No Texto I, há uma presença marcante de adjetivos, alguns do...

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Q4405155 Português
Leia o Texto I para responder à questão.

Texto I

Ei, Ardoca

    O barulhar seco e cortante do trem irritava os ouvidos de Ardoca. O atrito da máquina nos trilhos ecoava constantemente no fundo de seus tímpanos. Aos domingos, dentro de casa, no silêncio da mulher, nas vozes e brincadeiras dos filhos, ele ouvia o grito arranhado do aço espichado sobre o solo. Grito lancinante e cortante debaixo do comboio pesadão que parecia massacrar a linha férrea inerte. Ardoca nascera quase que dentro daquela máquina. Sua mãe, moradora do subúrbio, fazia a viagem diária rumo ao trabalho. Ela grávida, ele estufando na barriga materna respondia aos solavancos do trem com chutes internos. Depois, cá fora, no mundo, no colo da mãe, acordava e chorava durante todo o tempo da viagem. Cresceu em meio aos solavancos, ao empurra-empurra, aos gritos dos camelôs, às rezas dos crentes, às vozes dos bêbados, aos lamentos e cochilos dos trabalhadores e trabalhadoras cansados. Assistiu inúmeras vezes, como testemunha cega e muda, a assaltos, assassinatos, tráfico e uso de droga nos vagões superlotados. Acada viagem, Ardoca mais estranhava e desacostumava à vida do trem. Queria viajar com o mesmo descuido de alguns que jogavam porrinha ou dormiam durante o percurso, mas permanecia sempre desesperadamente acordado. Estava sempre atento, tenso, como se o trem, a qualquer momento, pudesse autocolidir, se autoembarafunhar, fazendo com que o último vagão se fechasse em círculo sobre o primeiro e soltasse tudo pelos ares.
    E foi então, que em uma tarde, Ardoca caminhou com passos lentos em direção à estação. Era sábado. O movimento menor de passageiros não garantiu porém a possibilidade de um lugar vazio. Ele se sentia cansado por todos os dias, todos os trabalhos, e por toda a vida. Entrou na fila para a compra do bilhete. O funcionário deu-lhe o troco. Ardoca com um gesto recusou. Olhou o trem, a composição pareceu-lhe mais longa ainda. Subiu com dificuldades, encostou-se à parede do vagão e depois lentamente foi escorregando o corpo até chegar ao chão. Algumas pessoas riram. Alguém gritou que o homem estava bêbado. Outro completou a observação dizendo que o dinheiro do pobre não dava para o alimento, mas dava para a cachaça. O trem continuava parado, mas a barulheira sobre os trilhos alcançava e feria os ouvidos de Ardoca. Ele sorria um pouco. Um suor frio escorria sobre a sua face. Um grupo de crentes cantava olhando para ele como se quisesse comovê-lo. Aleluiavam aos altos brados um Senhor que, segundo eles, falava em silêncio aos homens. Ardoca abandonava o corpo, que pendia lentamente para um lado. O passageiro do banco próximo encolheu o pé. Um camelô que vendia água pulou por cima dele para atender uma pessoa. Ardoca respirava com dificuldade, debaixo do negro de sua pele, um tom amarelo desbotado aparecia. Uma mulher levantou, comprou um copo d'água e deu-lhe de beber, tentando reanimá-lo. Os crentes continuavam bradando o hino. O vendedor de água, buscando um espaço para fazer valer a sua fala, anunciava o seu produto em altíssima voz. O trem parado continuava mortificando os ouvidos fragilizados de Ardoca. Enquanto isso, sua vida ia se aprofudando mais e mais no dissentir de tudo. Ele buscava a respiração lá no fundo. A mulher que lhe socorreu parecia querer chorar. Neste momento entrou no vagão um passageiro correndo e gritando. Desesperado, empurrou as pessoas buscando passagem em direção ao rapaz desfalecido, chamando por ele
     — Ei, Ardoca! Ei, Ardoca!
    Rapidamente o tomou no colo, desceu do trem e o depositou no banco da estação. Acomposição iniciou lentamente a partida. Cá de dentro, a mulher que se condoera de Ardoca e alguns outros passageiros ainda puderam ver. Aquele que o socorrera estava a meter a mão nos bolsos de Ardoca e a arrancar-lhe os sapatos e o relógio que ele trazia no pulso. Ardoca estava sendo assaltado. A mulher fez menção de descer, mas a máquina ganhou velocidade e partiu. Não era preciso porém nem dor, nem lágrimas. O outro podia levar os poucos pertences de Ardoca. Podia tomar-lhe tudo. Ardoca não tinha mais nada, nem a vida. Naquela tarde, ainda no trabalho ele resolvera tudo. Num gesto desesperado e solitário bebera lentamente um veneno e decidira levantar para morrer no trem. O outro levava os pertences de alguém que já despertencia à vida e jazia no banco da estação.
     O barulho da máquina sobre os trilhos entoava uma música réquiem de descanso eterno para Ardoca. Amém.

Fonte:Evaristo, Conceição. Olhos d'água. 1. ed. – Rio de Janeiro: Pallas: Fundação Biblioteca Nacional, 2016. 
No Texto I, há uma presença marcante de adjetivos, alguns dos quais referidos ao personagem Ardoca. Analise os contextos em que os adjetivos se apresentam nas frases a seguir e indique a função sintática assumida por eles.
I- “Assistiu inúmeras vezes, como testemunha CEGA e MUDA, a assaltos, assassinatos, tráfico e uso de droga nos vagões superlotados”.
II- “Estava sempre ATENTO, TENSO, como se o trem, a qualquer momento, pudesse autocolidir”.
III- “Ele se sentia CANSADO por todos os dias, todos os trabalhos, e por toda a vida”.
Os adjetivos em destaque têm, respectivamente, as funções de: 
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