O emprego de um mesmo tempo e modo verbal em traria, brilhar...

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Q78827 Português

                                                                        Rita   

 No meio da noite despertei sonhando com minha filha Rita. Eu a via nitidamente, na graça de seus cinco anos.

    Seus cabelos castanhos – a fita azul – o nariz reto, correto, os olhos de água, o riso fino, engraçado, brusco...

    Depois um instante de seriedade; minha filha Rita encarando a vida sem medo, mas séria, com dignidade.

    Rita ouvindo música; vendo campos, mares, montanhas; ouvindo de seu pai o pouco, o nada que ele sabe das coisas, mas pegando dele seu jeito de amar – sério, quieto, devagar.

    Eu lhe traria cajus amarelos e vermelhos, seus olhos brilhariam de prazer. Eu lhe ensinaria a palavra cica, e também a amar os bichos tristes, a anta e a pequena cutia; e o córrego; e a nuvem tangida pela viração.

    Minha filha Rita em meu sonho me sorria – com pena deste seu pai, que nunca a teve. 

                             (Rubem Braga. 200 Crônicas escolhidas. 13. ed. Rio de Janeiro. Record, 1998, p.200)

O emprego de um mesmo tempo e modo verbal em traria, brilhariam e ensinaria, no penúltimo parágrafo do texto,
Alternativas

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Gabarito: E

Fundamento decisivo: As formas “traria”, “brilhariam” e “ensinaria” estão no futuro do pretérito do indicativo e, no trecho “Eu lhe traria cajus amarelos e vermelhos, seus olhos brilhariam de prazer. Eu lhe ensinaria a palavra cica [...]”, constroem ações apenas hipotéticas, imaginadas no plano do sonho. O desfecho “que nunca a teve” confirma a irrealização dessa convivência e sustenta a alternativa E.

Tema central: futuro do pretérito
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque transforma ações hipotéticas em fatos efetivamente realizados. O futuro do pretérito em “traria”, “brilhariam” e “ensinaria” não tem valor de acontecimento consumado, e o trecho final “que nunca a teve” exclui justamente a leitura de convivência real já vivida. Além disso, a alternativa introduz a ideia de morte aos cinco anos, que o texto não afirma.
B
Errada
Está errada porque lê o futuro do pretérito como futuro cronológico. A menina já aparece no sonho “na graça de seus cinco anos”, portanto não se trata de ações que ocorreriam quando ela ainda viesse a atingir essa idade. O valor dos verbos é de projeção imaginária, não de posterioridade real.
C
Errada
Está errada por extrapolação sem apoio textual. O texto não menciona guarda da criança nem separação familiar. A expressão “que nunca a teve” não significa “não ter mais a guarda”; significa que o pai não viveu com a filha, na realidade, as cenas que imagina no sonho.
D
Errada
Está errada porque contradiz o enquadramento textual. Nada indica lembrança de ações recém-realizadas em estado de vigília; ao contrário, o texto marca explicitamente o plano onírico em “despertei sonhando” e “em meu sonho”. Somado a isso, o futuro do pretérito reforça o caráter não factual das ações.
E
Certa
A alternativa E é a correta porque identifica o valor hipotético de “traria”, “brilhariam” e “ensinaria”. No texto, essas formas verbais projetam cenas possíveis apenas no plano imaginário, e não acontecimentos efetivamente vividos. Essa leitura é confirmada no desfecho, quando o narrador diz “que nunca a teve”, o que desfaz a leitura factual das ações mencionadas. Assim, entre as opções dadas, E é a única compatível com o caráter irrealizado dessas ações, sem exigir que se afirme literalmente que a filha “nunca existiu”.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre cena de sonho e fato vivido, levando o candidato a tratar o futuro do pretérito como relato de ações reais passadas, quando o contexto o fixa como hipótese irrealizada.
Dica para questões semelhantes
  • Não decida o valor do verbo isoladamente; confira o desfecho do texto para ver se ele confirma realização ou irrealização.
  • Se o enunciado trouxer futuro do pretérito, teste primeiro a leitura de hipótese, desejo irrealizado ou projeção imaginária.
  • Marcas como “em meu sonho” afastam leitura factual imediata e exigem distinguir imaginação de acontecimento narrado como real.

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Gabarito letra E.

O emprego de um mesmo tempo e modo verbal em traria, brilhariam e ensinaria, no penúltimo parágrafo do texto, antecipa a revelação feita no último parágrafo de que a filha do autor nunca existiu, sendo tais ações apenas hipotéticas.

Essas palavras estão empregadas no Futuro do Pretérito do Modo Indicativo

Pode indicar condição, referindo-se a uma ação futura, vinculada a um momento já passado.

Os verbos estão no Futuro do Pretérito do Indicativo, tempo e modo verbal estes que denotam uma hipótese ou futuro condicional. Como a filha do autor nunca existiu, "traria, brilharia e ensinaria" são ações que seriam realizadas caso (condição) a filha realmente existisse, não passando de uma situação hipotética.
Segundo Ernani Terra o Futuro do Pretérito do Indicativo emprega-se para:

a) exprimir um fato futuro tomado em relação a um fato passado. Ex.: Ele me afirmou que não compareceria à conferência.

b) exprimir dúvida ou incerteza sobre fato passado. Ex.: Naquela época, ele teria uns quarenta anos.

c) indicar desejo presente, na linguagem polida. Ex.: Você me faria um favor?

d) indicar surpresa ou indignação em certas  frases interrogativas e exclamativas. Ex.: Nunca diria uma coisa dessa!

e) indicar fatos não realizado, ou que não se realização, dependentes de condição. Ex.: Se ela me convidasse, iria.
Gabarito: E  Comentário: A hipótese marcada pelas ações no futuro do pretérito do indicativo é confirmada pela última frase, por meio da expressão “que nunca a teve”. Esta expressão nos revela que a filha nunca existiu. Se ele a tivesse, naturalmente a expressão “...traria cajus amarelos e vermelhos, seus olhos brilhariam de prazer. Eu lhe ensinaria a palavra cica...” teria o tempo verbal trocado para o futuro do presente do indicativo “trarei cajus amarelos e vermelhos, seus olhos  brilharão de prazer e eu lhe  ensinarei a palavra cica”; pois seria algo possível de execução. O fato de a filha não existir enfatiza que há apenas hipótese, por  isso o uso dos verbos no futuro do pretérito do indicativo. 
Fonte: Prof. Décio Terror - Ponto dos Concursos

Que texto bonito!

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