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Q3510956 Português

O texto a seguir é referência para a questão.


Destruição criativa 2.0


Hélio Schwartsman


    Não compro muito a ideia de que a inteligência artificial (IA) vai destruir o mundo. Digo-o não porque tenha conhecimento privilegiado do porvir – em tese, é perfeitamente possível que as IAs sejam nossa ruína –, mas porque sei que, diante do novo, nossa tendência é sempre a de exagerar os perigos. Quem quiser uma confirmação empírica disso pode pegar nas coleções de jornais os artigos catastrofistas dos anos 1970 e 1980 que comentavam o advento dos bebês de proveta, que hoje não despertam mais polêmica.

    Daí não decorre que devamos tratar as IAs com ligeireza. É uma mudança tecnológica de enorme potencial e que terá impactos, em especial sobre o emprego. Já vimos antes a chamada destruição criadora em ação. Mas, ao que tudo indica, desta vez, a aniquilação de postos de trabalho se dará em escala maior e atingirá também funções criativas ocupadas pelas elites intelectuais, que foram poupadas em viragens tecnológicas anteriores.

    O “big picture”, porém, talvez não seja dos piores. Tanto Marx como Keynes anteviram um mundo em que as mudanças tecnológicas avançariam tanto que resolveriam o problema econômico da humanidade, isto é, as máquinas produziriam sozinhas e de graça tudo o que necessitamos, de comida a bens industrializados, passando por vários tipos de serviço. A dificuldade é que, como isso não vai acontecer da noite para o dia, devemos esperar uma transição complicada. E complicada não apenas em termos econômicos e sociais mas também psicológicos.

    Quando conhecemos uma pessoa, uma das primeiras perguntas que lhe dirigimos é “o que você faz?”. Vivemos em sociedades em que os indivíduos se definem em larga medida por sua profissão. Tirar isso deles pode provocar um vazio existencial. É até possível que, com o problema econômico resolvido, passemos a extrair transcendência de outras atividades. Imagine um mundo de artistas. Mas isso vai exigir uma revolução anímica.



Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/2023/09/destruicao-criativa-20.shtml.


anímica: que é próprio da alma

De acordo com o texto, a ideia de destruição do mundo pela inteligência artificial é:
Alternativas

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Gabarito comentado – Interpretação de Texto

Tema central: Interpretação de texto, especificamente sobre identificar a posição do autor diante da ideia de destruição do mundo pela inteligência artificial (IA).

Conceito fundamental: Como lembra Evanildo Bechara, interpretar um texto é decifrar o sentido geral, reconhecendo o ponto de vista do autor e suas justificativas, seja de forma explícita (quando ele diz claramente seu posicionamento), seja implícita (por meio de exemplos ou alusões históricas).

Justificativa da alternativa correta:

E) relativizada pelo autor, pois a tendência a exageros é uma disposição natural da humanidade.

O autor deixa claro que não acredita cegamente que a IA vá destruir o mundo, e justifica: “nossa tendência é sempre a de exagerar os perigos”. Ele exemplifica essa disposição com os “artigos catastrofistas dos anos 1970 e 1980” sobre os bebês de proveta, destacando que o temor foi desproporcional ao real impacto. Portanto, ele relativiza a ideia de destruição catastrófica provocada pela IA.

Análise das alternativas incorretas:

A) Incorreta: O autor não classifica a visão da IA como “catastrófica”, mas sim ponderada e reflexiva. Ele aborda o risco de vazio existencial como uma consequência social possível, não como o argumento central da destruição mundial.

B) Incorreta: Ele não subestima os riscos. Ao citar Marx e Keynes, apenas amplia a discussão, sem desvalorizar as transformações iminentes.

C) Incorreta: Não há prenúncio de destruição total dos empregos; sim, há menção ao impacto em funções criativas, mas sempre com base em proporções, não em totalidade.

D) Incorreta: O autor afirma que as transformações anteriores não se assemelham exatamente ao presente. Houve outras “destruições criativas”, mas a posição não é de previsibilidade cega.

Estratégia para a prova: Sempre busque as palavras e conexões-chave do texto (“nossa tendência é sempre a de exagerar os perigos”) e desconfie de alternativas que supervalorizem ou deturpem o argumento central.

Conclusão: Alternativa E é a correta, pois corresponde à visão crítica e relativizadora do autor sobre o tema, conforme os princípios da interpretação textual e da coerência argumentativa.

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''Não compro muito a ideia de que a inteligência artificial (IA) vai destruir o mundo.''

''...diante do novo, nossa tendência é sempre a de exagerar os perigos''

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