“Deveríamos ter ido mais vezes à cama delas ao anoitecer...”...

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Q2720886 Português

Leia o texto para responder às questões 1 a 6.


ANTES QUE ELAS CRESÇAM


Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.

É que as crianças crescem. Independentes de nós, como árvores, tagarelas e pássaros estabanados, elas crescem sem pedir licença. Crescem como a inflação, independente do governo e da vontade popular. Entre os estupros dos preços, os disparos dos discursos e o assalto das estações, elas crescem com uma estridência alegre e, às vezes, com alardeada arrogância.

Mas não crescem todos os dias de igual maneira; crescem de repente.

Um dia se assentam perto de você no terraço e dizem uma frase de tal maturidade, que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura.

Onde é que andou crescendo aquela danadinha que você não percebia? Cadê aquele cheirinho de leite sobre a pele? Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário com palhaços, amiguinhos e o primeiro uniforme do maternal ou escola experimental?

Ela está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência civil. E você agora está ali na porta da discoteca esperando que ela não apenas cresça, mas apareça. Ali estão muitos pais, ao volante, esperando que saiam esfuziantes sobre patins[...].

Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão elas com o uniforme de sua geração: incômodas mochilas da moda nos ombros ou, então, com a suéter amarrada na cintura. Está quente, a gente diz que vão estragar a suéter, mas não tem jeito, é o emblema da geração. [...]

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.

Longe já vai o momento em que o primeiro mênstruo foi recebido como um impacto de rosas vermelhas. Não mais as colheremos nas portas das discotecas e festas, quando surgiam entre gírias e canções. Passou o tempo do balé, da cultura francesa e inglesa. Saíram do banco de trás e passaram para o volante das próprias vidas. Só nos resta dizer “bonne route< bonne route” como naquela canção francesa narrando a emoção do pai quando a filha lhe oferece o primeiro jantar no apartamento dela.

Deveríamos ter ido, mais vezes, à cama delas ao anoitecer para ouvir sua alma respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância e os adolescentes cobertores naquele quarto cheio de colagens, posters e agendas coloridas de Pilot. Não, não as levamos suficientes vezes ao shopping, ao circo, ao teatro, não lhes demos suficientes hambúrgueres e cocas, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas merecidas.

Elas cresceram sem que esgotássemos nelas todo nosso afeto.

No princípio subiam a serra ou iam à casa de praia entre embrulhos, comidas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscinas e amiguinhas. Sim, havia as brigas dentro do carro, disputa pela janela, pedidos de sorvetes e sanduíches, cantorias infantis. Depois chegou a idade em que subir para a casa de campo com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível largar a turma aqui na praia e os primeiros namorados. Esse exílio dos pais, esse divórcio dos filhos, vai durar sete anos bíblicos. Agora é hora dos pais nas montanhas terem a solidão que queriam, mas, de repente, exalarem contagiosa saudade daquelas pestes.

O jeito é esperar. Qualquer hora podem nos dar netos. O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos, e que não pode morrer conosco. Por isto os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável afeição. Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto.

Por isso, é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que elas cresçam.


Affonso Romano de Sant’Anna

Deveríamos ter ido mais vezes à cama delas ao anoitecer...” O verbo destacado encontra-se no

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Comentário da questão – Verbos e identificação do tempo e modo

Tema central: A questão exige o reconhecimento do tempo e modo verbal do verbo “deveríamos”, que aparece em “Deveríamos ter ido mais vezes à cama delas ao anoitecer...”. O conhecimento de morfologia verbal e a identificação das terminações dos tempos compostos são essenciais aqui.

Regra gramatical: De acordo com a norma-padrão, o futuro do pretérito do indicativo indica uma ação posterior a um fato passado, mas não realizada, geralmente associada a uma condição, desejo ou possibilidade que não se concretizou. Segundo a Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara, para os verbos regulares, utiliza-se a terminação -ia, -ias, -ia, -íamos, -íeis, -iam.

Análise da frase: O verbo “deveríamos” (dever + íamos) está conjugado na 1ª pessoa do plural do futuro do pretérito do indicativo. No contexto, o narrador reflete sobre algo que ele e outros pais deveriam ter feito no passado, mas não fizeram — ação não concretizada.

Alternativa Correta: E) Futuro do pretérito do indicativo

  • Por que E é correta: “Deveríamos” expressa uma possibilidade irrealizada no passado. A estrutura “dever + ía/íamos” é típica desse tempo e modo.

Análise das alternativas incorretas:

  • A) Pretérito perfeito do indicativo: indica ação acabada (Ex: “fomos”), não é um verbo modal nem expressa possibilidade.
  • B) Pretérito imperfeito do indicativo: indica hábito ou continuidade (Ex: “íamos”).
  • C) Pretérito imperfeito do subjuntivo: forma subordinada e hipotética (Ex: “se fôssemos”).
  • D) Futuro do presente do indicativo: ação futura (Ex: “iremos”), não que poderia ter ocorrido no passado.

Estratégia para provas: Fique atento às terminações verbais. “-íamos” quase sempre indica futuro do pretérito na 1ª pessoa do plural. Lembre-se do valor de condicional passada e conecte com o contexto.

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TERMINAÇÃO RIA- FUTURO DO PRETÉRITO- JOGARIA FUTEBOL SE NÃO ESTIVESSE CHOVENDO.

TERMINAÇÃO REI - FUTURO DO PRESENTE. CANTAREI ATÉ FICAR ROUCA.

Deve"RÍAMOS" Futuro do pretérito.

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