O texto seguinte servirá de base para responder à questão.
O preconceito cotidiano e disfarçado
No mês em que se fala do orgulho de pertencer à
comunidade LGBTQIA+, também é preciso discutir as
diferentes formas de discriminação
"O que me preocupa nos seus exames é a possibilidade
de HIV."
Eu não lembro exatamente as palavras do médico,
tamanho o estresse que aquela consulta me causou. Eu
estava vivendo um momento muito delicado. Poucas
semanas antes, havia tido a primeira experiência com
um homem. Dentro de mim, uma confusão de emoções,
com muita culpa. Ninguém sabia daquilo, tudo ainda era
solitário.
Tinham me indicado o médico como capaz de desvendar
diagnósticos improváveis. Não o havia procurado por
algo ligado à minha sexualidade, mas para entender o
motivo de manchas vermelhas na pele com as quais eu
convivia havia anos, e que nenhum outro médico soube
explicar.
Na primeira consulta, o senhor de cabelos brancos havia
feito perguntas sobre meu histórico e rotina. "E, por
acaso, você está vivendo um momento de estresse?"
Hipocondríaco como sou, não consegui esconder e
acabei contando sobre a "novidade". Foi como uma
primeira saída do armário, ainda que protegida pelo sigilo
profissional. A reação dele foi fria, mas não estranhei,
mesmo que por dentro meu coração disparasse.
Quando me sentei de novo naquela cadeira, ele ficou
olhando para o computador por um bom tempo. Meu
chão desapareceu quando o silêncio foi quebrado pela
afirmação de que as manchas não o preocupavam, mas
sim "a possibilidade de HIV". Tentei controlar um ataque
de pânico enquanto ele me explicava a sua suspeita.
Pedi para fazer um exame no mesmo dia, mas ele disse
que eu teria que aguardar a janela imunológica de 90
dias. Ou seja, três meses de angústia, sem poder
compartilhar com ninguém.
Aquele gesto frio, em que a minha sexualidade pareceu
orientar a suspeita, reforçou estereótipos do "ser gay"
que me acompanhavam por muitos anos. Se em uma
única relação com um homem eu já teria adoecido, então
aquilo era mesmo errado e minha atitude havia me
condenado. Nunca retornei àquele consultório e fiz
testes de farmácia sozinho, toda semana, até o fim dos
90 dias. Todos negativos.
Seis anos depois, eu tenho consciência do episódio
covarde de preconceito que vivi, mas naquele momento
eu nem consegui enxergá-lo. Quando conversei com
amigos médicos sobre o episódio, todos me disseram
que aqueles resultados não acendiam alarme para o
diagnóstico. No mês em que se fala do orgulho de
pertencer à comunidade LGBTQIA+, também é preciso
discutir as diferentes formas de discriminação. Existem
as mais barulhentas, com gritos, projetos de lei ou
violência física. Mas também há o preconceito cotidiano
e disfarçado, em que o intolerante se aproveita da
vulnerabilidade do outro para agredir.
Hoje eu também sei que um diagnóstico de HIV está
longe de ser uma sentença de morte: o tratamento
permite uma vida comum e interrompe a transmissão do
vírus. O estigma e a desinformação, contudo,
permanecem.
Compartilho essa experiência não como denúncia, mas
por saber que muita gente está, neste momento, sentada
em uma cadeira parecida, ouvindo de quem deveria
cuidar uma frase que ecoa o pior que já pensou sobre si.
O orgulho é, além de celebração, a tentativa de mostrar
a essas pessoas que elas não estão sozinhas na sala,
como eu e muitos outros já estiveram.
Texto de O Globo: "O preconceito cotidiano e disfarçado". Publicado
em 10 jun. 2026.
Ao compartilhar a experiência de preconceito vivida em
uma consulta médica, o autor afirma que o orgulho
LGBTQIA+ também consiste em mostrar às pessoas que
enfrentam situações semelhantes que elas "não estão
sozinhas na sala". À luz das concepções pedagógicas de
Paulo Freire, essa reflexão aproxima-se da ideia de que
a educação deve:
Incorreta. Gabarito oficial da banca:
Treine mais com um simulado focado no seu concurso. Criar simulado
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