De acordo com o trecho “Uma casa minimalista, autolimpante, ...
Quem me dera (mas Deus me livre)
Sempre que volto de férias, penso: é isso! É assim que a vida tem que ser. Leve, sem pressa, sem pressão. Tem que ter descobertas diárias de lugares novos – também dentro de nós. Antes de colocar o pé na rotina, me prometo que agora vai. Trarei comigo aquela mulher plena, serena, livre. Não depende do lugar, dá para fazer da vida real o paraíso possível.
Imagino, então, uma vida assim. Uma eternidade de dias bons. Sem tempo feio: se calor, tem praia; se frio, lareira. Ao meu lado, um homem que me entende sem precisar de legendas, e que nunca erra a hora do silêncio e do carinho. Que me ama do jeito que eu queria ser amada antes de entender que isso não existe.
Filhos comportados e felizes, como são nas férias. Solidários, sem telas, sem chiliques. Me olham com o fascínio de quando mamavam no peito: aceitando, agradecendo. E que dormem. Dormem muito.
Uma casa minimalista, autolimpante, com cheirinho de madeira. Não tem elevador, vizinhos, carros. Nenhum barulho humano. Só o canto da natureza e a sinfonia do mar batendo nas pedras (sim, paraíso tem que ter mar). A vista da janela é o meu quintal, o sol e a lua na minha frente, se revezando só para mim.
Estarei rodeada de um círculo seleto de amigos sinceros, sofisticados e espiritualmente evoluídos. Que só aparecem na hora certa, com uma boa garrafa de vinho. Meu corpo aguenta as três taças. Acorda disposto com a pele bonita, como fica nas férias: dourada, sem pregas na testa, natural. O corpo dança, corre, nada e me obedece como se fosse meu. A alma, curada. Centrada e grata. Capaz de perdoar tudo, até a minha própria plenitude.
O mundo finalmente terá entendido meu ritmo. Me adaptarei tão bem, que começarei a suspeitar que esse, afinal, seria meu estado natural.
E uma manhã, sem motivo nenhum, sinto falta. Não sei de quê. Talvez da bagunça. De alguma voz mais alta, alguma cobrança, decepção, insônia. Do ruído da vida real. Da fumaça da cidade que eu tanto amaldiçoo.
Começo a desconfiar da calmaria e da segurança. Desconfio da vista. Desconfio daquele homem que me entende demais – e, por isso mesmo, me cansa. Estranho minhas sobrancelhas relaxadas. O sorriso constante começa a doer os músculos da face. A doçura dos filhos me enjoa. Me canso do sono profundo de todas as noites e dos sonhos tão limpos. Me irrito com a pelinha da cutícula, os pés descalços, a histeria insuportável dos passarinhos das manhãs. Fico irritada, enfim, com a plenitude; intimidada com a perfeição da natureza que escancara o quanto sou pequena. Sinto falta do que faz mal, da gordura, do descontrole, do Wi-Fi, de mentiras.
Para quem tem uma alma inquieta, uma existência sem desvio é apenas uma linha reta – e linhas retas são as mais fáceis de derrubar. A tragédia da felicidade é que ela dura pouco. Alívio!
Eu, que tanto busco a paz, sem um pouco de atrito não me acendo. O que me salva é exatamente aquilo que me inquieta. O tropeço, o caos, a carne viva da imperfeição. A dorzinha chata que lembra: você ainda está aqui. O que me salva é o desejo, esse bicho sedento que vive da procura e nunca quer encontrar.
O paraíso talvez seja só uma boa ideia. E saber disso já é conquistar um pedaço dele na terra.
Volto das férias com medo e preguiça da realidade. Já as querendo de volta.
Quem me dera viver sempre no modo férias. Mas Deus me livre.
(Por: Becky S. Korich. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/. Acesso em: julho de 2025. Adaptado.)
Gabarito comentado
Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores
Tema central: Interpretação de texto.
Esta questão cobra sua habilidade de compreender ideias explícitas e implícitas em um texto, avaliando se você capta corretamente o que a autora deseja ou valoriza ao descrever sua “casa ideal”. Segundo gramáticas como a de Evanildo Bechara, essa leitura precisa se basear no contexto, na escolha de palavras e na relação lógica entre as frases (coerência textual).
Justificativa da alternativa correta (C):
A alternativa C (“Ter alguém que possa limpar a casa, para que ela fique com ‘cheirinho de madeira’.”) NÃO está de acordo com o desejo da autora. O texto diz “casa minimalista, autolimpante”, indicando um ambiente que se mantém limpo por si só, sem a necessidade de alguém para a tarefa. Logo, querer “alguém” para limpar não faz sentido no contexto do trecho, contrariando a ideia principal expressa.
Análise das alternativas incorretas:
A) “Seguir um estilo de vida onde ‘menos é mais’.”
Correta. “Casa minimalista” já traz o conceito de simplicidade, conforme a ideia de que menos coisas trazem mais leveza e conforto.
B) “Desfrutar o silêncio que locais mais isolados podem proporcionar.”
Correta. A frase “Nenhum barulho humano. Só o canto da natureza [...]” reforça o desejo de silêncio e tranquilidade, elementos de locais isolados.
D) “Estar mais presente para apreciar as melodias disponibilizadas na natureza do seu ‘paraíso’.”
Correta. Ao valorizar “a sinfonia do mar batendo nas pedras”, a autora claramente aprecia ouvir e sentir a natureza.
Dica de prova: Sempre confira se as palavras-chave das alternativas batem realmente com a intenção do autor no texto. Cuidado com alternativas que introduzem novos personagens ou tarefas (como “alguém para limpar”), pois elas distorcem o contexto original!
Resumo: A alternativa C está incorreta em relação ao desejo da autora. As demais refletem fielmente o que é descrito no trecho lido.
Gostou do comentário? Deixe sua avaliação aqui embaixo!
Clique para visualizar este gabarito
Visualize o gabarito desta questão clicando no botão abaixo
Comentários
Veja os comentários dos nossos alunos
Se ela descreve a casa como "autolimpante", então não é uma pessoa que vai limpar. Errada a letra C.
Clique para visualizar este comentário
Visualize os comentários desta questão clicando no botão abaixo