Bebê reborn, polêmica real: quando o afeto
encena o inanimado
(Tauane Paula Gehm, doutora em psicologia)
Após um vídeo seu viralizar na internet, Yasmim
Becker, de 17 anos, acabou no centro de uma onda
de ataques virtuais. Nele, a jovem narra o que
descreveu como “um dos dias mais corridos e
assustadores” de sua vida, quando precisou levar
seu filho, Bento, “às pressas” ao hospital porque ele
não estava se sentindo bem. Acontece que Bento
não era uma criança — nem um pet —, mas um
boneco inanimado: um bebê reborn, modelo hiper
realista com aparência idêntica à de um recém
nascido. Tudo não passou de uma encenação.
Yasmim é colecionadora desses bonecos e costuma
gravar vídeos fictícios voltados ao público infantil.
Coleções exóticas não são novidade: há quem
junte
desde objetos banais até os mais
extravagantes. Certa vez, soube de um rapaz que
colecionava fotos 3×4 de desconhecidos. Curioso, no
mínimo. O episódio de Yasmim serve como pano de
fundo para casos ainda mais absurdos envolvendo
os famigerados bebês reborn. A advogada Suzana
Ferreira contou ter sido procurada para defender o
“direito à guarda” de um desses bonecos após o fim
de um relacionamento. “A mãe ficou muito nervosa e
me acusou de ‘intolerância materna’ por eu ter
recusado o caso”, relatou. Esse é apenas um dos
muitos relatos que circulam pela internet, fundindo
invenção com realidade e despertando indignação e
incredulidade.
O que ninguém parece conseguir explicar é o
nível de insensatez que tudo isso alcançou — tanto
por parte daqueles que tratam um objeto inanimado
como um ser humano, quanto daqueles que reagem
a isso com ódio. A fronteira entre fantasia e realidade
está cada vez mais diluída. Criamos versões
editadas de nós mesmos nas redes, montamos
cenários para exibir afetos, performamos relações.
O bebê reborn surge como símbolo extremo de
um fenômeno bastante familiar: um afeto
cuidadosamente encenado para parecer real, que só
se sustenta porque pode ser controlado e exibido.
Um afeto esteticamente agradável, limpo, sereno —
e, ao mesmo tempo, sem risco, sem contradição,
sem frustração. O quanto temos investido
emocionalmente em simulacros? E o quanto, nesse
desejo por relações absolutamente controláveis,
revelamos uma carência profunda numa sociedade
perdida em seus vínculos reais?
O bebê reborn está ali. Parado. Imóvel. E ainda
assim é cuidado como se fosse real. Não responde.
Não sente. Não cresce. E talvez seja justamente por
isso que tanta gente o escolhe. Não por loucura, mas
por uma tentativa de encenar o cuidado em um tempo
em que as relações reais parecem, para muitos,
assustadoras ou distantes demais. Ou talvez como
forma de produzir o olhar e o interesse do outro —
ainda que digital —, aquele que carrega, mesmo que
ilusoriamente, a promessa de uma relação
verdadeira.
(in: https://saude.abril.com.br/, com adaptações)
Em “Ou talvez como forma de produzir o olhar e o
interesse do outro — ainda que digital —, aquele que
carrega, mesmo que ilusoriamente, a promessa de
uma relação verdadeira” (5º parágrafo), os dois
trechos em destaque trazem o sentido de:
Incorreta. Gabarito oficial da banca:
Treine mais com um simulado focado no seu concurso. Criar simulado
teste
Parabéns! Você acertou!
Está mandando bem! Treine mais em um simulado completo. Criar simulado