O verbo “lembrar” aparece nos parágrafos 3 e 6. A regência...
Leia o texto.
O mistério da poesia.
Não sei o nome desse poeta, acho que boliviano; apenas lhe conheço um poema, ensinado por um amigo. E só guardei os primeiros versos: Trabajar era Bueno en el Sur. Cortar los árboles, hacer canoas de los troncos.
E tendo guardado esses dois versos tão simples, aqui me debruço ainda uma vez sobre o mistério da poesia.
O poema era grande, mas foram essas palavras que me emocionaram, lembro-me delas às vezes, numa viagem; quando estou aborrecido, tenho notado que as murmuro para mim mesmo, de vez em quando, nesses momentos de tédio urbano. E elas produzem em mim uma espécie de consolo e de saudade não sei de quê.
Lembrei-me agora mesmo, no instante em que abria a máquina para trabalhar nessa coisa vã e cansativa que é fazer crônica.
De onde vem o efeito poético? É fácil dizer que vem do sentido dos versos; mas não apenas do sentido. Se ele dissesse: Era Bueno trabajar en el Sur, não creio que o poema pudesse me impressionar. Se no lugar de usar o infinitivo do verbo cortar e do verbo hacer usasse o passado, creio que isso enfraqueceria tudo. Penso no ritmo: ele sozinho não dá para explicar nada. Além disso, as palavras usadas são, rigorosamente, das mais banais da língua. Reparem que tudo está dito com elementos mais simples: trabajar, era bueno, Sur, cortar, árboles, hacer canoas, troncos.
Isso lembra um dos maiores versos de Camões, todo ele também com as palavras mais corriqueiras de nossa língua: “A grande dor das coisas que passaram”.
Talvez o que mais me impressione seja mesmo isso: essa faculdade de dar um sentido solene e alto às palavras de todo dia. Nesse poema sul-americano a ideia de canoa é também motivo de emoção.
Não há coisa mais simples e primitiva que uma canoa feita de um tronco de árvore; e acontece que muitas vezes a canoa é de grande beleza plástica. E de repente me ocorre que talvez esses versos me emocionem particularmente por causa de uma infância de beira-rio e de beira-mar. Mas não pode ser: o principal sentido dos versos é o do trabalho; um trabalho que era bom, não essa “necessidade aborrecida” de hoje. Desejo de fazer alguma coisa simples, honrada e bela, e imaginar que já se fez.
Fala-se muito em mistério poético; e não faltam poetas que procurem esse mistério enunciando coisas obscuras, o que dá margem a muito equívoco e muita bobagem. Se na verdade existe muita poesia e muita carga de emoção em certos versos sem um sentido claro, isso não quer dizer que, turvando um pouco as águas, elas fiquem profundas…
(Rubem Braga)
Sobre regência verbal avalie as afirmativas.
1. Em ambas as vezes em que aparece (parágrafos 3 e 6), o sentido do verbo lembrar é de trazer à memória e, por isso, está em sua forma pronominal.
2. A frase: “Ela esqueceu-se disso” tem regência verbal correta e o verbo “esquecer” segue as mesmas normas do verbo “lembrar”.
3. A frase: “Custei entender o sentido do texto” está incorreta quanto à regência do verbo “custar”, no sentido de ser difícil.
4. O verbo “implicar” no sentido de “causar” é transitivo direto. Assim, estão corretas as seguintes construções: “A leitura daquele poema implicou críticas positivas.” e “Falta ao serviço implica desconto na folha.”
5. O verbo “informar” pode ser completado por objeto direto e objeto indireto ao mesmo tempo. Assim, está correta a seguinte frase: “O engenheiro informou o mestre de obras que o serviço deveria ser concluído”.
Assinale a alternativa que indica todas as afirmativas corretas.