Em relação à pesquisa feita pelos britânicos em 1958 pode-se...
Cachorro encurralado não salta
1 Com certeza você já ouviu gente reclamar que os estudantes de hoje são muito mimados, desfiando
2 frases como “No meu tempo, a gente podia zoar os amigos. Hoje tudo é bullying”. É assim mesmo: desde
3 a Idade da Pedra toda geração acha que seus descendentes pioraram. Consigo imaginar um neandertal
4 grunhindo: “Esses moleques de hoje não aguentam mais nada. No meu tempo, a gente não tinha fogueira
5 quentinha. Não havia essa história de bater pedrinha uma na outra – tinha que andar na floresta até achar
6 uma árvore atingida por um raio. Desse jeito, daqui a pouco nem pelo a humanidade vai ter”.
7 Todo termo que ganha popularidade perde seu significado original, e isso pode muito bem ter
8 acontecido com o bullying. Sim, não é toda zoeira que é bullying. Mas se nem toda brincadeira pode ser
9 condenada, isso não faz com que o bullying não exista. Existe, e há bastante tempo.
10 Em 1958, os britânicos resolveram acompanhar o desenvolvimento de todas as crianças nascidas
11 numa determinada semana daquele ano. Reuniram, assim, dados sobre quase 18 mil bebês, e passaram
12 a avaliá-los de tempos em tempos durante 50 anos. Descobriram que, já na década de 1960, era alta a
13 incidência de violência na escola – coisas mais graves do que uma piada ou brincadeira. Quase um terço
14 dos alunos passava por isso ocasionalmente, e 15% com frequência. É o povo da geração que diz: “Na
15 minha época, não existia esse negócio de bullying”. Imagina se existisse. Não é surpresa para ninguém
16 que, na vida adulta, as pessoas que passaram por tais problemas têm pior qualidade de vida e muito mais
17 chance de desenvolver depressão, por exemplo. O dobro de chance, para ser preciso.
18 Mais ou menos na mesma época, nos anos 1960, do outro lado do Atlântico, um pesquisador
19 chamado Martin Seligman, interessado nos mecanismos que levam à depressão, criava um experimento
20 que se tornaria clássico. Ele e seus colegas reuniram um grupo de cães e os colocaram em três tipos de
21 gaiolas diferentes. O grupo 1 ficava lá por um tempo e, depois, era retirado. A gaiola do grupo 2 tinha o
22 chão eletrificado, para dar choques inesperados. Contudo, diante dos cães havia uma alavanca que parava
23 os choques. E o desafortunado grupo 3 também estava num chão eletrificado, mas ele era pareado com a
24 gaiola do grupo 2. Ou seja, os cães deste grupo não tinham como parar os próprios choques. Eles recebiam
25 a mesma intensidade que seus parceiros do grupo 2 (pois, quando esses desligavam a eletricidade, todos
26 os choques cessavam), mas, como não sabiam dessa artimanha da alavanca, para eles tanto o início
27 quanto o fim pareciam aleatórios.
28 Uma vez condicionados dessa maneira, os cachorros foram transferidos para outra gaiola, dividida
29 em duas partes – um lado com chão eletrificado e outro não. Os dois lados eram separados por uma
30 barreira baixa; quando os cães dos grupos 1 e 2 eram colocados ali, rapidamente aprendiam a pular de
31 um lado para o outro para escapar dos choques. A maioria dos cães do grupo 3, por sua vez, nem pensava
32 em saltar. Haviam aprendido que não havia esperança, afinal. Seligman cunhou, então, o termo learned
33 helplessness, ou desamparo aprendido.
34 O que acontece no bullying (de verdade) é parecido com isso. As crianças sentem-se totalmente
35 cercadas, submetidas a situações muito hostis – que lhes parecem inevitáveis –, e com o tempo
36 desenvolvem a mesma sensação de desamparo. Para elas, é impossível fazer qualquer coisa para cessar
37 aquele sofrimento. Não é de estranhar que se tornem adultos deprimidos.
38 Se a história nos ensinou algo, é que há coisas que não aprendemos com a história. Não acho que
39 algum dia as gerações mais velhas deixarão de criticar as mais novas. Até aí, tudo bem. Mas, pelo menos
40 no que se refere ao bullying, não devemos menosprezar as queixas da garotada.
Daniel Barros – Revista Galileu, edição 319, fev. 2018.
Em relação à pesquisa feita pelos britânicos em 1958 pode-se afirmar que
Gabarito comentado
Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores
Tema central: A questão testa interpretação de texto, habilidade fundamental nos concursos públicos, especialmente para cargos técnicos como Técnico de Laboratório – Anatomia e Necropsia. Nela, exige-se a análise detida das informações presentes no texto, distinguindo dados explícitos (aqueles ditos claramente pelo autor) de inferências e deduções.
Justificativa da alternativa correta (D): A alternativa D – “os resultados mostraram que 15% das crianças sofria bullying frequentemente” – é a única que transcreve com exatidão o trecho do texto: “quase um terço dos alunos passava por isso ocasionalmente, e 15% com frequência”. O examinador espera que o aluno identifique esta relação direta e literal entre alternativa e trecho do texto.
Segundo Bechara (2011), interpretação de texto pressupõe leitura atenta das informações expressas e análise de índices de coesão e coerência. Aqui, o percentual e a frequência da violência escolar são claramente afirmados.
Análise das alternativas incorretas:
A) “Os pesquisadores reuniram dados de 18 mil bebês para análise.” – INEXATA: O texto diz “quase 18 mil”, não um número exato. Em interpretação, precisão numérica importa.
B) “Os dados foram analisados de tempos em tempos, ou seja, a cada 50 anos.” – INCORRETA: A pesquisa durou 50 anos, com avaliações de tempos em tempos durante esse período, não a cada 50 anos!
C) “O desenvolvimento de todas as crianças nascidas naquele ano foi acompanhado.” – AMPLO DEMAIS: O texto fixa: “crianças nascidas numa determinada semana daquele ano”. Portanto, não eram todas as crianças do ano inteiro.
E) “Resultados irrelevantes, incidência baixa...” – OPOSTA: O texto afirma “já na década de 1960, era alta a incidência de violência na escola”. O erro é inverter o sentido dado pelo autor!
Estratégia para concursos: Em questões do tipo, leia cada alternativa cuidadosamente. Atenção a detalhes numéricos, pronomes, quantidade/totalidade, e negações. Evite “chutes” em alternativas amplas, vagas ou que contradizem o texto.
Como orienta Celso Cunha (2008), a interpretação fiel requer domínio da norma-padrão e atenção aos detalhes expressos, elementos essenciais na leitura crítica e objetiva.
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"Reuniram, assim, dados sobre quase 18 mil bebês"
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