O segundo parágrafo 

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Q3700489 Português
A questão refere-se ao texto abaixo.

Ninguém

A rua estava fria. Era sábado ao anoitecer, mas eu estava chegando e não saindo. Passei no bar e comprei um maço de cigarros. Vinte cigarros. Eram os vinte amigos que iam passar a noite comigo.

A porta se fechou como uma despedida para a rua. Mas a porta sempre se fechava assim. Ela se fechou com um som abafado e rouco. Mas era sempre assim que ela se fechava. Um som que parecia o adeus de um condenado. Mas a porta simplesmente se fechara e ela sempre fechava assim. Todos os dias ela se fechava assim.

Acender o fogo, esquentar o arroz, fritar o ovo. A gordura estala e espirra, ferindo minhas mãos. A comida estava boa. Estava realmente boa, embora tenha ficado quase a metade no prato. Havia uma casquinha de ovo e pensei em pedir-me desculpas por isso. Sorri com esse pensamento. Acho que sorri. Devo ter sorrido. Era só uma casquinha.

Busquei no silêncio da copa algum inseto, mas eles já haviam todos adormecidos para a manhã de domingo. Então eu falei em voz alta. Precisava ouvir alguma coisa e falei em voz alta. Foi só uma frase banal. Se houvesse alguém perto, diria que eu estava ficando doido. Eu podia dizer o que quisesse. Não havia ninguém para me ouvir. Eu podia rolar no chão, ficar nu, arrancar os cabelos, gemer, chorar, soluçar, perder a fala, não havia ninguém. Eu podia até morrer.

De manhã, o padeiro me perguntou se estava tudo bom. Eu sorri e disse que estava. Na rua, o vizinho me perguntou se estava tudo certo. Eu disse que sim e sorri. Também meu patrão me perguntou e eu sorrindo disse que sim. Veio a tarde e meu primo me perguntou se estava tudo em paz e eu sorri dizendo que estava. Depois, sorri e disse que sim, estava tudo azul.

(VILELA, Luiz. Tremor de Terra. 4. ed. São Paulo: Ed. Ática, 1977. p. 93).
O segundo parágrafo 
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Comentário da questão – Interpretação de Texto (Nível Médio)

Tema central: Esta questão avalia interpretação de texto, especialmente a habilidade de identificar ideias explícitas e implícitas, observando coerência e coesão dentro do trecho apresentado.

Explicação didática: No segundo parágrafo, percebe-se uma forte repetição de frases como: “a porta sempre se fechava assim” e “todos os dias ela se fechava assim". Pelos termos destacados, a narrativa evidencia uma rotina detalhada e a repetição do mesmo cenário de solidão, característica marcante do cotidiano do personagem.

Como enfatizam autores respeitados como Celso Cunha & Lindley Cintra, a interpretação textual exige identificar elementos literais e inferir informações a partir da forma como o texto é estruturado.

Alternativa correta: A"Mostra que a solidão da personagem era uma situação comum e rotineira."
Essa alternativa está correta porque é justamente a repetição dos acontecimentos, explicitada pelas construções “sempre”, “todos os dias”, “assim”, que demonstra a rotina de solidão na vida do personagem. Na linguagem dos concursos, sempre busque as palavras-chave que sinalizam repetição e cotidianidade.

Por que as outras estão incorretas?

  • B) Exclusão social: O texto não mostra que existiu algum evento social que excluiu o personagem. A solidão é apresentada como condição interna, não como resultado de exclusão por parte dos outros.
  • C) Reflexões filosóficas: O parágrafo não traz questionamentos profundos ou filosóficos. Limita-se à descrição da cena diária.
  • D) Autocontrole: Em nenhum momento a narrativa sugere que, diante da solidão, a personagem exerce controle ou represa emoções. Apresenta apenas a rotina habitual.

Dica de prova: Repare sempre em construções repetidas; são grandes indícios de rotina ou costume, informação valiosa em questões de interpretação textual!

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