Um termo usado pela cronista para se referir ao "público” é:

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Q4231606 Português
Atenção: Para responder à questão, leia a crônica de Rachel de Queiroz.


    Uma simples folha de papel... Ontem, num programa de TV, discutíamos entre escritores e jornalistas o drama do papel em e branco na máquina e, diante dele, o pobre de nós que espreme o juízo até produzir qualquer coisa que encha as laudas necessárias possa ir para a impressão. Acho que essa angústia existe desde que o primeiro escriba de cuneiforme, na Mesopotâmia, ficava aflito por uma ideia a gravar no tijolinho fresco, e depressa, antes que o barro secasse. Ou o emissário real, no Egito, diante do papiro virgem, rabiscando tentativamente um começo de hieróglifo sem saber o que contar na mensagem para o Faraó.

    O curioso é que nem sempre, desse esforço de última hora, sai um resultado pífio. Às vezes, depois de minutos e minutos de indecisão e bloqueio, brota de repente uma ideia que é um clarão, o escriba bate freneticamente na máquina, tentando forçar os dedos a uma marcha mais veloz que a dos miolos; e eт pоисo ele entrega à oficina a sua melhor matéria do mês. Quando esse branco se dá na produção de livro, não tem tanta importância. O romance espera, o conto espera. E o poema só nasce na hora que quer. O jornal - que vive à custa do cotidiano e é voraz por fatos atuais e comentários sobre esses fatos, mal se consolando com projeções sobre o futuro ou meditações sobre o passado -, o jornal é que é o grande tirano. Ele é como um alto forno de usina siderúrgica que não pode se apagar nunca e exige, dia e noite, combustível, minério, e a atenção infatigável dos seus alimentadores e manobreiros.

    Aliás, para fazer justiça, não é propriamente o jornal o nosso tirano. O déspota implacável é mesmo o público, de quem o jornal é apenas o humilde, solícito, serviçal. O público é quem dá sentença de vida e morte, o público é quem boceja ou aplaude. Ele é quem recorta com amor o tópico feliz, ele quem amarrota a folha enfadonha a caminho da cesta. Nessa trêmula serventia vivemos todos os que dependemos da fera, e por isso a bajulamos, hesitamos num fraseado, trocamos um verbo mais incisivo por outro mais ameno, polvilhamos com um sal de malícia qualquer flagrante inocente, descobrimos interpretações sutis ou sibilinas para o que seria apenas massudo e incolor, sem o nosso intempestivo inuendo. Mas quanto equilíbrio e cuidados são necessários para não transpor o frágil limite da verdade dos fatos e não cair no perigoso terreno da invenção! Às vezes, basta insinuar que o figurão sorriu antes da sua resposta e se derruba todo um laborioso esforço de credibilidade, em hora de crise políticа. 


(Adaptado de: RACHEL de Queiroz, 1990)
Um termo usado pela cronista para se referir ao "público” é:
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: A

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a coesão referencial por recategorização lexical metafórica: no 3º parágrafo, após nomear “o público” em “O déspota implacável é mesmo o público [...]”, a cronista o retoma em “Nessa trêmula serventia vivemos todos os que dependemos da fera”, em que “fera” nomeia metaforicamente esse mesmo referente; por isso, a alternativa correta é A.

Tema central: retomada referencial metafórica
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa correta apresenta o único termo que efetivamente funciona, no texto, como nova nomeação do referente “público”. Após atribuir ao público poder de julgar, aprovar ou rejeitar, a cronista o recategoriza como “fera” em “dependemos da fera”. Portanto, não se trata de palavra apenas expressiva: ela retoma o mesmo referente já mencionado e o designa metaforicamente.
B
Errada
“Inuendo” não retoma “público”. No trecho “sem o nosso intempestivo inuendo”, o termo nomeia um procedimento de formulação discursiva do jornalista, não o destinatário desse discurso. O erro da alternativa é atribuir valor referencial ao que, no contexto, designa recurso expressivo.
C
Errada
“Emissário” aparece no 1º parágrafo em outro quadro temático: “o emissário real, no Egito”. O termo tem referente próprio, ligado à comparação histórica feita pela cronista, e não mantém relação de retomada com “público”. O erro é misturar referentes de contextos distintos.
D
Errada
“Clarão” integra a metáfora da ideia repentina: “brota de repente uma ideia que é um clarão”. Logo, o termo se aplica a “ideia”, não a “público”. O erro da alternativa é confundir a existência de linguagem figurada com identidade de referente.
E
Errada
“Usina” aparece na comparação “Ele é como um alto forno de usina siderúrgica”, em que o referente é “o jornal”. Assim, o termo pertence à imagem construída para caracterizar o jornal como máquina incessante, não o público. O erro é deslocar a cadeia referencial do 2º parágrafo para o referente pedido.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre palavra expressiva e termo referencial: várias alternativas trazem substantivos marcantes do texto, mas apenas “fera” retoma de fato o referente “público”.
Dica para questões semelhantes
  • Quando o comando pedir termo usado para se referir a alguém ou algo, localize a cadeia de retomadas desse referente no próprio parágrafo.
  • Não escolha uma palavra só porque é metafórica; verifique qual elemento do texto ela nomeia no contexto.
  • Separe os referentes de cada trecho: no texto, “público”, “jornal”, “ideia” e “emissário” pertencem a cadeias referenciais diferentes.

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Comentários

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" Nessa trêmula serventia vivemos todos os que dependemos da fera, e por isso a bajulamos"

No 3º parágrafo, Rachel de Queiroz afirma:

“Nessa trêmula serventia vivemos todos os que dependemos da fera, e por isso a bajulamos...”

Antes, a autora havia explicado que o público é quem exerce o maior poder sobre o jornal e os escritores:

“O público é quem dá sentença de vida e morte, o público é quem boceja ou aplaude.”

Assim, a expressão “fera” é uma forma metafórica de se referir ao público, apresentado como uma força poderosa, exigente e difícil de agradar.

As demais alternativas não possuem essa relação:

B) inuendo → significa insinuação, sugestão indireta. refere-se a uma estratégia de escrita.

C) emissário → mensageiro. aparece no exemplo histórico do Egito.

D) clarão → metáfora para uma ideia brilhante que surge repentinamente.

E) usina → aparece na comparação do jornal com um alto forno.

Procurem sinônimos contextuais e metáforas, não apenas palavras com significado literal. A FCC costuma cobrar a relação entre uma expressão e o referente já apresentado.

A alternativa correta é a A) fera (3º parágrafo).

Explicação Detalhada

No terceiro parágrafo, Rachel de Queiroz fala sobre a relação dos escritores e jornalistas com o público:

  • Contexto: A cronista utiliza a metáfora "fera" para se referir ao "público" (que logo antes foi chamado de "déspota implacável"), indicando o poder e o temor que essa massa de leitores e espectadores exerce sobre quem escreve.

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