O capricho na escola não só se mostrava na caligrafia.
Havia dois tipos de alunos na hora de entregar o trabalho
para o professor: os que ofereciam o papel com a borda picotada
da espiral, arrancado do caderno com violência, e os que
destacavam os dentinhos minuciosamente com uma régua.
O primeiro grupo se revelava mais rebelde, contrariado,
desaforado, nem aí para as expectativas. O segundo se
caracterizava como organizado e metódico, querendo agradar.
Eu fazia parte do time do esmero e do cuidado. Sem
tesoura, eu umedecia a lateral com a saliva, guilhotinava com
calma e transformava a página cortada na inteireza de um ofício.
Não suportava devolver as provas com as serrilhas. Acreditava
que aqueles furinhos me tirariam nota. Não sei se influenciavam
o conceito, mas ajudavam na apresentação. Sequer para traficar
bilhetes secretamente, por baixo das classes, eu me permitia o
desleixo.
Todo CDF na infância vai exibir TOC na vida adulta. É uma
evolução natural das siglas.
Durante quinze anos, convivi com cadernos. Constituíam a
minha fonte de conhecimento. Não havia celular, tablet,
computador. Anotava-se tudo com lápis e caneta.
Fui criado na escassez. Lembro que economizávamos o
número de folhas. Porque o caderno de capa dura, espiral,
custava caro. Cada página equivalia a dinheiro vivo. Chegávamos
a contar as que faltavam e checar se resistiriam até o fim do ano.
Estudávamos no limite. Nem sempre podíamos emprestar uma
folhinha para os colegas. Seguíamos um planejamento, um
racionamento extremo. Um dia sim, outro não. Evitávamos que
a bíblia de uma disciplina emagrecesse velozmente, a ponto de
beirar a inanição. Então, passávamos a demanda adiante: “não
tenho como, pede hoje para fulano”.
No cumprimento da lista do material escolar, lutávamos
para escolhê-los, tanto pela ilustração da capa quanto pelo seu
volume. Persuadíamos os pais em longa negociação.
Existia o de 48 folhas, para cargas horárias menores, como
a de Religião; o de 96 folhas, o clássico absoluto, o mais
comprado; o de 120 folhas, destinado aos mais abastados; e o
inacessível de 200 folhas, de caráter universitário, um
trambolho, um luxo, que vinha com adesivos e divisórias
coloridas para várias matérias.
O peso da mochila representava status. Quanto mais tijolo,
maior o poder aquisitivo do estudante. Quanto mais leve, menos
cadernos ele tinha conseguido adquirir.
Não me arriscava a montar aviõezinhos ou barquinhos e
gastar o meu futuro. Bem que eu desejava acompanhar os
perdulários da turma e me dedicar à arte das dobraduras.
Ficava sem jeito quando a garota de quem eu gostava
inventava de deixar um rabisco no miolo de uma página: meu
coração acelerava, com a culpa de que ela consumiria o espaço
de muitas lições a ser copiadas do quadro. Como explicar o
desperdício em casa? Tratava-se de uma jura precoce, de uma
corajosa renúncia.
Restava-me diminuir a letra para que coubesse o meu
amor.
Autor: Fabrício Carpinejar - GZH (adaptado).
No contexto da relação entre letras e fonemas, a palavra
retirada do texto em que há mais letras do que fonemas é: