Ao usar a voz passiva sintética em “Por ano fazem-se no Bras...

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Q2751985 Português

Para responder a essas questões, assinale APENAS UMA ÚNICA alternativa correta e marque o número correspondente na Folha de Respostas.


Discutir o aborto por amor à vida

Leonardo Boff


AS QUESTÕES 1 A 15 ESTÃO RELACIONADAS AO TEXTO ABAIXO:


TEXTO


1_____Custa-me crer que haja pessoas que defendam o aborto pelo aborto. Ele implica eliminar uma vida

2 ou interferir num processo vital que culmina com a emergência da vida humana. Eu pessoalmente sou contra o

3 aborto, pois amo a vida em cada uma de suas fases e em todas as suas formas.

4 ______Mas esta afirmação não me torna cego para uma realidade macabra que não pode ser ignorada e

5 que desafia o bom-senso e os poderes públicos. Por ano fazem-se no Brasil cerca de 800 mil abortos

6 clandestinos. A cada dois dias morre uma mulher vítima de um aborto clandestino mal assistido.

7 _____Essa realidade deve ser enfrentada não com a polícia, mas com uma saúde pública responsável e

8 com senso de realismo. Considero farisaica a atitude daqueles que de forma intransigente defendem a vida

9 embrionária e não adotam a mesma atitude face aos milhares de crianças nascidas e lançadas na miséria, sem

10 comida e sem carinho, perambulando pelas ruas de nossas cidades. A vida deve ser amada em todas as suas

11 formas e idades e não apenas em seu primeiro alvorecer no seio da mãe. Cabe ao Estado e a toda a sociedade

12 criar as condições para que as mães não precisem abortar.

13 _____Eu mesmo assisti, nos degraus da catedral de Fortaleza, a uma mãe famélica, pedindo esmola e

14 amamentando o filho com o sangue de seu próprio seio. Era a figura do pelicano. Perplexo e tomado de

15 compaixão, levei-a até a casa do cardeal dom Aloísio Lorscheider, e ali lhe demos toda a assistência possível.

16 _____Mesmo assim, ocorrem abortos, sempre dolorosos e que afetam profundamente a psique da mãe.

17 Narro o que escreveu um eminente psicanalista da escola junguiana de São Paulo, Léon Bonaventure, na

18 introdução que fez a um livro desafiador e instigante e não livre de questionamento: Aborto: perda e

19 renovação: Um paradoxo na busca da identidade feminina (Paulus, 2006), de Eva Pattis, uma psicanalista

20 infantil de origem suíça, reconhecida em seu meio.

21 ____Conta Léon Bonaventure, com sutileza de um fino psicanalista para quem a espiritualidade

22 constitui uma fonte de integração e de cura de feridas da alma. Uma senhora procurou um sacerdote e lhe

23 confessou que havia outrora praticado um aborto. Depois de ouvir sua confissão, o sacerdote, com profundo

24 senso humano, lhe perguntou: “Que nome deu ao seu filho”? A mulher, perplexa, ficou calada por longo

25 tempo.

26 ____Então, disse o sacerdote: ”Vamos dar-lhe um nome. E se a senhora concordar vamos também

27 batizá-lo”. A senhora anuiu com a cabeça. E simbolicamene assim o fizeram. Depois o sacerdote falou do

28 mistério da vida humana. Disse: “Há vidas que vêm a esta Terra por 10, 50 e até 100 anos; outras jamais verão

29 a luz do sol. No calendário litúrgico da Igreja há a festa dos Santos Inocentes, no dia 28 de dezembro, aqueles

30 que Herodes mandou matar no momento em que a Divina Criança veio ao mundo. Que esse dia seja também o

31 dia de aniversário de seu filho”.

32 ____“Na tradição cristã” — continuou o sacerdote — “os filhos eram sempre vistos como um presente

33 de Deus e uma bênção para a vida. No passado nossos pais iam à Igreja oferecer seus filhos a Deus. Nunca é

34 tarde para você também oferecer seu filho a Deus”.

35 _____O sacerdote terminou sua fala com as seguintes palavras consoladoras: ”Como ser humano não

36 posso julgá-la. Mas se você pecou contra a vida, o Deus da vida pode reconciliá-la com a vida e com Ele. Vá

37 em paz e viva”.

388 ____O Papa Francisco sempre recomenda misericórdia, compreensão e ternura na relação dos

39 sacerdotes para com os fiéis. Esse sacerdote viveu avant la lettre esses valores profundamente humanos e que

40 pertencem à prática do Jesus histórico. Que eles possam inspirar a outros sacerdotes a terem a mesma

41 humanidade.


Site de origem: Discutir o aborto por amor à vida, por Leonardo Boff (Jornal do Brasil).

IN:http://agenciapatriciagalvao.org.br/direitos-sexuais-e-reprodutivos/discutir-o-aborto-por amor-vida-por-leonardo-boff/

Ao usar a voz passiva sintética em “Por ano fazem-se no Brasil cerca de 800 mil abortos clandestinos.” (L.5/6), o articulista:

Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Tema central: Interpretação de texto com foco na voz passiva sintética (pronominal), um tópico fundamental para cargos administrativos! Entender esse conceito fortalece sua leitura crítica e análise gramatical.

Regra da voz passiva sintética: Pela norma-padrão, a voz passiva sintética utiliza o verbo na 3ª pessoa acompanhado de “se” como partícula apassivadora. O sujeito aqui é paciente, ou seja, sofre a ação, e o agente (quem pratica a ação) não é citado.

Exemplo presente na questão: “Fazem-se no Brasil cerca de 800 mil abortos clandestinos.”

Nessa frase:

  • Verbo: “fazem” (3ª pessoa do plural, concordando com “abortos clandestinos”)
  • “se”: partícula apassivadora
  • Sujeito paciente: “cerca de 800 mil abortos clandestinos”

Justificativa da alternativa correta (A): Ao usar a voz passiva sintética, o autor fica dispensado de identificar o agente da ação (“quem faz os abortos”). Esta construção torna o enunciado impessoal, priorizando a ação e não quem a pratica. Segundo Bechara (Moderna Gramática Portuguesa), essa estrutura é frequente quando se quer enfatizar o fato, não o agente.

Análise das alternativas incorretas:

  • B) “Não teve como identificar...” – Incorreta. O autor pode identificar o agente, mas optou por não fazê-lo nesse contexto.
  • C) “Mostrou o fato como provável...” – Errada. Não é hipótese condicionada; é uma exposição objetiva. A partícula "se" aqui não tem sentido de condição.
  • D) “Recusou-se a apontar ‘abortos’ como agente...” – Em voz passiva, “abortos” é sujeito paciente, não o agente da ação.
  • E) “Deixa subentendido que, em casos de voz passiva, é preferível não indicar o agente...” – Percepção incorreta. Nem sempre é preferível omitir o agente; a escolha depende do contexto e do propósito comunicativo (veja Celso Cunha & Lindley Cintra).

DICA DE OURO: Quando encontrar frases com "Verbo + se" e sujeito posposto (após o verbo), observe se o verbo concorda com esse sujeito: geralmente é voz passiva sintética, dispensando a identificação do agente!

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