Apagados da história oficial, campos de
concentração da seca de 1932 estão
marcados na memória popular
Fortaleza, Crato, Ipu, Quixeramobim,
Cariús e Senador Pompeu. Nesses seis
municípios do Ceará, há noventa anos, durante a
grande seca de 1932, foram construídos sete
campos de concentração com o propósito de
conter os retirantes do interior do estado que
tentavam chegar à capital. Na época chamados
de “Currais do Governo”, os campos foram
construídos em pontos estratégicos, às margens
das linhas férreas, para impedir com mais
facilidade o embarque dos retirantes que, em
desespero, invadiam os trens para buscar
socorro em Fortaleza.
Atraídos por propostas de emprego e por
promessas de amparo, assistência médica e
alimentação, os flagelados eram, na verdade,
mantidos em locais insalubres, tendo que se
alimentar com rações enviadas pelo governo,
plantas silvestres e até com a carne de animais
que morriam de fome e sede nos campos.
Na realidade, as pessoas confinadas eram
reféns de uma política higienista que teve início
em períodos anteriores de estiagem severa. Na
segunda metade do século XIX, Fortaleza
engrenou um processo de desenvolvimento
econômico e urbano que perdeu força e se
desestruturou com a chegada da seca de 1877,
que durou até 1879 e levou mais de 100 mil
retirantes de todo o estado a migrarem para a
capital, que na época tinha uma população bem
menor, de 30 mil habitantes. As autoridades,
então, passaram a buscar meios para conter a
chegada dessas pessoas ao centro da cidade de
Fortaleza.
Trinta e seis anos depois, durante a
estiagem de 1915, o governo não havia criado
políticas de convivência com a seca, mas, com o
apoio da elite fortalezense, aprimorado as suas
estratégias para conter o fluxo de retirantes que
rumavam para a capital. Lá, foram criados os
primeiros campos de concentração para evitar
que pessoas “potenciais portadoras de doenças”
ou saqueadoras de mercados, consideradas uma
séria ameaça à tranquilidade pública, ocupassem
a cidade.
Em 20 de junho de 1932, o jornal
cearense O Povo destacava com informações
oficiais o “Efetivo dos Campos de Concentração
dos Flagelados”: em Ipu, o número de pessoas
concentradas na data da publicação era de
6.507. Em Fortaleza, nos campos do Alagadiço e
do Urubu, havia 1.800 pessoas. No município de
Quixeramobim, 4.542. Em Senador Pompeu, no
campo do Patu, 16.221 (na época, o número de
concentrados chegou a ultrapassar o número de
habitantes da cidade). No campo de Buriti, no Crato, havia 16.200 pessoas. Cariús, com o
maior número, concentrava 28.648. Em todo o
estado, o total de pessoas mantidas nos campos
de concentração naquele ano era de 73.918.
O município de Senador Pompeu,
localizado a cerca de 266 quilômetros de
Fortaleza, é o único que ainda conserva parte da
estrutura usada para isolar os emigrantes durante
o período de estiagem de 1932. Diferente dos
campos de concentração dos outros municípios,
que construíam apenas barracões cobertos com
folhas de carnaúba, lá, além dos barracões,
foram utilizados os antigos casarões construídos
na década de 1920 pela companhia inglesa de
engenharia Norton Griffiths & Company –
encarregada da construção do açude do Patu, na
zona rural do município. No sítio do Patu, para
conter os confinados, foram utilizados o casarão
dos inspetores da obra, duas casas de pólvora,
um armazém, a estrutura de um hospital
desativado, uma usina, um cemitério e uma
estação de trem.
Hoje, o açude do Patu tem como principal
finalidade o abastecimento de água da cidade.
Segundo o Departamento Nacional de Obras
Contra as Secas (Dnocs), o projeto de construção
do açude é do ano de 1919 e as primeiras
escavações foram feitas em 1921. Porém, as
obras foram paralisadas em 1923, sendo
retomadas depois de 61 anos e,
finalmente, concluídas em 1987.
Foi no campo de concentração do sítio
Patu que, aos 16 anos, o pai da agricultora
aposentada Alzira Lucinda Moraes de Lima, 70,
esteve confinado. Mário Antônio de Moraes
sobreviveu a 1932 e aos horrores da seca
daquele ano. Ele faleceu com oitenta e cinco
anos, em 2001. Durante o tempo que conviveu
com a filha, lhe contou o que viu e viveu no
período em que esteve isolado. “O meu pai dizia
que ali era uma prisão. Era ele quem cavava as
covas para enterrar os defuntos que morriam no
campo. Ele dizia que eram dois, três, por noite.
Falava dos cachorros brigando, querendo comer
os cadáveres. As crianças que morriam, eram
carregadas numas telhas. Papai contava que era
um horror”. Mário Antônio foi um dos poucos que
conseguiram escapar do campo de concentração
do Patu. Ele fugiu para Mombaça, município
localizado a cerca de 307 quilômetros de
Fortaleza. Nascido no povoado Riacho do
Sangue, em Solonópole, que fica a 275
quilômetros da capital cearense. Foi de lá que,
durante a seca, quando tentava viajar para
Fortaleza, foi impedido pelos vigilantes das
estradas e estações de trem e encaminhado para
o campo do Patu.
Os campos de concentração no Ceará, vendidos
como uma política de amparo, faziam parte de
um projeto desenvolvido pelo governo estadual
em parceria com o ministério de Viação e Obras
Públicas do governo de Getúlio Vargas, que incentivava a criação de espaços para o
confinamento de flagelados das secas.
Não há registros oficiais que mostrem com
precisão o número de mortos nos campos de
concentração cearenses de 1932. Grande parte
dos documentos e arquivos oficiais
desapareceram. O advogado Valdecy Alves, que
nasceu em Senador Pompeu e hoje vive em
Fortaleza, estuda o assunto há mais de 20 anos.
Ele escreveu três livros e também produziu
outros três documentários a respeito. Valdecy
considera a falta de informações uma tentativa de
apagamento de um dos períodos mais sombrios
da nossa história. “Houve um gigantesco e
proposital apagamento histórico dos campos de
concentração no Ceará. O apagamento da
memória é uma prática de quem detém o poder
político e econômico. Os campos de
concentração das secas são coisas tão
vergonhosas praticadas pelo Estado brasileiro,
que ele quer apagar. Hoje, eu entendo que os
próprios governantes atuais têm receio do
resgate da memória da seca de 32 até por medo
de terem de indenizar os descendentes das
pessoas que foram injustiçadas naquela época.
As pessoas foram aprisionadas, usadas como
mão de obra escrava para a construção de
estradas, construção de ferrovias”, conta
Valdecy.
Com uma área de aproximadamente 90
hectares, o sítio do Patu foi tombado como
patrimônio histórico-cultural de Senador Pompeu
em 2019 e atualmente está em processo de
tombamento a nível estadual. Segundo a
Secretaria de Cultura do Estado do Ceará, o
projeto está em fase de instrução processual para
reunir informações históricas, arquitetônicas e
antropológicas. A previsão do encerramento
dessa etapa é novembro de 2022.
Fonte: https://marcozero.org/campos-de-concentracao-ceara-seca-de-1932/
Acesso em 24/05/2022
Assinale a alternativa que apresente a
função sintática exercida pela oração
subordinada em destaque: “O meu pai dizia
que ali era uma prisão”.
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