Assinale o modelo de deficiência que é predominante no texto...
Caso Inácio
Inácio nasceu diferente. Foi uma criança cuja família, desde cedo, percebeu que ele tinha o desenvolvimento atrasado em relação aos irmãos: demorou a falar, a andar, tinha dificuldade para compreender. O médico disse que não havia o que fazer e que ele seria “retardado” ao longo de toda sua vida. Na primeira infância, ele ficou em casa, pois nenhuma creche ou pré-escola aceitaram matriculá-lo, sob a alegação de que ele não tinha autonomia para andar, usar banheiro, alimentar-se ou se vestir/despir e, que por isso, a escola não tinha condições de recebê-lo. Em sua cidade, também não havia nenhuma instituição especializada que pudesse acolhê-lo. Quando Inácio atingiu 6 anos, a política de inclusão escolar foi implementada no sistema educacional municipal. Inácio ingressou na faixa etária de escolaridade obrigatória, na época, definida entre 6 e 14 anos, quando ele teve sua matrícula garantida e seus pais foram obrigados, por lei, a levá-lo para a escola, porque, segundo a Constituição Brasileira, a educação é um direito subjetivo, portanto inalienável. Ele começou, então, a frequentar uma classe de primeiro ano, mas sem, de fato, estar participando das aulas, das provas ou tendo acesso ao currículo. Ele era cadeirante, não se expressava pela fala, mas apenas com poucos gestos, não conseguia controlar a baba e, ao ser matriculado na classe comum, não foi bem aceito ou benquisto nem por seus colegas da turma, nem por professores, que não sabiam como se comportar diante dele, pois o achavam muito estranho. Muitos sentiam nojo de sua baba constante e procuravam não se aproximar muito. Sua professora não sabia o que fazer com ele na sala de aula, mas ela tinha uma auxiliar da escola que ocasionalmente aparecia nos momentos de levá-lo ao banheiro, efetuar trocas de fraldas, cuidar de sua higiene, alimentá-lo e acompanhá-lo no recreio. Nos demais períodos escolares, ele permanecia num canto isolado da sala e sua família tinha a responsabilidade de trazê-lo para a escola e vir buscá-lo, porque não havia transporte escolar adaptado para viabilizar seu acesso à escola. E, assim, ele foi passando de ano em ano, sendo automaticamente promovido pelos seus professores e sendo tratado como se fosse um objeto inanimado dentro da sala de aula, pois não tinha livros, cadernos ou material próprio. Ninguém conseguia comunicar-se se com ele e Inácio permanecia o tempo todo na sala, em sua cadeira adaptada, sem se comunicar ou fazer nenhuma atividade. Inácio permaneceu na escola comum porque sua família fazia questão disso, ainda que ele parecia não avançar e, dependendo da professora e do conselho de classe, em alguns anos, foi promovido e, em outros, retido na série que cursava. Ao completar 18 anos, sem concluir o ensino fundamental, a família de Inácio foi chamada para decidir se ele iria frequentar uma classe de Educação de Jovens e Adultos ou se iria requerer um certificado de terminalidade específica de conclusão do ensino fundamental. Sua família até fazia muito gosto que ele continuasse na escola, mas percebeu que Inácio se cansara e decidiu retirá-lo da escola, depois de anos tentando, sem sucesso, que ele aprendesse a ler, a escrever ou a dominar no mínimo as quatro operações matemáticas. Ele saiu sem ter amigos e também sem perspectivas de emprego. Sua família solicitou ao Estado e conquistou o direito ao benefício de prestação continuada. Hoje, Inácio, já adulto, permanece em casa assistindo à televisão ou fica na calçada observando o movimento da rua. Ele raramente sai de casa, pois a família tem dificuldade de transportá-lo e ocasionalmente faz uso do transporte especial gratuito, recentemente implantado no município, mas apenas quando precisa ir ao médico ou à agência da previdência para a revisão de seu benefício. A família guarda na gaveta o certificado de terminalidade específica do ensino fundamental concedido pela escola, sem entender para que serve esse documento.
Fonte: MENDES, Eniceia Gonçalves. Sobre alunos "incluídos" ou da "inclusão", reflexões sobre o conceito de inclusão escolar. In: Sônia Lopes Victor; Alexandro Braga Vieria; Ivone Martins de Oliveira. (Org.). Educação Especial Inclusiva: conceituações, medicalização e politicas. 1ed.Campos de Goytacazes (RJ): Brasil Multicultural, 2017, v. 1, p. 60-83.
Gabarito comentado
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Alternativa correta: B - médico
1. Tema central da questão
Esta questão exige do aluno a identificação do modelo de deficiência predominante no caso de Inácio, fundamental para compreender como as políticas e práticas escolares lidam com a inclusão e a diversidade. Saber diferenciar os modelos de deficiência é essencial em concursos para cargos da educação, pois impacta diretamente na forma como o profissional atuará no cotidiano escolar.
2. Resumo teórico sobre modelos de deficiência
O modelo médico de deficiência entende a deficiência como um problema do indivíduo, focando em diagnósticos, limitações e na busca por tratamento ou cura. O sujeito é visto como incapaz ou doente, e a responsabilidade de “corrigir” a deficiência é da medicina ou de instituições especializadas (Lei Brasileira de Inclusão, Art. 2º).
Já o modelo social enxerga a deficiência como resultado das barreiras impostas pela sociedade, destacando a importância da acessibilidade e inclusão. O modelo biopsicossocial integra as dimensões biológica, psicológica e social, sendo o mais adotado atualmente em políticas públicas (como a Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde - CIF/OMS).
3. Justificativa da alternativa correta (B)
No caso de Inácio, predomina o olhar médico: sua deficiência é descrita a partir de diagnósticos médicos, limitações físicas e cognitivas, e há exclusão escolar baseada nessas características. Não há esforços para adaptar o currículo ou eliminar barreiras atitudinais e arquitetônicas. Ele é visto como um “problema a ser suportado”, e não como um sujeito de direitos.
4. Análise das alternativas incorretas
A - Social: Não é predominante, pois não há foco nas barreiras sociais, mas sim nas deficiências de Inácio.
C - Comportamental: Este modelo não é reconhecido academicamente como explicativo para deficiência, mas sim para distúrbios de conduta. Não se aplica ao caso.
D - Biopsicossocial: Embora seja o modelo defendido atualmente, ele não se evidencia no caso, pois não há integração entre aspectos médicos, sociais e psicológicos na abordagem da escola ou da sociedade.
5. Estratégia de interpretação
Repare, ao ler o caso, que toda a narrativa se baseia na condição clínica e nas limitações do indivíduo. Sempre que o foco recai no diagnóstico, incapacidade ou impossibilidade de inclusão sem considerar adaptações, trata-se do modelo médico.
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