Considere a passagem “E é por isso que vou parar de escrever...
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Ano: 2026
Banca:
FADENOR
Órgão:
Prefeitura de Nova Porteirinha - MG
Prova:
FADENOR - 2026 - Prefeitura de Nova Porteirinha - MG - Agente Comunitário de Saúde |
Q4361970
Português
Texto associado
INSTRUÇÃO: Leia, com atenção, o texto 01 e, a seguir, responda à questão que a ele se
refere.
Texto 01
Despedida
Essa crônica é uma despedida. Resolvi, por decisão própria, parar de escrever em Cotidiano. Devo ter perdido o
juízo. Minha decisão contraria um dos dois maiores sonhos de cada escritor. Primeiro, o sonho de ser um best-seller.
Encontrar algum livro seu nas prateleiras da livraria Laselva, nos aeroportos. Confesso: sou vítima dessa vaidade. Mas
não aprendo a lição. Nos aeroportos, vou sempre visitar a Laselva na esperança de lá encontrar um dos meus livros. Saio
sempre desapontado. O outro sonho dos escritores é ter seus textos publicados num jornal importante: ser lido por milhares
de leitores. O que significa reconhecimento duplo: do jornal que os publica e dos leitores. Isso faz muito bem para o ego.
Todo escritor tem uma pitada de narcisismo.
Fernando Pessoa tem um poema que diz assim: “Tenho dó das estrelas luzindo há tanto tempo, tenho dó delas...”
E ele se pergunta se “não haverá um cansaço das coisas, de todas as coisas...” Respondo: Sim. Há um cansaço. A velhice
é o tempo do cansaço de todas as coisas. Estou velho. Estou cansado. Já escrevi muito. Mas, agora, meus 78 anos estão
pesando. E como acontece com as estrelas, há sempre a obrigação de brilhar. A obrigação: é isso o que pesa. Quereria
ser capaz de viver um poeminha do Fernando Pessoa: “Ah, a frescura na face de não cumprir um dever... Que refúgio o
não se poder ter confiança em nós...” Perco o sono atormentado por deveres, pensando no que tenho de escrever. Sinto
– pode ser que não seja assim, mas é assim que eu sinto – que já disse tudo. Não tenho novidades a escrever. Mas tenho
a obrigação de escrever quando minha vontade é não escrever. Não é qualquer coisa que se pode publicar num jornal. O
próprio nome está dizendo: “jornal”, do latim “diurnalis”; de “dies”, dia, diurno; o que acontece no dia; diário. O tempo dos
jornais é o hoje, as presenças. Mas minha alma é movida pelas ausências: nos jornais, não há lugar para ressurreições.
Acho que aconteceu comigo coisa parecida com o que aconteceu com a Cecília Meireles. Escrevendo sobre ela,
Drummond falou o seguinte: “Não me parecia criatura inquestionavelmente real; por mais que aferisse os traços positivos
de sua presença entre nós, marcada por gestos de cortesia e sociabilidade, restava-me sempre a impressão de que ela
não estava onde nós a víamos... Por onde erraria a verdadeira Cecília, que, respondendo à indagação de um curioso,
admitiu ser seu principal defeito ‘uma certa ausência do mundo’?” Deve ser alguma doença que ataca preferencialmente
os velhos e os poetas. A Cecília descrevia o tempo da sua avó como “uma ausência que se demorava”. E Rilke se
perguntava: “Quem assim nos fascinou para que tivéssemos um olhar de despedida em tudo o que fazemos?” O sintoma
dessa doença é aquilo que a Cecília disse: uma certa ausência do mundo.
O místico Ângelus Silésius já havia notado que temos dois olhos, cada um deles vendo mundos diferentes: “Temos
dois olhos. Com um, vemos as coisas do tempo, efêmeras, que desaparecem. Com o outro, vemos as coisas da alma,
eternas, que permanecem”. Jornais são seres do tempo. Notícias: coisas do dia, que amanhã estarão mortas. E é por isso
que vou parar de escrever: porque estou velho, porque estou cansado, porque minha alma anda pelos caminhos do Robert
Frost, porque quero me livrar dos malditos deveres que me dão ordens desde que me conheço por gente...
Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/ff0111201105.htm. Acesso em: 21 jul. 2026.
Considere a passagem “E é por isso que vou parar de escrever: porque estou velho, porque estou cansado, porque minha
alma anda pelos caminhos do Robert Frost, porque quero me livrar dos malditos deveres que me dão ordens desde que
me conheço por gente...”
Analise as afirmativas a seguir, tendo em vista a estrutura linguística de composição dessa passagem.
I- O pronome “me”, no trecho “que me dão ordens”, foi usado em posição proclítica obrigatória.
II- O pronome “me”, no trecho “que me dão ordens”, funciona como objeto indireto do verbo “dão”.
III- A locução conjuntiva “desde que” foi usada para expressar ideia de condição.
IV- A conjunção “porque” constrói o recurso denominado paralelismo sintático.
V- O pronome “me”, nos dois usos, encontra-se em posição enclítica obrigatória.
Estão CORRETAS apenas as afirmativas
Analise as afirmativas a seguir, tendo em vista a estrutura linguística de composição dessa passagem.
I- O pronome “me”, no trecho “que me dão ordens”, foi usado em posição proclítica obrigatória.
II- O pronome “me”, no trecho “que me dão ordens”, funciona como objeto indireto do verbo “dão”.
III- A locução conjuntiva “desde que” foi usada para expressar ideia de condição.
IV- A conjunção “porque” constrói o recurso denominado paralelismo sintático.
V- O pronome “me”, nos dois usos, encontra-se em posição enclítica obrigatória.
Estão CORRETAS apenas as afirmativas