O texto lido é uma crônica, gênero textual curto que relata ...

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Q3059776 Português
A falta que ela me faz


     Como bom patrão, resolvi, num momento de insensatez, dar um mês de férias à empregada. No princípio achei até bom ficar completamente sozinho dentro de casa o dia inteiro.

      Aos poucos, porém, passei a desejar ardentemente essa volta. O apartamento, ao fim de alguns dias, ganhava um aspecto lúgubre de navio abandonado. A geladeira começou a fazer gelo por todos os lados – só não tinha água gelada, pois não me lembrara de encher as garrafas [...].

       A um canto do quarto um monte de roupas crescia.

     Eu poderia enfrentar tudo [...]. Até que um dia, comecei a sentir no ar um vago mau cheiro. Intrigado, olhei as solas dos sapatos, para ver se havia pisado em alguma coisa lá na rua. Depois saí farejando o ar aqui e ali como um perdigueiro, e acabei sendo conduzido à cozinha, onde ultimamente já não ousava entrar.

      Na panela, a carne assada, que a empregada gentilmente deixara preparada para mim antes de partir, se decompunha num asqueroso caldo putrefato, onde pequenas formas brancas se agitavam.

      Mudei-me no mesmo dia para um hotel.



(Fernando Sabino. Disponível em: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/. Acesso em: agosto de 2024. Fragmento.)
O texto lido é uma crônica, gênero textual curto que relata acontecimentos do cotidiano. A partir dessa consideração, analise as afirmativas a seguir.


I. As impressões percebíveis na leitura do texto são de uma pessoa que não sabe absolutamente nada sobre o serviço doméstico.
II. Apesar de tratar de um fato corriqueiro, o autor emprega uma linguagem formal, isto é, ausência de uma linguagem coloquial.
III. Ainda que a crônica apresente características humorísticas, o autor reflete sobre as limitações encontradas por muitas pessoas que não conseguem resolver os problemas de casa.

Está correto o que se afirma apenas em
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: D) I e III.

Tema central: Interpretação de texto e análise do uso da linguagem coloquial em crônica.

A questão avalia a capacidade de compreender o texto, reconhecer o tom e a intenção do autor, além de diferenciar linguagem formal e coloquial – habilidade essencial para a leitura atenta, esperada de candidatos à área jurídica.

Justificativa da alternativa correta:

I. Correta. O narrador demonstra, por meio de situações cômicas (não enche as garrafas de água, não entra na cozinha, roupas acumuladas), desconhecimento e inaptidão para tarefas domésticas. Esta impressão é transmitida de forma clara no texto, inclusive com tom autodepreciativo e humorístico – aspecto típico da crônica segundo Celso Cunha & Lindley Cintra (“Nova Gramática...”): “O autor da crônica atua como personagem e se expõe à ironia do cotidiano”.

II. Incorreta.erro conceitual: o texto usa linguagem coloquial, próxima do cotidiano e da oralidade, como é típico da crônica moderna. Frases como “comecei a sentir no ar um vago mau cheiro” e comparações informais (“farejando como um perdigueiro”) reforçam esse aspecto. Segundo Evanildo Bechara (“Moderna Gramática Portuguesa”), a linguagem coloquial caracteriza-se pela espontaneidade e proximidade, em oposição à formalidade dos gêneros oficiais.

III. Correta. O texto, embora divertido, reflete sobre a dificuldade enfrentada por quem depende de terceiros para gerenciar o próprio lar. O narrador, ao expor suas limitações, evoca uma situação comum ao leitor, promovendo reflexão a partir do humor. Trata-se de uma crítica sutil e humanizada da dependência doméstica, alinhada ao propósito da crônica: provocar identificação e reflexão, com leveza.

Análise das alternativas:

A) II – Incorreta. Desconsidera o uso da linguagem coloquial.

B) III – Incorreta. Ignora a validade da afirmativa I.

C) I e II – Incorreta. Inclui uma afirmativa (II) objetivamente errada.

D) I e III – Correta. Apenas essas afirmativas estão de acordo com o texto e com uma leitura atenta.

Dica: Em questões de interpretação, atente-se ao tom e à linguagem do gênero textual. Crônicas tendem à oralidade, ironia ou leveza, raramente à formalidade rígida.

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Comentários

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Ele não fazer é muito diferente dele não saber fazer "absolutamente nada"

Não entendi por a I está correta.

onde está a linguagem coloquial?

I. Correto. O texto mostra que o narrador não tem experiência com tarefas domésticas, o que se reflete nas situações em que ele se vê desamparado, como o acúmulo de roupas e o mau cheiro na casa.

III. Correto. O autor usa o humor para destacar a situação desconfortável em que se coloca, mas também reflete sobre como a falta de habilidades domésticas pode gerar problemas.

II- ERRADA:

 A linguagem coloquial no texto está presente em várias escolhas linguísticas que aproximam o narrador do leitor, conferindo um tom descontraído e cotidiano. Eis alguns exemplos:

  1. Expressões informais e tom de conversa
  • "Aos poucos, porém, passei a desejar ardentemente essa volta."
  • O narrador relata seus sentimentos de forma simples e direta, como se estivesse conversando com alguém.
  • "Depois saí farejando o ar aqui e ali como um perdigueiro."
  • A comparação com um perdigueiro (um cão de caça) é descontraída e bem-humorada, típica de uma linguagem coloquial.
  1. Uso de hipérboles para causar humor
  • "A geladeira começou a fazer gelo por todos os lados – só não tinha água gelada, pois não me lembrara de encher as garrafas."
  • Essa descrição exagerada é característica de uma narração informal e humorística.
  1. Palavras e expressões do dia a dia
  • "A um canto do quarto um monte de roupas crescia."
  • O verbo "crescia" é usado de maneira figurada e bem-humorada, conferindo um tom leve e acessível.
  1. Tom autodepreciativo
  • "Intrigado, olhei as solas dos sapatos, para ver se havia pisado em alguma coisa lá na rua."
  • O narrador ri de si mesmo ao relatar sua tentativa frustrada de descobrir a origem do mau cheiro, característica de um texto mais próximo do cotidiano.

Esses elementos criam um texto que, apesar de bem estruturado, foge da rigidez formal e adota um tom mais próximo e envolvente, típico da linguagem coloquial.

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