(2º§) Menino, magricelo e desdentado,
reclamava da encurvada chatice em volta.
Ninguém o ouvia, por estarem ocupados com a
mesmice de sempre: juros bancários
exorbitantes, dívidas vergonhosas,
empréstimos. Lengalengas de barbas espessas
– geração em geração. Velhacas!
(3º§) Apareceu um sujeitinho de meia idade,
simpático, a oferecer uma viagem e tanto: ao
reino unido do Sonho. Pedia segredo absoluto,
bagagem só de mão, muita delicadeza. Os
daqui seriam avisados a não se preocuparem
com nada, esperança trotava manso. De trem o
percurso, um alerta de vez em quando, céus e
céus. Alegria. Marota a moçoila – mãos dadas
com o sujeitinho ainda de meia idade.
(4º§) Largada a partida de manhã, névoa negra
a esconder o trem das delícias – ao todo eram
seis os viajantes. Paisagens, alaranjadas rubras
rosáceas, desenhando vales e montanhas
comoventes, natureza íntima.
Menino, confortavelzinho, se perguntava o
porquê da escolha, mal acreditando no que
escolhera. Atribui às repetidas orações, rezas
repletas de fé, a todos os santos. Todinhos. Não
queria a ralha descontente de alguém.
(5º§) Com tamanhas interrogações adormeceu
o menino, sonhando com o raro voo dos anjos
rumo ao irreverente lago dos santos. Assustouse lago? Irreverente? Anjos? Novas e milhares
de incertezas povoaram-lhe a cabeçola, crescia
e crescia de tamanho, ocupando, gratuito, o
assento inteiro da locomotiva. Menino, (lhe eram
oferecidas revistas aos montes, para que nada
escapasse aos tediosos olhos.)
(6º§) No caudaloso lago, surge uma neguinha,
ares de donzela, a lançar o seminu corpo num
canto enfeitiçado pelos santos. Quem diria, “o
pecado não mora ao lado”, nem debaixo da
mesa, tampouco na lousa mágica. Menino –
exausto com inúmeras magias, oxalá um
tediozinho, saudades.
(7º§) E o senhor de meia idade? Sumira?
Sonhara com as revistas ou não?
(8º§) Canto do lago guardava um mistério e um
tesouro – cisnes brincalhões a trancafiar as
esguias neguinhas de caracóis trançados.
Bonitíssimos. Menino louco de vontade em
possuí-las, embora não mais o peito franzino,
por um viés homem. Chaves só com os santos,
infinitos em número, com qual deles? Realidade
maldita? Mais vale um feitiço na alma do que
dois dedos de prosa. Perderam-se os anéis.
(9º§) Menino jurou ao primeiro santo da
pecaminosa fila, um majestoso anel de jade,
extraído da terra. Imaginava e acontecia.
Modelando com farta paixão a cobiça. Nos
sonhos as ideias ganham, ternas e ferrenhas.
(10º§) Apesar das profundas olheiras, menino
insistia na viagem lá atrás, desconhecendo,
talvez, a estrada de volta. Ou não. O primeiro
santo acenou um suplício: numa linguagem
oblíqua, requisitava simples perdão. Foi-se uma
estória...
(AMBRÓSIO, Ana Lia Vianna. Escritora. Jornal A Tarde Salvador. Bahia) – (Adaptado)
Marque a ideia transmitida pela expressão
que inicia a frase:
“Apesar das profundas olheiras, menino
insistia na viagem”.
Incorreta. Gabarito oficial da banca:
Treine mais com um simulado focado no seu concurso. Criar simulado
teste
Parabéns! Você acertou!
Está mandando bem! Treine mais em um simulado completo. Criar simulado