Ao utilizar a célebre frase de Júlio César “Até tu, Brutus...

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Q2234083 Português
Das vantagens de ser bobo

O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar no mundo.

– O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: “Estou fazendo. Estou pensando.”

– Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem à ideia.

– O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não veem.

– Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os veem como simples pessoas humanas. – O bobo ganha liberdade e sabedoria para viver.

– O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes o bobo é um Dostoiévski.

– Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar-refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era a de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro.

– Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranquilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado.

– O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo nem nota que venceu.

– Aviso: não confundir bobos com burros.

– Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a frase célebre: “Até tu, Brutus?”

[...]

É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.

Clarice Lispector
Ao utilizar a célebre frase de Júlio César “Até tu, Brutus”, a autora estabelece com este fato histórico uma relação intertextual. A autora pretende com isso: 
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito comentado – Questão de Interpretação/Intertextualidade

Tema central: Esta questão aborda interpretação de texto e, especificamente, o conceito de intertextualidade. A intertextualidade, de acordo com as gramáticas de referência (como Bechara e Koch), é o fenômeno de um texto fazer referência a outro, seja por citação, alusão ou paráfrase, enriquecendo o sentido da mensagem.

Análise do texto: Clarice Lispector menciona a célebre frase de Júlio César, “Até tu, Brutus?”, referindo-se explicitamente a um momento de traição inesperada, usado para reforçar a ideia de que até pessoas notáveis podem ser surpreendidas pela deslealdade, assim como os “bobos” citados no texto.

Justificativa da alternativa correta (C):
A resposta correta é C: “Dar autoridade ao seu texto, evidenciando que ocorrências cotidianas também fazem parte da vida de pessoas notáveis.” Ao utilizar o episódio histórico de César e Brutus, a autora mostra que situações de traição, como a enfrentada por um “bobo”, não se restringem ao cotidiano das pessoas comuns, mas também marcam figuras históricas. Isso fortalece seu argumento e amplia o alcance da reflexão usando um recurso de autoridade – estratégia recomendada nos manuais de redação e gramáticas (ex: Koch, “A coesão textual”).

Análise das alternativas incorretas:

  • (A) – Apenas erudição: Incorreta. O objetivo não é parecer culta, e sim justificar uma ideia.
  • (B) – Ironia: Incorreta. O tom do texto é analítico, não irônico.
  • (D) – Diminuir César: Incorreta. A intenção é ilustrar a universalidade do tema, não rebaixar o personagem histórico.
  • (E) – Estreitar relação com o leitor: Incorreta. Embora a referência gere familiaridade, o foco é demonstrar que a situação exemplificada é comum a todos, inclusive grandes personagens.

Dica para provas: Sempre que se deparar com referências históricas ou literárias, questione a função desse recurso: Ilustrar, argumentar, legitimar ou apenas mostrar erudição?

Resumo: O gabarito é C porque a intertextualidade é usada para fortalecer a argumentação, mostrando o alcance universal dos exemplos dados.

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Comentários

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porque a letra b esta errada? uma ocorrencia cotidiana seria considerado ser bobo??

Banca pequena é, realmente, um problema sério!

GAB C

A intenção da autora é mostrar que até o imperador Júlio César passou por uma situação na qual agiu como um "bobo".

Típica questão na qual a banca escolhe o gabarito que quer e só nos resta aceitar.

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