Ao longo de milhões de anos de caminhada aleatória, a
evolução natural no planeta Terra costurou uma rede tridimensional,
composta de feixes, folhas e bobinas de substância branca neural.
Conduzindo e acelerando cargas eletrobiológicas diminutas, geradas
por dezenas de bilhões de neurônios, esse arcabouço orgânico pariu
um tipo de interação eletromagnética única, a qual dotou o cérebro de
primatas de um precioso presente: o seu próprio ponto de vista.
De dentro da sinfonia recursiva e imprevisível produzida por
esse computador orgânico analógico-digital, o cérebro nosso emergiu
e dominou com requintes de virtuosidade o mecanismo biológico
essencial da vida, que consiste em dissipar energias inúteis para
embutir informações ricas em significado na própria carne.
A partir dessa receita de sobrevivência, nosso cérebro fez muito
mais que simplesmente viver: ele construiu O universo humano
usando a sopa de informação potencial generosamente oferecida pelo
cosmos. Esse trabalho hercúleo só foi possível devido ao acúmulo
cada vez maior de informação útil, de modo a que nosso cérebro desse
acesso a formas de conhecimento, tecnologias, linguagens, interações
sociais e construção da nossa realidade.
O que o futuro reserva para tanto trabalho cerebral?
Autoaniquilação, uma nova espécie humana feita de zumbis biológicos
digitais, ou o ansiado triunfo perene da condição humana? Seja qual
for o destino reservado para essa trabalhosa jornada, certamente não
haverá máquina capaz de superar as mais íntimas e doidivanas
alegorias criadas por nosso cérebro. Muito menos de substituir o
espantoso universo que ele criou.
(Adaptado de: NICOLELIS, Miguel, O Verdadeiro Criador de Tudo. São
Paulo: Planeta, 2020, p. 373-374)
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