A história mostra que a insegurança com o novo não é novidade. Desde que a humanidade aprendeu a
transformar ideias em ferramentas, todo salto tecnológico foi precedido por uma fase de dúvida, resistência,
desconfiança — e muita desinformação. É um período de desorientação coletiva, em que o pensamento crítico
parece hibernar e a mente pública se torna refém de processos que se impõem de forma automatizada, sem
qualquer domínio social.
É justamente nesse lapso entre a revolução e a compreensão que surgem os maiores perigos: a lucidez
coletiva se fragiliza, e a população se torna mais vulnerável à manipulação por parte de pessoas ou corporações
oportunistas, gananciosas e sabotadoras do bem comum. Foi assim com a teoria da evolução, a energia nuclear e
os antibióticos. Ainda é com as vacinas, a informação e as redes sociais.
Esse intervalo entre a tecnologia e seu domínio público pode ser fatal. E a receita para evitar o colapso
sempre foi a mesma: comunicação pública da ciência. Vejamos o caso da inteligência artificial (IA), um dos
grandes saltos tecnológicos do nosso tempo — ao lado da computação quântica, da biotecnologia e da automação
autônoma. No Brasil, por exemplo, a Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial (EBIA) representa um avanço
relevante. Diretrizes foram definidas. Centros de pesquisa estão sendo anunciados em diferentes estados,
inclusive no Distrito Federal. O plano é robusto: princípios éticos, regulamentação, segurança, transparência e
incentivo à inovação.
Mas há uma ausência comum — e grave — em todas essas iniciativas: não há qualquer eixo, meta ou
investimento voltado à comunicação pública da ciência. E isso compromete tudo. A IA é, antes de tudo, uma nova
forma de se relacionar com o mundo, com os dados, com as decisões. Mas, quando a população não é chamada
a entender — apenas a obedecer —, cria-se um ambiente propício à desinformação, ao medo e ao uso indevido.
A IA pode transformar e unir o mundo — mas só com educação e comunicação podemos fazê-la conversar de
forma eficiente e sábia.
Assim como a internet, o medo da IA não é da tecnologia; é do novo. Do que não se conhece. Do que não
se domina. Do que é anunciado como inevitável, mas não explicado como funciona. Sem pontes entre o
conhecimento técnico e o entendimento público, corremos o risco de construir muros em vez de caminhos. A IA
para o povão não será de inteligência — será de ilusão.
Não basta que os algoritmos sejam éticos. É preciso que sejam compreendidos.
Não basta que os dados
sejam transparentes. É preciso que estejam acessíveis. O problema não é a inteligência artificial — é a ausência
de comunicação real. Sem comunicação pública da ciência, até o progresso vira ameaça. A tecnologia evolui. Mas
o entendimento precisa acompanhar. O futuro só será coletivo se for compreensível. Inteligência artificial, sem
escuta e explicação, vira apenas exclusão automatizada.
Imagine algoritmos decidindo quem recebe um benefício social, quem será priorizado na saúde pública ou
quais bairros devem ter mais policiamento. Agora, imagine que ninguém sabe como essas decisões são feitas —
nem mesmo quem as administra. A inteligência vira opacidade. O automatismo vira desumanização.