Considere o trecho a seguir: “Ele recebe os pacientes de bo...

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Q3194278 Português
Texto para responder à questão.


      Onde anda o analista de Bagé? Não sei. As notícias são desencontradas. Há quem diga que ele se aposentou, hoje vive nas suas terras perto de Bagé e se dedica a cuidar de bicho em vez de gente, só abrindo exceção para eventuais casos de angústia existencial ou regressão traumática de fundo psicossomático entre a peonada da estância.

     Lindaura, a recepcionista que além de receber também dava, estaria com ele, e teria concordado em dividir o afeto do analista com uma égua chamada Posuda, desde que eles concordassem em nunca serem vistos juntos em público.

    Outros dizem que o analista morreu, depois de tentar, inutilmente, convencer o marido de uma paciente que banhos regulares de jacuzzi a dois num motel faziam parte do tratamento.

    E há os que sustentam que o analista continua clinicando, na Europa, onde a sua terapia do joelhaço, conhecida como “Thérapie du genou aux boules, ou le methode gaúchô”, tem grande aceitação e ele só tem alguma dificuldade com a correta tradução de “Pos se apeie nos pelego e respire fundo no más, índio velho”, no começo de cada sessão.

       Não sei.

Bagé

     Certas cidades não conseguem se livrar da reputação injusta que, por alguma razão, possuem. Algumas das pessoas mais sensíveis e menos grossas que eu conheço vem de Bagé, assim como algumas das menos afetadas são de Pelotas. Mas não adianta. Estas histórias do psicanalista de Bagé são provavelmente apócrifas (como diria o próprio analista de Bagé, história apócrifa é mentira bem educada) mas, pensando bem, ele não poderia vir de outro lugar.

     Pues, diz que o divã no consultório do analista de Bagé é forrado com um pelego. Ele recebe os pacientes de bombacha e pé no chão.

      – Buenas. Vá entrando e se abanque, índio velho.

      – O senhor quer que eu deite logo no divã?

     – Bom, se o amigo quiser dançar uma marca, antes, esteja a gosto. Mas eu prefiro ver o vivente estendido e charlando que nem china da fronteira, pra não perder tempo nem dinheiro.

      – Certo, certo. Eu...

      – Aceita um mate?

      – Um quê? Ah, não. Obrigado.

      – Pos desembucha.

      – Antes, eu queria saber. O senhor é freudiano?

      – Sou e sustento. Mais ortodoxo que reclame de xarope.

      – Certo. Bem. Acho que o meu problema é com a minha mãe.

      – Outro...

      – Outro?

      – Complexo de Édipo. Dá mais que pereba em moleque.

      – E o senhor acha...

      – Eu acho uma pôca vergonha.

      – Mas...

      – Vai te metê na zona e deixa a velha em paz, tchê!


(VERÍSSIMO, Luís Fernando. O analista de Bagé. Rio de Janeiro: L&PM, 1982. Fragmento.)
Considere o trecho a seguir:

“Ele recebe os pacientes de bombacha e pé no chão.
– Buenas. Vá entrando e se abanque, índio velho.” (7º§ e 8º§)

O autor utiliza expressões coloquiais e elementos regionais para construir a interação do analista de Bagé com seus pacientes. A análise da estrutura sintática e do emprego das palavras evidencia o tom descontraído e regionalista do texto. Sobre o emprego das classes de palavras e a sintaxe no trecho, analise as afirmativas a seguir.

I. O termo “bombacha” é um substantivo, usado para designar uma peça de vestuário típica da região do personagem.
II. Na expressão “vá entrando e se abanque”, tem-se a combinação de um verbo no gerúndio e outro no imperativo, embora a expressão como um todo tenha valor imperativo.
III. O termo “índio velho” é um vocativo, utilizado para se dirigir ao interlocutor de maneira informal e regionalista.

Está correto o que se afirma em
Alternativas

Gabarito comentado

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Tema central: A questão envolve análise morfossintática, vocabulário e pragmática, exigindo do candidato domínio sobre classes gramaticais (substantivo, verbo), modos verbais e função sintática do vocativo, além do reconhecimento da variedade linguística regional no texto.

