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Q4111162 Português
O texto seguinte servirá de base para responder à questão.

Relação conturbada

Embarco com muitas dúvidas. Não sei direito quem são essas pessoas que vou ver; sei seus nomes, de onde as conheço, e tenho uma imagem vaga de alguns deles, mas não sei como são nem como vou chegar até eles. Tudo que sei é que tenho oito horas e uma cadeira para pensar sobre isso.

Por oito horas o mundo se torna aquela poltrona. Você tenta se distrair, mas, no fim, é ela quem rouba sua atenção. Mesmo sentado, quase sem se mover, o corpo definha: a postura trava, o pescoço endurece, a espinha se desconcerta, os músculos enrijecem. De tempos em tempos você tenta esticar as pernas, preso num minúsculo cativeiro. Quem diria que ficar sentado cansa?

Desde que comecei a faculdade, tenho me habituado à fadiga da viagem, o estar aqui, ser de lá, pertencer a lugar algum. Três horas de ônibus já bastam para vilanizar a cadeira: vibração constante, nervos amortecidos, a memória chacoalhada. Perguntas se sentam e empedram: Devia voltar mais vezes? Devia ligar? Devia mudar?

Desta vez o ônibus é diferente; a viagem, mais longa; a cadeira, mais abusada. Estou indo para uma terra desconhecida ver gente que não vejo há uns seis, sete anos. Por pouco não falamos mais a mesma língua, mas ainda assim é família. Alguns caminhos são mais tortuosos que outros — e umas cadeiras, mais macias que outras. Mas não essa. Oito horas depois, me sinto carne moída. Não aguento mais ficar sentado.

Texto Adaptado

SALMAR, Ian. Relação conturbada. In: Portal de Livros Abertos da USP. São Paulo: Universidade de São Paulo, [s.d.]. Disponível em: https://www.livrosabertos.abcd.usp.br/portaldelivrosUSP/catalog/view/1 512/1378/5380 . Acesso em: 16 nov. 2025.
Com base no texto apresentado, analise as assertivas abaixo e assinale a alternativa que contém a interpretação coerente com o sentido global do texto, considerando a construção subjetiva do enunciador e os mecanismos de coesão e coerência empregados na narrativa.
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: A

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a coerência com o sentido global construído pela voz subjetiva do narrador, especialmente no trecho "Desde que comecei a faculdade, tenho me habituado à fadiga da viagem, o estar aqui, ser de lá, pertencer a lugar algum."; essa formulação explicita o não pertencimento e, articulada a marcas como "Embarco com muitas dúvidas" e "terra desconhecida", sustenta a leitura de deslocamento como estranhamento identitário, afastando otimismo, ruptura definitiva ou resignação.

Tema central: não pertencimento
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A está correta porque articula os dois eixos centrais do texto: o deslocamento físico penoso e sua repercussão subjetiva. A narração é introspectiva, centrada em dúvidas, sensações e perguntas do enunciador, e as imagens da viagem, da cadeira e do corpo cansado não ficam restritas ao plano material; elas acompanham a percepção de desenraizamento. Isso aparece de modo explícito em "pertencer a lugar algum" e se reforça pelo estranhamento diante das pessoas e do destino, como em "Não sei direito quem são essas pessoas que vou ver" e "Estou indo para uma terra desconhecida". Por isso, a leitura de travessia no tempo e no espaço como acentuação do não pertencimento é a única plenamente coerente com o texto.
B
Errada
A alternativa erra ao afirmar que o desconforto é compensado pela expectativa do reencontro familiar e que disso resulta um tom otimista. O texto abre com "Embarco com muitas dúvidas" e reforça o distanciamento em "Não sei direito quem são essas pessoas que vou ver". A família não aparece como compensação reconfortante, mas como vínculo atravessado por distância, estranhamento e incerteza.
C
Errada
A alternativa extrapola quando conclui que o narrador não reconhece mais os vínculos familiares e chega a um rompimento definitivo. O texto autoriza ler tensão emocional associada ao desconforto da viagem, mas não autoriza negar os vínculos. Ao contrário, há um limite explícito para essa interpretação: "Por pouco não falamos mais a mesma língua, mas ainda assim é família." Isso afasta a ideia de ruptura total e irreversível.
D
Errada
A alternativa reduz indevidamente o texto a algo "rotineiro e fisiológico" e atribui ao narrador inércia e resignação. Ocorre o oposto: embora haja habitualidade na fadiga da viagem, o texto insiste em inquietação subjetiva e conflito interno, visíveis em "Perguntas se sentam e empedram: Devia voltar mais vezes? Devia ligar? Devia mudar?". Essas perguntas mostram reflexão ativa sobre origem e vínculos, não passividade conformada.
Pegadinha da questão
A banca explora a tendência de ler a cadeira, o cansaço e o corpo como tema exclusivo do texto ou, no extremo oposto, transformar o reencontro com a família em reconciliação otimista; o núcleo correto está na ligação entre desconforto da viagem e sentimento de não pertencimento.
Dica para questões semelhantes
  • Procure a frase em que o próprio narrador nomeia sua condição subjetiva; aqui, "pertencer a lugar algum" organiza a leitura global.
  • Não trate imagens físicas como descrição isolada quando elas acompanham dúvidas, lembranças e perguntas internas.
  • Evite inferir reconciliação ou ruptura definitiva sem apoio textual expresso; afastamento e estranhamento não equivalem, por si, a rompimento total.

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