Sobre a pontuação do trecho “Sempre que volto de férias, pen...

Próximas questões
Com base no mesmo assunto
Q3615393 Português

Quem me dera (mas Deus me livre)


    Sempre que volto de férias, penso: é isso! É assim que a vida tem que ser. Leve, sem pressa, sem pressão. Tem que ter descobertas diárias de lugares novos – também dentro de nós. Antes de colocar o pé na rotina, me prometo que agora vai. Trarei comigo aquela mulher plena, serena, livre. Não depende do lugar, dá para fazer da vida real o paraíso possível.

    Imagino, então, uma vida assim. Uma eternidade de dias bons. Sem tempo feio: se calor, tem praia; se frio, lareira. Ao meu lado, um homem que me entende sem precisar de legendas, e que nunca erra a hora do silêncio e do carinho. Que me ama do jeito que eu queria ser amada antes de entender que isso não existe.

    Filhos comportados e felizes, como são nas férias. Solidários, sem telas, sem chiliques. Me olham com o fascínio de quando mamavam no peito: aceitando, agradecendo. E que dormem. Dormem muito.

    Uma casa minimalista, autolimpante, com cheirinho de madeira. Não tem elevador, vizinhos, carros. Nenhum barulho humano. Só o canto da natureza e a sinfonia do mar batendo nas pedras (sim, paraíso tem que ter mar). A vista da janela é o meu quintal, o sol e a lua na minha frente, se revezando só para mim.

    Estarei rodeada de um círculo seleto de amigos sinceros, sofisticados e espiritualmente evoluídos. Que só aparecem na hora certa, com uma boa garrafa de vinho. Meu corpo aguenta as três taças. Acorda disposto com a pele bonita, como fica nas férias: dourada, sem pregas na testa, natural. O corpo dança, corre, nada e me obedece como se fosse meu. A alma, curada. Centrada e grata. Capaz de perdoar tudo, até a minha própria plenitude.

    O mundo finalmente terá entendido meu ritmo. Me adaptarei tão bem, que começarei a suspeitar que esse, afinal, seria meu estado natural.

    E uma manhã, sem motivo nenhum, sinto falta. Não sei de quê. Talvez da bagunça. De alguma voz mais alta, alguma cobrança, decepção, insônia. Do ruído da vida real. Da fumaça da cidade que eu tanto amaldiçoo.

    Começo a desconfiar da calmaria e da segurança. Desconfio da vista. Desconfio daquele homem que me entende demais – e, por isso mesmo, me cansa. Estranho minhas sobrancelhas relaxadas. O sorriso constante começa a doer os músculos da face. A doçura dos filhos me enjoa. Me canso do sono profundo de todas as noites e dos sonhos tão limpos. Me irrito com a pelinha da cutícula, os pés descalços, a histeria insuportável dos passarinhos das manhãs. Fico irritada, enfim, com a plenitude; intimidada com a perfeição da natureza que escancara o quanto sou pequena. Sinto falta do que faz mal, da gordura, do descontrole, do Wi-Fi, de mentiras.

    Para quem tem uma alma inquieta, uma existência sem desvio é apenas uma linha reta – e linhas retas são as mais fáceis de derrubar. A tragédia da felicidade é que ela dura pouco. Alívio!

    Eu, que tanto busco a paz, sem um pouco de atrito não me acendo. O que me salva é exatamente aquilo que me inquieta. O tropeço, o caos, a carne viva da imperfeição. A dorzinha chata que lembra: você ainda está aqui. O que me salva é o desejo, esse bicho sedento que vive da procura e nunca quer encontrar.

    O paraíso talvez seja só uma boa ideia. E saber disso já é conquistar um pedaço dele na terra.

    Volto das férias com medo e preguiça da realidade. Já as querendo de volta.

    Quem me dera viver sempre no modo férias. Mas Deus me livre.


(Por: Becky S. Korich. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/. Acesso em: julho de 2025. Adaptado.)

Sobre a pontuação do trecho “Sempre que volto de férias, penso: é isso!” (1º§), é correto afirmar que: 
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Tema central: Pontuação — uso dos dois-pontos e do ponto de exclamação.

No trecho “Sempre que volto de férias, penso: é isso!”, dois sinais de pontuação são empregados com funções distintas e essenciais.

Primeiro, os dois-pontos (:) aparecem para introduzir uma explicação ou transcrição direta do pensamento do sujeito. Segundo as gramáticas de referência, como Celso Cunha & Lindley Cintra, esse sinal serve para apresentar citações, enumerações ou esclarecimentos, não para marcar a suspensão de uma ideia.

No final do trecho, o ponto de exclamação (!) é usado. Esse ponto, conforme Evanildo Bechara, recebe a função de indicar entonação exclamativa, expressando intensidade, emoção ou surpresa. No caso do enunciado, “é isso!” não traz ordem ou conselho (formato imperativo), mas sim expressa o sentimento de certeza e empolgação do sujeito ao retomar as férias.

Análise das alternativas:

A) A vírgula marca uma pausa longa.
Errada: vírgula indica pausa breve, segundo a norma-padrão, e embora exista uma no trecho, ela não marca pausa longa nem é o foco do enunciado.

B) Os dois-pontos anunciam a suspensão de uma ideia.
Errada: o correto, conforme gramática normativa, é admitir que os dois-pontos introduzem explicação ou citação. Não há suspensão de pensamento.

C) O ponto de exclamação foi utilizado para indicar entonação exclamativa.
Certa! O ponto de exclamação no trecho expressa o sentimento do personagem, indicando surpresa, intensidade ou emoção – função reconhecida pelas principais gramáticas.

D) O ponto de exclamação foi utilizado para enfatizar uma frase imperativa.
Errada: “é isso!” não é um comando, ordem ou pedido, mas sim uma exclamativa. Não há traço do modo imperativo.

Resumo e dica: Em questões de pontuação, leia atentamente o contexto, identifique o sentido da frase e relacione com as funções tradicionais dos sinais, segundo gramáticas como Bechara e Cunha & Cintra. Cuidado com pegadinhas sobre terminologia (exclamativa x imperativa).

Gabarito: C

Gostou do comentário? Deixe sua avaliação aqui embaixo!

Clique para visualizar este gabarito

Visualize o gabarito desta questão clicando no botão abaixo

Comentários

Veja os comentários dos nossos alunos

Ponto de Exclamação ("!") após "isso": O ponto de exclamação é usado para expressar emoção, surpresa, ênfase, espanto ou admiração. A frase "é isso!" expressa um sentimento forte ou uma conclusão enfática, por isso a entonação é exclamativa. (Alternativa C está correta.)

Frase Imperativa: Uma frase imperativa expressa ordem, pedido ou conselho (Ex: "Volte cedo!"). A frase "é isso!" é uma frase declarativa/exclamativa, não imperativa. (Alternativa D está incorreta.)

Clique para visualizar este comentário

Visualize os comentários desta questão clicando no botão abaixo