E foi então que, tomada pelo desespero por não me
lembrar de que cor seriam os olhos de minha mãe,
naquele momento resolvi deixar tudo e, no dia seguinte,
voltar à cidade em que nasci. Eu precisava buscar o
rosto de minha mãe, fixar o meu olhar no dela, para
nunca mais esquecer a cor de seus olhos.
E quando, após longos dias de viagem para chegar à
minha terra, pude contemplar extasiada os olhos de
minha mãe, sabem o que vi? Sabem o que vi?
Vi só lágrimas e lágrimas. Entretanto, ela sorria feliz. Mas
eram tantas lágrimas, que eu me perguntei se minha
mãe tinha olhos ou rios caudalosos sobre a face. E só
então compreendi. Minha mãe trazia, serenamente em
si, águas correntezas. Por isso, prantos e prantos a
enfeitar o seu rosto. A cor dos olhos da minha mãe era
cor de olhos d'água. De Mamãe Oxum! Rios calmos,
mas profundos e enganosos para quem contempla a
vida apenas pela superfície. Sim, águas de Mamãe
Oxum.
Abracei a mãe, encostei meu rosto no dela e pedi
proteção. Senti as lágrimas delas se misturarem às
minhas.
Hoje, quando já alcancei a cor dos olhos de minha mãe,
tento descobrir a cor dos olhos de minha filha. Faço a
brincadeira em que em que os olhos de uma se tornam
o espelho para os olhos da outra. E um dia desses me
surpreendi com um gesto de minha menina. Quando nós
duas estávamos nesse doce jogo, ela tocou suavemente
no meu rosto, me contemplando intensamente. E,
enquanto jogava o olhar dela no meu, perguntou
baixinho, mas tão baixinho, como se fosse uma pergunta
para ela mesma, ou como se estivesse buscando e
encontrando a revelação de um mistério ou de um
grande segredo. Eu escutei quando, sussurrando, minha
filha falou: