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Q3615386 Português

Quem me dera (mas Deus me livre)


    Sempre que volto de férias, penso: é isso! É assim que a vida tem que ser. Leve, sem pressa, sem pressão. Tem que ter descobertas diárias de lugares novos – também dentro de nós. Antes de colocar o pé na rotina, me prometo que agora vai. Trarei comigo aquela mulher plena, serena, livre. Não depende do lugar, dá para fazer da vida real o paraíso possível.

    Imagino, então, uma vida assim. Uma eternidade de dias bons. Sem tempo feio: se calor, tem praia; se frio, lareira. Ao meu lado, um homem que me entende sem precisar de legendas, e que nunca erra a hora do silêncio e do carinho. Que me ama do jeito que eu queria ser amada antes de entender que isso não existe.

    Filhos comportados e felizes, como são nas férias. Solidários, sem telas, sem chiliques. Me olham com o fascínio de quando mamavam no peito: aceitando, agradecendo. E que dormem. Dormem muito.

    Uma casa minimalista, autolimpante, com cheirinho de madeira. Não tem elevador, vizinhos, carros. Nenhum barulho humano. Só o canto da natureza e a sinfonia do mar batendo nas pedras (sim, paraíso tem que ter mar). A vista da janela é o meu quintal, o sol e a lua na minha frente, se revezando só para mim.

    Estarei rodeada de um círculo seleto de amigos sinceros, sofisticados e espiritualmente evoluídos. Que só aparecem na hora certa, com uma boa garrafa de vinho. Meu corpo aguenta as três taças. Acorda disposto com a pele bonita, como fica nas férias: dourada, sem pregas na testa, natural. O corpo dança, corre, nada e me obedece como se fosse meu. A alma, curada. Centrada e grata. Capaz de perdoar tudo, até a minha própria plenitude.

    O mundo finalmente terá entendido meu ritmo. Me adaptarei tão bem, que começarei a suspeitar que esse, afinal, seria meu estado natural.

    E uma manhã, sem motivo nenhum, sinto falta. Não sei de quê. Talvez da bagunça. De alguma voz mais alta, alguma cobrança, decepção, insônia. Do ruído da vida real. Da fumaça da cidade que eu tanto amaldiçoo.

    Começo a desconfiar da calmaria e da segurança. Desconfio da vista. Desconfio daquele homem que me entende demais – e, por isso mesmo, me cansa. Estranho minhas sobrancelhas relaxadas. O sorriso constante começa a doer os músculos da face. A doçura dos filhos me enjoa. Me canso do sono profundo de todas as noites e dos sonhos tão limpos. Me irrito com a pelinha da cutícula, os pés descalços, a histeria insuportável dos passarinhos das manhãs. Fico irritada, enfim, com a plenitude; intimidada com a perfeição da natureza que escancara o quanto sou pequena. Sinto falta do que faz mal, da gordura, do descontrole, do Wi-Fi, de mentiras.

    Para quem tem uma alma inquieta, uma existência sem desvio é apenas uma linha reta – e linhas retas são as mais fáceis de derrubar. A tragédia da felicidade é que ela dura pouco. Alívio!

    Eu, que tanto busco a paz, sem um pouco de atrito não me acendo. O que me salva é exatamente aquilo que me inquieta. O tropeço, o caos, a carne viva da imperfeição. A dorzinha chata que lembra: você ainda está aqui. O que me salva é o desejo, esse bicho sedento que vive da procura e nunca quer encontrar.

    O paraíso talvez seja só uma boa ideia. E saber disso já é conquistar um pedaço dele na terra.

    Volto das férias com medo e preguiça da realidade. Já as querendo de volta.

    Quem me dera viver sempre no modo férias. Mas Deus me livre.


(Por: Becky S. Korich. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/. Acesso em: julho de 2025. Adaptado.)

O texto expõe alguns pensamentos que a autora obteve após as férias. Sua reflexão pode ser resumida no trecho:
Alternativas

Gabarito comentado

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Tema central: Interpretação de texto. Aqui, o candidato deve compreender a mensagem principal construída pela autora após sua experiência de férias e suas reflexões sobre felicidade e inquietação.

Para resolver, a estratégia recomendada é identificar, na leitura, não apenas o que a autora diz de forma explícita, mas o sentido global do texto e seu "recado" mais profundo. Como ensina Ingedore Koch em Ler e compreender, o candidato precisa observar ideias recorrentes e conclusivas no texto, evitando respostas literais que não representem o cerne da reflexão.

Análise da alternativa correta:

B) "O que me salva é exatamente aquilo que me inquieta."

Esta alternativa sintetiza o dilema central revelado no texto: embora a autora deseje uma vida perfeita e tranquila, ela reconhece que uma existência sem desafios (ou inquietações) acaba sendo insossa e perde o sentido. Pela coerência textual, é justamente na inquietação – nos "atritos" da vida real – que reside a motivação, o significado e, finalmente, a salvação da própria existência. Assim, a frase escolhida resume perfeitamente a essência da reflexão da autora.

Crítica às alternativas incorretas:

A) "A tragédia da felicidade é que ela dura pouco." Trata-se de uma constatação pontual, mas não traduz o foco da reflexão geral, que veicula a importância do desejo, da busca, do ciclo inquietação-aconchego.

C) "Não depende do lugar, dá para fazer da vida real o paraíso possível." Aqui, a autora fala sobre adaptar a felicidade ao cotidiano, mas isso está no início e ainda não mostra o amadurecimento da reflexão central.

D) "Me adaptarei tão bem, que começarei a suspeitar que esse, afinal, seria meu estado natural." Essa frase sugere conformação, mas contrasta com o verdadeiro incômodo que motiva a autora; falta a ideia do resgate pela inquietação.

Dicas de prova: Fuja de respostas muito literais ou apenas bonitas – busque sempre aquela que retoma, com clareza, a ideia principal do texto inteiro.

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Comentários

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GABARITO B

Esse trecho resume a ideia central do texto: a autora percebe que não é a calmaria ou a perfeição que a mantém viva, mas justamente os obstáculos, imperfeições e pequenos conflitos que despertam seu desejo e seu encantamento pela vida. É a reflexão que sintetiza todo o pensamento pós-férias

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