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A palavra “condescendente”, empregada no trecho “talvez mes...

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Q4233141 Português

A lua semeava crisântemos


    Recordo, sem nenhuma saudade, o tempo que passei redigindo anúncios. O leitor comum não pode imaginar que um pequeno anúncio é tão trabalhoso como um soneto.


    Foram os americanos que fixaram as normas do anúncio comercial. E essas normas funcionam. O redator tem de respeitar estes e aqueles princípios, tocar nestes e naqueles pontos. São regras fáceis de decorar e difíceis de aplicar. Claro que vale muito "bolar" alguma novidade para atrair ou prender o leitor, mas isto dentro de certos limites. O publicitário tem de examinar a frase depois de escrita, pesar sua força, limpá-la de todo o supérfluo, imaginar o efeito psicológico que ela poderá ter. Deve estudar todos os elementos de que pode lançar mão para convencer o leitor, pensar em tudo que lhe vai sugerir, despertar nele a vontade de comprar, apelando para o seu senso de economia, ou de conforto, ou sua vaidade, ou seu desejo de êxito social ou amoroso. E para isso, de acordo com o produto ou serviço que pretende vender, deve atender a mil pequenas circunstâncias, meditar sobre o estado psicológico do tipo de pessoa a que se dirige, nível social, sexo, idade, situação financeira, problemas, enfim uma interminável chateação.


    Bons escritores brasileiros fizeram publicidade: basta citar Bilac e Alvaro Moreyra; mas não viviam disso. O primeiro verdadeiro profissional que eu conheci foi Orígenes Lessa, lá por 1933. Ele acabara de publicar Não há de ser nada, crônicas sobre o movimento de 1932, de que participara: trabalhava, se não me engano, na Thompson, e era casado com a mulher mais bonita de S. Paulo e provavelmente da América do Sul, chamada Elsie (Pinheiro) Lessa, essa mesma que ainda hoje escreve de vez em quando no O Globo. Vem daí, talvez, o prestígio que aos meus olhos sempre tiveram os homens de publicidade; além do mais, Orígenes falava inglês, coisa rara naquele tempo.


    Hoje os grandes homens da publicidade nada têm com a literatura, e talvez mesmo a olhem com um certo desprezo condescendente. São figuras de alta prosa, que em geral nem usam nomes, mas apenas iniciais de misteriosos triunviratos — este é o P da GMP, aquele é o J da NRJ, assim por diante. Cavalheiros eminentes e ricos, jorges amados sem literatura, profetas de nosso capitalismo frenético.


    Mas voltemos ao escritor comum que faz publicidade. Valerá de alguma coisa o treino publicitário com toda a sua minuciosa disciplina? Não lhe será esse “serviço militar” útil para desenvolver o senso de economia verbal, precisão, clareza? “Não”, me diz um deles, “emburra”. A menos que na hora de folga ele jogue tudo aquilo fora e se entregue à literatura mais solta, escrevendo coisas assim: “A lua de agosto semeava crisântemos e bicicletas verdes no abril de teu sonho de mariposa tonta…”


BRAGA, R. A lua semeava crisântemos. In: FILHO, D. P (Org.) Um cartão de Paris. Record, 1997, pp. 57-59. Disponível em: <https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/16246/a-lua-semeava-crisantemos>.

A palavra “condescendente”, empregada no trecho “talvez mesmo a olhem com um certo desprezo condescendente [...]”, exprime o mesmo sentido que: 
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: O critério decisivo é o sentido contextual de “condescendente” no trecho “Hoje os grandes homens da publicidade nada têm com a literatura, e talvez mesmo a olhem com um certo desprezo condescendente.” Como a palavra qualifica “desprezo” e indica tolerância/indulgência superior, a alternativa compatível é “transigente”.

Tema central: sentido contextual de palavra
Análise das alternativas
A
Errada
“Exigente” remete a rigor, cobrança e severidade de critério. No trecho, não há ideia de cobrança em relação à literatura, mas de desdém superior com tolerância. O campo semântico de “exigente” é incompatível com “desprezo condescendente”.
B
Errada
“Incomplacente” significa sem complacência, sem tolerância, inflexível. Isso contraria diretamente a nuance de indulgência presente em “condescendente”. A alternativa erra por antonímia contextual.
C
Certa
A alternativa C é a correta porque “transigente” é a que melhor reproduz, nesse contexto, a ideia de tolerância indulgente associada à condescendência. O trecho não apresenta compreensão afetiva nem hostilidade dura; apresenta um desdém superior, uma atitude de quem olha “de cima para baixo” e tolera com ar de superioridade. É essa nuance contextual que aproxima “condescendente” de “transigente”.
D
Errada
“Incompassivo” desloca o sentido para falta de compaixão, crueldade ou insensibilidade. O trecho não enfatiza crueldade nem ausência de piedade; enfatiza uma tolerância desdenhosa. É outro campo semântico.
E
Errada
“Compreensivo” pode parecer próximo se a palavra for lida isoladamente, mas o contexto impede essa leitura positiva. Como “condescendente” aparece em “desprezo condescendente”, o sentido não é empatia genuína nem benevolência, e sim indulgência superior. A carga valorativa de “compreensivo” não se ajusta ao contexto depreciativo.
Pegadinha da questão
A banca explora duas confusões reais: ler “condescendente” isoladamente e marcar “compreensivo”, ou ler apenas “desprezo” e escolher uma palavra de dureza, como “incomplacente” ou “incompassivo”. O acerto depende de considerar a combinação completa “desprezo condescendente”.
Dica para questões semelhantes
  • Determine o sentido da palavra dentro do sintagma em que ela aparece, não fora dele.
  • Quando houver termo de valor negativo junto da palavra cobrada, verifique se ele altera uma leitura aparentemente positiva.
  • Em questão de sinonímia contextual, procure a alternativa semanticamente mais compatível com o trecho, não um sinônimo absoluto para qualquer situação.

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Comentários

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A alternativa C é a correta porque “transigente” é a que melhor reproduz, nesse contexto, a ideia de tolerância indulgente associada à condescendência. O trecho não apresenta compreensão afetiva nem hostilidade dura; apresenta um desdém superior, uma atitude de quem olha “de cima para baixo” e tolera com ar de superioridade. É essa nuance contextual que aproxima “condescendente” de “transigente”.

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