Analise o excerto: “— A gente não deve nunca mexer com estas...
Leia o texto abaixo para a questão:
“[…] Quando chegaram ao Igarapé, enquanto as senhoras cuidavam da roupa, Anita e suas colegas adentraram o mato à procura de flores silvestres. E nesta brincadeira demoraram algum tempo.
E ato contínuo subiu o Igarapé até a cabeceira. Ali arremedando um ritual, levantou as flores silvestres em atitude de oferenda.
— Mãe d'Água, trouxe-lhe estas flores como presente...
Dizendo isto, jogou-as no Igarapé. As flores acompanharam a correnteza, e as mocinhas - agora apenas Anita e sua irmã - seguiram-nas. Na brincadeira, correndo sempre pelo leito do Igarapé, Anita acabou caindo.
Neste trecho, a corrente um pouco mais forte obrigou Anita a se debater com as águas, até conseguir acocorar-se. As senhoras, que a tudo assistiram, mandaram que saísse imediatamente de dentro d'água.
Ao levantar-se, parou. E permaneceu estática. Olhava, sem conseguir tirar a vista, para um determinado ponto do Igarapé. Ali estava uma cobra coral, vermelha, com os traços brancos e pretos como todas as cobras corais, só que, em cima da cabeça, ela tinha... uma cruz branca!
[…] as senhoras chamaram a atenção das mocinhas para não brincarem da maneira que haviam feito.
— A gente não deve nunca mexer com estas coisas. Cada lugar tem seu dono e, se a gente respeita, está tudo bem.
Mas, se irritá-los, eles podem muito bem malinar. Tu, Anita, não tinhas nada que estar com aquela história de aniversário da Mãe d'Água do Igarapé. E ainda vai se pôr a dar flores, fazendo graça. Queira Deus nada te aconteça...! Aquela cobra coral com a cruz branca na cabeça bem pode ser um aviso.
[…]
Mas Anita não respondeu. Ela já não se sentia bem, o corpo parecia que estava ardendo. E estava mesmo. Ao chegar em casa, tanto ela como a irmã estavam com febre alta […]
(Fonte: MONTEIRO, Walcyr. A Mãe d’água do Igarapé de São Joaquim. In: Visagens e Assombrações de Belém, Belém: Editota Paka Tatu 2007)