A justificativa da alternativa correta (A):

I) “bombacha”Substantivo. Conforme Bechara (2009), substantivo “é a palavra que nomeia seres ou coisas”. No texto, “bombacha” designa a típica calça gaúcha, cumprindo integralmente essa função.

II) “vá entrando e se abanque” — Essa sequência mescla verbo no imperativo (“vá” e “se abanque”) e uma forma no gerúndio (“entrando”). Segundo Cunha & Cintra, o imperativo exprime ordem/conselho, e, ao lado do gerúndio (“entrando”), há foco na ação contínua, mas todo o trecho possui valor imperativo. Esse uso reforça a hospitalidade e a espontaneidade do personagem.

III) “índio velho”Vocativo. Pela definição clássica, vocativo é o termo usado para chamar o interlocutor, destacado por vírgulas. “Índio velho” caracteriza, em tom afetivo e descontraído, a interlocução informal regional — exatamente como ocorre nesse contexto.

A análise das alternativas incorretas:

- B (apenas I) e C (I e II apenas): Estão incorretas porque desprezam o emprego correto do vocativo, essencial para interpretar o contexto da fala e a informalidade expressa.

- D (II e III apenas): Exclui a correta definição de “bombacha”, que é claramente um substantivo, conforme fundamentam os principais gramáticos e dicionários.

Estratégia de resolução: Leia cuidadosamente a função de cada palavra ou expressão, relacione à classe ou função sintática (consultando exemplos consagrados em gramáticas de referência quando surgir dúvida). Preste atenção em como a linguagem regional pode interferir na estrutura sintática, sem, contudo, alterar as classes gramaticais ou funções essenciais.

Resumo: Todas as afirmativas estão corretas (alternativa A), pois analisam com precisão os aspectos linguísticos presentes no texto. Entender o vocativo, o uso dos modos verbais e a natureza dos substantivos é essencial não só para esta questão, mas para toda a prova de Língua Portuguesa.

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Comentários

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Todos estão corretos.

I. Bombacha é uma peça de roupa (calça) típica do sul. Na frase, atua como substantivo.

II. "Vá entrando e se abanque" traz a ideia de um convite/pedido, ou seja, traz uma expressão imperativa;

III. Índio velho é como o autor chama o outro personagem, de modo que atua como um vocativo deslocado.

não sabia nem que bombacha existia... vivendo e aprendendo.

eu considerei mais o emprego das classes de palavras e a sintaxe por isso acertei

Usei só da intuição para adivinhar que bombacha é uma roupa.

Análise das Afirmativas

  • I. O termo “bombacha” é um substantivo, usado para designar uma peça de vestuário típica da região do personagem.

    • Correto. Gramaticalmente, "bombacha" classifica-se como substantivo comum, e semanticamente refere-se à calça larga típica da vestimenta gaúcha.

  • II. Na expressão “vá entrando e se abanque”, tem-se a combinação de um verbo no gerúndio e outro no imperativo, embora a expressão como um todo tenha valor imperativo.

    • Correto. O verbo "entrando" está no gerúndio, e "abanque" (do verbo abancar) está flexionado no imperativo. A estrutura "ir + gerúndio" é um recurso comum na língua portuguesa para indicar uma ação que se inicia ou se desenvolve, e, aqui, ela funciona em conjunto com o imperativo para convidar o paciente a se acomodar, reforçando o tom do convite.

  • III. O termo “índio velho” é um vocativo, utilizado para se dirigir ao interlocutor de maneira informal e regionalista.

    • Correto. Sintaticamente, o termo funciona como um vocativo (termo que serve para invocar, chamar ou interpelar o interlocutor). O uso é típico do registro coloquial e regional, comum na fala da personagem citada.

Conclusão

Diante da análise técnica dos itens, todas as afirmativas estão corretas.

Portanto, a alternativa correta é a A: I, II e III.

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