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Q3414607 Português

 O texto seguinte servirá de base para responder à questão.



O DIREITO DE NÃO AMAR



Se o homem destrói aquilo que mais ama como afirmava Oscar Wilde, a vontade de destruição se aguça demais quando aquilo está amando um outro. O egoísmo, sem dúvida o traço mais poderoso de qualquer sexo, transborda então intenso e borbulhante como água em pia entupida, artérias e canos congestionados na explosão aguda: "nem comigo nem com ninguém!" Deste raciocínio para o tiro, veneno ou faca, vai um fio.


segunda porta foi a que escolheu aquele meu colega de Academia quando descobriu que a pior das vinganças é não matar mas deixar o objeto amado viver, viver à vontade, "pois que ela viva!" − decidiu ele na sua fúria vingativa.


Amou-a perdidamente. Acho que nunca vi ninguém amar tanto assim, talvez com a mesma intensidade com que amava o primo, disse isso mesmo numa hora de impaciência, estou apaixonada por outro, quer ter a bondade de desaparecer da minha frente? Mas o meu colega (vinte anos?) acreditava na luta e como ele lutou, meu Deus, como ele lutou! Tentou conquista-la com presentes, era rico. Depois, com intermináveis poemas de amor, era poeta. Na fase final, no auge da cólera − era violento − começou com as ameaças. Ela guardou os presentes, rasgou os poemas, fez a queixa a um tio que era delegado da seção de homicídios e foi cair nos braços do primo sem o recurso das rimas e dos diamantes mas que conseguia fazê-la palpitar mais branca e perfumada do que a açucena do campo.


Meu colega dava murros nas paredes, nos móveis. Puxava os cabelos, "ela não tem o direito de me fazer isso!". Com a débil voz da razão, tentei dizer-lhe que ela bem que tinha esse direito de amar ou não amar, vê se entende essa coisa tão simples! Mas ele era só ilogicidade e desordem: "Vou lá, dou-lhe um tiro no peito e me mato em seguida!" - jurou. Mas a tantos repetiu esse juramento que fiquei mais tranquilizada, com a presença de que a energia canalizada para o ato acabaria se exaurindo nas palavras.


O que aconteceu. Uma noite me procurou todo penteado, todo contido, com um sorrisinho no canto da boca, sorriso meio sinistro, mas lúcido: "Achei uma solução melhor", foi logo dizendo. "Vou ficar quieto, que se case com esse tipo, ótimo que se casem depressa porque é nesse casamento que está minha vingança. No casamento e no tempo. Se nenhum casamento dá certo, por que o deles vai dar? Vai ser infeliz à beça! Pobre, com um filho debiloide, já andei investigando tudo, ele tem retardados na família, ih! O quando ela vai se arrepender, por que não me casei com o outro? Vai ficar gorda, tem propensão para engordar e eu estarei jovem e lépido porque sou esportista e rico, vou me conservar, mas ela, velha, obesa, ô delícia!".


Há ainda uma terceira porta, saída de emergência para  desiludidos do amor, não, nada de matar o objeto da paixão ou esperar com o pensamento negro de ódio que ela vire uma megera jogando moscas na sopa do marido hemiplégico, mas renunciar. Simplesmente renunciar com o coração limpo de mágoa ou rancor, tão limpo que em meio do maior abandono (difícil, hem!) ainda tenha forças para se voltar na direção da amada como um girassol na despedida do crepúsculo. E desejar que ao menos ela seja feliz.



(Lygia Fagundes Telles)

Em: "(...) que em meio do maior abandono (difícil, hem!) ainda tenha forças para se voltar na direção do amado (...)", só não é correto afirmar:
Alternativas

Gabarito comentado

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Tema central: Esta questão envolve classes de palavras (morfologia), reconhecimento de advérbio, interpretação semântica e pontuação (uso dos parênteses e interjeição), além de análise de oração concessiva. Essas competências são essenciais para quem busca atuação de excelência como Tradutor Intérprete de Libras, pois envolvem o domínio das funções e sentidos dos termos no texto.

Justificativa da alternativa correta (A):

A alternativa A está incorreta porque o termo "ainda" no trecho analisado é, pela norma-padrão, um advérbio de tempo, e não um adjetivo modalizador. Segundo Bechara e Celso Cunha & Lindley Cintra, advérbios alteram o sentido do verbo dando ideia de tempo, modo, intensidade, etc., enquanto adjetivos qualificam substantivos. No contexto apresentado, "ainda tenha forças" indica persistência ou continuidade de uma condição, ou seja, a manutenção da força mesmo em situação adversa. Além disso, seu valor semântico não equivale a "até então", pois no contexto do texto, "ainda" tem o sentido de "mesmo assim" ou "apesar de tudo", expressando surpresa ou contraste diante da dificuldade.

Análise das demais alternativas:

B) Correta. Os parênteses realmente indicam uma informação acessória, um comentário extra (neste caso, a autora expressa ironia e dificuldade), conforme prevê a gramática normativa (Bechara, p. 553).

C) Correta. Existe no trecho uma ideia concessiva: embora seja difícil (concessão), ainda assim se recomenda um tipo de atitude (demonstrada pelo uso do advérbio "ainda"). As concessivas mostram contraste ou oposição, segundo Cunha & Cintra (p. 545).

D) Correta. A expressão "hem!" nos parênteses é uma típica interjeição, que reforça e enfatiza o sentimento da autora (surpresa, desafio). Interjeições têm essa função expressiva, conforme Bechara (p. 117).

Estratégia para a prova: Cuidado com a classificação morfológica – adjetivos qualificam substantivos, advérbios modificam verbos, adjetivos ou outros advérbios. Repere também expressões reforçadoras, e uso de pontuação para marca de comentários do autor.

Resumindo: marque como incorreta a alternativa que faz diagnóstico morfológico errado de "ainda", o que a desqualifica segundo a norma culta.

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Comentários

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Comentário dos professores que é bom....

"Ainda" é advérbio

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