuva que [na qual] ela anuncia também tem esse nome.

  • O verbo "anunciar" é transitivo direto; quem anuncia, anuncia algo. Portanto, a regência correta é sem preposição. A frase original usa o "que" como objeto direto ("que ela anuncia" = "ela anuncia a chuva").
  • A substituição por "na qual" (preposição "em" + pronome "qual") está incorreta, pois o verbo "anunciar" não exige essa preposição.

B) Logo surgem, uma em seguida à outra, as constelações que [das quais] completam a figura da cobra…

  • O verbo "completar" é transitivo direto; quem completa, completa algo. A frase original usa o "que" como sujeito da oração ("que completam a figura").
  • A substituição por "das quais" (preposição "de" + pronome "quais") está incorreta, pois o verbo "completar" não exige a preposição "de".

C) Em janeiro vem o “verão do abiu” (kané were: abiu, verão), que [onde] dura cinco dias.

  • O termo "verão do abiu" (kané were: abiu, verão) é um conceito temporal, não um lugar físico.
  • O pronome "onde" é usado para se referir a lugares. A substituição está incorreta, pois não se trata de um local.

D) ... classificação simplista, que [a qual] só distingue no solo amazônico a terra firme, a campina e a várzea.

  • O pronome relativo "que" retoma o termo "classificação simplista", funcionando como sujeito da oração ("que só distingue...").
  • O pronome "a qual" também pode retomar "classificação simplista" e funcionar como sujeito. A regência do verbo "distinguir" ("distingue a terra firme...") está correta, sem necessidade de preposição.
  • A substituição está gramaticalmente correta.

E) Disso se conclui que [no qual] o conhecimento indígena dos fenômenos climáticos deve ser considerado...

  • A palavra "que" neste caso é uma conjunção integrante, introduzindo uma oração substantiva que funciona como sujeito de "se conclui".
  • O pronome "no qual" tem função de pronome relativo e exige a presença de uma preposição exigida pelo verbo. Sua utilização aqui está incorreta.

A única alternativa que faz a substituição corretamente, mantendo a norma-padrão da língua, é a D.

Fonte: Gemini

GAB: D

REGRA:

EM + QUE = no qual, na qual

A + QUE = ao qual, à qual

COM + QUE = com o qual, com a qual

palavras e expressões (Feminino no plural)= as quais

EX:

há diversas palavras e expressões que podem colocar em uma verdadeira saia-justa

 

o termo "onde" pode assumir diferentes funções morfológicas, a depender do contexto de ocorrência:

Como pronome relativo, retomando o termo anterior com nexo locativo;

"A rua onde morei está totalmente diferente."

Como adverbio, indicando circunstância de lugar;

"Trabalho onde sempre trabalhei."

Como, para alguns gramáticos, conjunção integrante, introduzindo oração subordinada substantiva;

"Não sei onde entregar esse pacote."

D. O pronome relativo que pode ser substituído por a qual sem alteração de sentido e de acordo com a norma-padrão, pois ambos retomam o termo anterior "classificação simplista". As demais substituições geram erros de regência (A, B), uso indevido de advérbio de lugar (C) ou de pronome relativo (E).

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