Na frase do 8o parágrafo “O cirurgião do regimento empreg...
Leia o texto para responder à questão.
Repetidas vezes Barreda, devorado pela febre, pediu água. A mulher aproximava-se de momento a momento, receando ser chegado o transe supremo; depois ia de novo atirar-se a um canto, onde ficava como desfalecida.
Vendo Manuel o desamparo em que estava o enfermo, pelo desespero da mulher e medo que inspirava a outros o contágio da moléstia, não teve ânimo de retirar-se naquele instante. Custava, porém, à sua natureza enérgica assistir impassível ao sofrimento de uma criatura, sem tentar um esforço qualquer para salvá-la.
Veio-lhe de repente à lembrança um caso que ouvira a seu pai. Saiu fora, montou a cavalo, e pouco depois voltou com um novilho, que laçara e prendeu ao lado da casa, na estaca do curral ou mangueira.
O enfermo passara do torpor à excessiva inquietação.
— Tire a roupa de seu marido, que eu já volto. Vou buscar um remédio que há de fazer lhe bem.
Abatido o novilho com uma pancada na nuca, em um instante Manuel esfolou-o ainda meio vivo; e correndo à casa, envolveu o corpo do enfermo na pele tépida e sangrenta.
Feito o quê, esperou pelo resultado, assando na brasa um pedaço da carne do novilho para matar a fome.
Seu pai muitas vezes lhe contara que, na campanha da Cisplatina, o capitão de uma companhia caíra doente com uma febre de cavalo. O cirurgião do regimento empregara em vão todos os meios para fazê-lo suar. Pela manhã quando se carneava uma rês, dissera ele a rir, vendo arregaçar o couro: “Que bom lençol! Se me tivesse lembrado, embrulharia em um desses o capitão. Não há febre que resista a semelhante cáustico”.
O que o cirurgião não pudera fazer, acabava o gaúcho de pôr em prática.
Ou fosse pela energia do remédio, ou pelo vigor da organização, operou-se na enfermidade uma crise salutar, manifestando-se durante a noite reação franca, anunciada por abundantes suores; de madrugada remitiu a febre, e Barreda caiu num sono profundo.
Manuel passou a noite, como o dia, fazendo o ofício de enfermeiro. Apenas deixava o aposento do doente para ir ver seus amigos, a baia e os outros animais a quem havia acomodado no potreiro, tendo o cuidado de fazer com um molho de trevo seco uma cama bem macia para o poldrinho*.
(José de Alencar. O Gaúcho. Em: https://domainpublic.wordpress.com/)
* potro
Gabarito comentado
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Gabarito: B
Fundamento decisivo: "O cirurgião do regimento empregara em vão todos os meios para fazê-lo suar." fixa o critério da questão: identificar, no contexto, o termo que expressa circunstância de modo. Aqui, "em vão" modifica "empregara" com sentido de "inutilmente"; por equivalência funcional e semântica, a alternativa correta é a que traz "impassível", termo que, no trecho citado, caracteriza o modo/estado em que se assiste ao sofrimento.
- Verifique se o termo destacado modifica o verbo, indicando a maneira da ação, ou se apenas qualifica um substantivo.
- Não resolva pela classe da palavra isolada: a questão pode cobrar o valor que ela assume no contexto.
- Nem todo advérbio exprime modo, e nem só advérbio pode produzir esse valor no enunciado.
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Comentários
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DICA: Perguntou “modo”: procure algo que responda COMO?
A errada - supremo - qualidade (adjetivo)
B correta - impassível - como ele assistia? impassível - então é modo.
C errada - ainda - tempo/intensidade
D errada - semelhante - qualidade/comparação
E errada - salutar - qualidade (adjetivo)
Análise:
- “em vão” → modo (como empregou? em vão)
Alternativas:
A) “supremo” → qualidade (adjetivo) ❌
B) “impassível” → modo (como assistir? impassível) ✔️
C) “ainda” → valor temporal/intensidade ❌
D) “semelhante” → qualidade/comparação ❌
E) “salutar” → qualidade ❌
Resposta correta: B
Modo = jeito
de que modo/maneira ele assistia? “impassível”
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