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Q3876719 Português

Leia o texto a seguir para responder a questão.



As crianças não são o futuro do mundo


        Só existe uma frase que me incomoda mais do que perguntar a uma criança o que ela quer ser quando crescer, que é quando nos referimos aos pequenos como sendo eles o futuro do mundo.


         Ainda tocado pela palestra da jornalista Eliane Brum, a que tive o privilégio de assistir na última semana aqui em Santa Maria, guardei em minhas anotações algo dito por ela, que se encaixa perfeitamente no meu texto de hoje.


       Enquanto falava acerca de sua luta em defesa da Amazônia e do quanto precisamos “acordar” em relação ao aquecimento global, a jornalista mais premiada da história do nosso país foi enfática quando afirmou que “estamos destruindo o mundo dos nossos filhos”.


         Foram palavras que me atingiram em cheio, como uma flecha precisamente lançada sobre o peito, que impacta, causa dor e desconforto. O que eu senti tem a ver com o significado prático dessa frase, é claro: estamos destruindo o mundo. Mas, para além disso, fui imediatamente tocado por algo que é inseparável de mim há quase quatro anos, desde que me tornei pai.


         Só de imaginar que a minha filha poderá encontrar um mundo com a natureza destruída e sem elementos básicos para a sua sobrevivência, como, por exemplo, água potável, senti uma angústia que preciso compartilhar.


         Eu sei que já existem muitas pessoas conectadas por esta mínima consciência de que precisamos mudar os nossos hábitos, se quisermos preservar a nossa espécie. Mas ainda são poucos, muito poucos. Eu, por exemplo, já consigo separar cotidianamente o lixo orgânico do seco; porém, me vejo tomado por hábitos de consumo – e geração de resíduos – completamente desnecessários. Eu não tenho colaborado para que o mundo da minha própria filha exista no futuro.


         O que tudo isso tem a ver com dizer para as crianças que elas são o futuro do mundo? Tudo! Percebam a dupla violência que estamos cometendo com as crianças de hoje e também com as que ainda estão por nascer. Colocamos nelas a responsabilidade de “ser o futuro” de um mundo que nós estamos destruindo. (...)


RIBEIRO, Gilvan. As crianças não são o futuro do mundo. Disponível em 

<https://claudemirpereira.com.br/2019/05/croni

ca-gilvan-ribeiro-o-ambiente-e-o-mundo-que

estamos-produzindo-para-entregar-as-nossas

criancas/>. 

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Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: A presença de primeira pessoa do singular e de relato autobiográfico direto em "fui imediatamente tocado por algo que é inseparável de mim há quase quatro anos, desde que me tornei pai." identifica a voz do próprio autor como sujeito enunciador e elimina as alternativas que tratam o texto como mera reprodução de fala alheia ou como distanciado do tema.

Tema central: voz enunciativa
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque o texto não se baseia exclusivamente nas experiências de outra pessoa. O autor menciona a palestra de Eliane Brum, mas a incorpora ao seu próprio ponto de vista e acrescenta sentimentos, avaliação e vivência pessoal, como no trecho em que afirma ter se tornado pai.
B
Errada
Está errada porque confunde a pessoa citada com a voz do autor. Quem fez a palestra como jornalista foi Eliane Brum; o autor do texto é quem relata ter assistido à palestra, guardado anotações e desenvolvido sua própria reflexão em primeira pessoa.
C
Certa
A alternativa C está correta porque o texto é apresentado pela própria pessoa que escreve e essa pessoa inclui sua experiência pessoal no desenvolvimento do tema. Isso aparece nas marcas de subjetividade, como "Só existe uma frase que me incomoda", e se confirma pelo relato direto de vida do autor, que afirma ter se tornado pai e menciona "a minha filha". A referência à palestra de Eliane Brum funciona apenas como apoio argumentativo incorporado pelo autor, não como conteúdo exclusivo do texto.
D
Errada
Está errada por contrariar informação expressa do texto. O autor afirma: "Eu, por exemplo, já consigo separar cotidianamente o lixo orgânico do seco", o que prova que ele possui, sim, ao menos um hábito de preservação ambiental. A autocrítica sobre consumo desnecessário não apaga essa prática declarada.
E
Errada
Está errada porque o texto afirma explicitamente que o autor é pai: "desde que me tornei pai" e "a minha filha". Além disso, essas passagens mostram forte envolvimento pessoal com o tema, e não distanciamento.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre a voz do autor do texto e a pessoa citada no texto, além de testar se o leitor percebe que a palavra "exclusivamente" na alternativa A e as negações absolutas das alternativas D e E são incompatíveis com trechos literais do texto.
Dica para questões semelhantes
  • Identifique primeiro quem fala no texto: marcas como "eu", "me" e "minha" e relatos de vida definem a voz enunciativa.
  • Separe a voz do autor da voz citada: mencionar a fala de outra pessoa não transfere a autoria do conteúdo.
  • Desconfie de alternativas com termos absolutos como "exclusivamente", "absolutamente nenhum" e "não possui", porque um único trecho expresso pode eliminá-las.

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