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Ano: 2019
Banca:
CETAP
Órgão:
Prefeitura de Tailândia - PA
Prova:
CETAP - 2019 - Prefeitura de Tailândia - PA - Nível Fundamental Completo |
Q4415909
Não definido
Texto associado
ÁGUA PARA O ALÉM
A devoção às vítimas do incêndio que destruiu o edifício
Joelma
Visitantes do Cemitério São Pedro costumam regar os
túmulos na esperança de "refrescar" os mortos.
(1) Indio arrancou uma pitanga do pé, revirou a fruta na
boca, cuspiu o caroço e indicou com o nariz uma fileira de
sepulturas. "Aquelas almas ali estão vivas", afirmou sem
nenhuma hesitação. "Elas são muito legais." O moreno
atarracado referia-se às "Treze Almas do Joelma". Assim ficaram
conhecidos os ocupantes de treze túmulos que se perfilam num
dos maiores cemitérios paulistanos, o São Pedro. Bombeiros
descobriram os corpos dentro de um elevador no edifício
Joelma, em 1º de fevereiro de 1974. Na manhã daquele dia, um
incêndio varreu o prédio comercial de 25 andares, matou 191
pessoas e horrorizou o país. À época, não se identificaram
dezenas de cadáveres, incluindo os do elevador, tamanha a
desfiguração imposta pelas labaredas. "Somente Deus conhece
seus nomes. Descansem em paz", enuncia uma placa de bronze
afixada perto dos jazigos. Logo, porém, os mortos ganharam
celebridade no anonimato. A crendice popular lhes associou os
atributos de benditos, iluminados, sabidos, milagreiros. Legais,
enfim.
(2) Naquele 2 de novembro, Dia de Finados, o
movimento em torno dos sepulcros se mostrava intenso. O calor,
idem. Mas os copos, garrafas e galões cheios que circulavam por
lá não se destinavam à hidratação dos vivos. "Dá uma vontade
de jogar água em cima, sabe?", explicou Francisca Confessor de
Lima, após regar túmulo por túmulo. "Refrescar as almas" que
arderam no edifício é gesto habitual entre os que as cultuam.
Enquanto molhava as lápides, a sexagenária que se
proclamava católica - rogava pelo "de sempre": emprego e
saúde para a família. "As Treze Almas nunca me faltaram",
garantiu, fervorosa.
(3) Nas imediações das velas, o umbandista Raphael
Vinicius de Almeida um rapaz de 16 anos - vestia-se
completamente de branco e usava dois acessórios comuns às
religiões afro-brasileiras: o filá, espécie de gorro, e o alaká, pano
que se pendura num dos ombros e cruza o tronco. O adolescente
havia colocado um filão de pão francês em cada tumba, junto de
copos plásticos com água até a borda.
(4) Em tamanho natural, um Cristo de gesso protege a
saída da área onde se encontram as treze sepulturas. Vândalos
investiram contra a estátua em várias ocasiões. Na última,
arrancaram-lhe as mãos, depois recolocadas. A Nossa Senhora
presente no altar da igrejinha tampouco escapou da selvageria.
É a sexta ou sétima imagem desde a inauguração da capela (os
funcionários já perderam as contas dos ataques). Não raro, por
receio de assalto, há quem prefira nem entrar na parte reservada
aos túmulos quando vai orar pelos mortos. "Paro diante das
grades e rezo dentro do carro mesmo, olhando para todos os
lados", contou Patrícia Carla dos Santos, numa segunda-feira.
"Venho de tarde e procuro ir embora antes das cinco e meia,
porque depois fica muito perigoso."
(5) Consagrada pelo catolicismo às almas do purgatório,
a segunda-feira é o dia em que o cemitério mais recebe visitas -
excetuando-se, claro, o feriado de Finados. Uma média de 350
pessoas passa por ali semanalmente, de acordo com a
prefeitura. A segunda-feira é também o único dia útil em que
Francisco Edmilson da Silva, o "Sem-Terra", deixa a capela
aberta. O jardineiro, que ganhou o apelido após morar com a mulher numa ocupação em Mato Grosso, encarrega-se de
manter em ordem as lápides das Treze Almas. Retira os copos
d'água deixados sobre os jazigos ("para evitar focos de dengue")
e joga fora as embalagens de leite longa vida ("para não juntar
rato nem barata").
(6) Muitos dos que morreram durante o incêndio
trabalhavam no banco Crefisul, hoje extinto, que alugara boa
parte do Joelma. Foi no 12° andar que uma faísca no arcondicionado deflagrou o fogo. Entre nove e quase onze da
manhã, homens e mulheres em trajes de escritório se
amontoaram no topo do prédio à espera de socorro. Alguns, não
suportando o calor e a fumaça, se atiraram antes de a ajuda
chegar. Captado ao vivo pela tevê, o desespero de tantos
profissionais diplomados acabou contribuindo para disseminar a
crença de que as Treze Almas são sabidas e auxiliam os
estudiosos. Aprovados no exame da Ordem dos Advogados do
Brasil, por exemplo, ainda mantêm a tradição de colocar placas
de agradecimento ao redor dos túmulos. Segundo os
frequentadores do cemitério, já houve muitas mais. Se antes os
agraciados encomendavam uma trezena de placas para não
ficar em dívida com nenhum dos espíritos, agora se restringem a
uma só. A crise econômica não poupou nem mesmo as
promessas.
(7) Pendurado nas grades, um paninho branco exibia
uma frase bordada que também expressava devoção: "Ana
agradece as 13 almas bendita por graça recebida."
Surpreendentemente, a autora da mensagem-Ana Guedes, de
71 anos- materializou-se em meio às campas. Ela foi rezar pela
nora, que amargava dificuldades financeiras. "Acredita que, num
teste de emprego, pediram para a coitada vender um palito de
fósforo usado?", indignava-se. Em 2012, Guedes amarrou a
toalhinha no gradil com o intuito de celebrar uma dádiva
concedida à mesma nora. "Você está inteiro, hein?", falou para o
pano um tanto encardido. Depois, alisando-o, reiterou: "É das
almas. Aqui deixei, aqui vai ficar."
(Piauí, fevereiro, 137, Namir, Mônica)
'Refrescar as almas' que arderam no edifício é gesto habitual
entre os que as cultuam.". Sobre a estrutura é incorreto afirmar: