Há presença de um numeral coletivo em:
O texto seguinte servirá de base para responder à questão.
Uma mulher pode carregar dois bebês de pais diferentes ao mesmo tempo?
É raro, mas acontece. O nome disso é superfecundação heteropaternal.
Sim. O nome desse evento é superfecundação heteropaternal. Para conseguir, uma mulher "tem de liberar, em um mesmo ciclo, dois óvulos − e então, ter relações sexuais com dois homens diferentes dentro de até 24h", explica Juliana Meola, professora da Faculdade de Medicina da USP em Ribeirão Preto (FMRP).
Essa coincidência entre ovulação dupla e uma transa dupla desprotegida é rara: em setembro de 2022, um caso de gêmeos heteropaternais registrado em Goiás foi apenas o vigésimo da história da literatura médica mundial.
Um estudo analisou uma base de dados com 39 mil resultados de testes de paternidade e descobriu que apenas 2,4% deles envolviam episódios de superfecundação heteropaternal gerando gêmeos dizigóticos. Considere que só uma parcela pequena da população faz esses testes e é fácil concluir que se trata um evento raríssimo.
É evidente, porém, que esse fenômeno é subnotificado. Só é possível comprová-lo com um teste de DNA − e ainda que uma mãe esteja achando seus gêmeos diferentes demais, a maior parte das pessoas sequer imagina que essa façanha reprodutiva seja possível.
(SUPER INTERESSANTE, dezembro 2023p60)
Gabarito comentado
Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores
Tema: Morfologia – classe de palavras (numerais: coletivos x cardinais x multiplicativos)
Regra normativa essencial: Os numerais coletivos designam um conjunto de elementos da mesma espécie (ex.: dúzia, centena, milhar, par), enquanto os numerais multiplicativos expressam ideia de multiplicação (ex.: duplo/dupla, triplo, quádruplo). Referência: gramáticas normativas como Bechara (Moderna Gramática Portuguesa) e Cunha & Cintra classificam os numerais nesses grupos. No VOLP, os vocábulos “duplo/dupla”, “dúzia”, “par”, “centena” são formas registradas.
Gabarito: A
Por que a alternativa A está correta? Em “ovulação dupla”, a palavra dupla remete semanticamente a dois ocorridos em conjunto (no texto, liberação de dois óvulos no mesmo ciclo). Em concursos, é comum a banca aceitar “dupla” como forma de valor coletivo, por equivaler, no sentido, a “par” (conjunto de dois). Observe que:
• Quando usada como adjetivo (ex.: “salário duplo”, “ovulação dupla”), “duplo/dupla” é tradicionalmente classificado como numeral multiplicativo.
• Quando usada como substantivo (ex.: “uma dupla de cantores”), funciona como coletivo (conjunto de dois).
• No contexto da questão, a banca privilegia o valor semântico de conjunto (dois óvulos no mesmo ciclo), o que justifica a resposta.
Exemplo para fixação:
– Coletivo: “Formou-se uma dupla de policiais.” (conjunto de dois)
– Multiplicativo: “Recebeu salário duplo.” (multiplicação, duas vezes)
Por que as demais alternativas estão incorretas?
B) “uma mulher” – “uma” é, neste contexto, artigo indefinido (pode ter origem no cardinal “um”, mas aqui não expressa numeralidade coletiva). Não há ideia de conjunto nem de multiplicação.
C) “seus gêmeos” – “gêmeos” é substantivo que denota dois irmãos nascidos do mesmo parto; embora sugira “dois”, não é um numeral e tampouco um coletivo. É apenas o nome da entidade.
D) “pais diferentes” – “pais” é substantivo no plural, acompanhado do adjetivo “diferentes”. Não há palavra de classe numeral indicando conjunto específico como “dúzia” ou “par”. Portanto, não é numeral coletivo.
Estratégia para a prova:
• Identifique palavras que nomeiam conjuntos numéricos específicos (ex.: par, dúzia, centena, milhar, década, quinzena, dupla).
• Descarte artigos (“um/uma”) e plurais que apenas indicam mais de um (“pais”, “gêmeos”), pois não são numerais.
• Se a palavra puder funcionar como nome de conjunto (ex.: “uma dupla de…”, “um par de…”), há forte indício de coletivo.
• Atenção à pegadinha: termos como “gêmeos” sugerem “dois”, mas não pertencem à classe dos numerais.
Observação normativa: De acordo com a gramática tradicional, “duplo/dupla” é multiplicativo quando adjetiva o nome; já o substantivo “dupla” é um coletivo (cf. Bechara; Cunha & Cintra). Em provas, é frequente a aceitação de “dupla” como forma de valor coletivo quando o sentido é de conjunto de dois, como no texto, o que sustenta o gabarito.
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