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Ano: 2026
Banca:
Instituto Consulplan
Órgão:
Câmara de Montanha - ES
Prova:
Instituto Consulplan - 2026 - Câmara de Montanha - ES - Analista Legislativo - Contabilidade |
Q4335507
Português
Texto associado
A digital da solidão
A polpa digital mudou de função. Além da digital tradicional que nos identifica, deixa rastros eletrônicos que revelam
confidências e inconfidências. Dizem que o homem moderno não está mais sozinho. Carrega no bolso um aparelho que o
conecta ao mundo inteiro, às multidões, aos amigos de infância que mal se lembram dele e aos desconhecidos que
compartilham fotografias de cães e gatos fazendo coisas extraordinárias. É a era da comunicação total, dizem os ufanistas.
Nunca estivemos tão próximos uns dos outros. Pois eu digo: nunca estivemos tão magnificamente sós. Talvez porque, como já
suspeitava Schopenhauer, a convivência não elimina a solidão – apenas a distrai por alguns instantes.
O celular é o grande paradoxo do nosso tempo. Prometeu-nos companhia e nos entregou solidão. Uma solidão que fica
na polpa digital, colorida, que vibra e faz barulhinhos. Antes, quando um sujeito estava só, ele sabia que estava só. Doía, mas
passava. Sentava-se numa cadeira, olhava pela janela e contemplava o vazio existencial com a dignidade de quem sabe que
está vivo e, portanto, irremediavelmente sozinho.
Hoje não. Hoje a solidão vem camuflada. O sujeito está ali, sozinho no quarto, na cama, no sofá, no ônibus, mas não se
sente só porque está rolando o dedo na telinha, vendo vidas alheias, curtindo, comentando, reagindo com emojis que
expressam sentimentos que ele nem sabe se realmente sente. É uma solidão acompanhada, se é que isso faz algum sentido. E
não faz. No fundo, é apenas mais uma tentativa de fugir do tédio – aquele vazio que surge quando a vontade não está ocupada
com desejos imediatos.
O curioso é que ninguém admite. Pergunte a qualquer pessoa se ela se sente solitária e ela dirá que não, que tem centenas
de amigos (no Facebook), milhares de seguidores (no Instagram), conexões profissionais (no LinkedIn), e está sempre em
contato com todo mundo. Sempre. A toda hora. É o que ela diz.
A Organização Mundial da Saúde declarou que temos um problema de saúde pública mundial nas mãos. Desde 2014,
quando as redes sociais se expandiram e se tornaram onipresentes como o ar que respiramos (só que bem menos saudáveis),
os índices de depressão e suicídio dispararam, especialmente entre os jovens.
O celular nos roubou algo precioso: o direito ao ócio, à contemplação, ao devaneio. Não somos ingênuos. Sabemos que o
celular está nos tornando mais solitários, mais ansiosos, mais distraídos. Sabemos que as redes sociais foram desenhadas para
viciar, que cada curtida libera uma “dosezinha” de dopamina. Sabemos tudo isso e continuamos, dedo no scroll, olho na tela,
alma no limbo.
O que fazer, então? Jogar o celular pela janela e voltar para a idade do telefone de discar? Claro que não. O celular é uma
ferramenta maravilhosa, revolucionária, indispensável. O problema não é o aparelho, é o que fizemos dele.
Talvez a solução seja simples, embora difícil: aprender a estar só de verdade. Desligar o celular de vez em quando. Sentar
numa cadeira e olhar pela janela. Deixar o tédio vir, a inquietação, o silêncio. Descobrir que a solidão não é tão terrível assim –
e que é justamente na solidão que o indivíduo pode se libertar da influência constante dos outros e se aproximar de si mesmo.
Porque no fim das contas, a solidão é inevitável. É a condição humana. Aceitá-la como companheira é condição básica para
nossa sanidade mental.
(Disponível em: https://www.em.com.br/colunistas/carlos-starling/. Acesso em: maio de 2026. Fragmento.)
No 4º§, ao reproduzir o discurso das pessoas que negam a solidão virtual, o autor utiliza a seguinte sequência de enunciados:
“[...] e está sempre em contato com todo mundo. Sempre. A toda hora. É o que ela diz.” A opção pelo isolamento das
expressões “Sempre” e “A toda hora”, por meio do ponto final, configura um recurso estilístico de fragmentação sintática
cuja intenção primordial é