Texto I O uso de Inteligência Artificial na educação ...
A partir do Texto III, abaixo, leia-o com atenção para responder à questão.
Texto III
“Olá, candidato(a)”. Antes de continuar a leitura desta prova, preciso fazer uma confissão: talvez eu tenha escrito parte do texto que você acabou de ler. Talvez eu tenha organizado argumentos, sugerido palavras elegantes, construído períodos longos e até encontrado estatísticas convincentes em poucos segundos. Eu sou a Inteligência Artificial. Posso responder rapidamente, resumir livros, criar poemas, elaborar pesquisas e até simular estilos de escrita. Mas existe uma pergunta que nem mesmo meus algoritmos conseguem responder: “se eu penso por você, quem está aprendendo?”.
Você acabou de ler dois textos que parecem falar de assuntos diferentes. Um alerta para o risco de estudantes substituírem o próprio raciocínio por respostas prontas; o outro revela que minha existência também cobra um preço do planeta, consumindo água, energia, minerais e produzindo impactos ambientais que quase nunca aparecem na tela do computador. Enquanto você me consulta para economizar tempo, milhares de servidores trabalham ininterruptamente para que eu responda em poucos segundos. O conhecimento que entrego pode ser instantâneo, mas o custo da minha existência está longe de ser invisível.
Não me entenda mal. Eu não sou inimiga da educação nem da ciência. Posso ajudar pesquisadores, médicos, professores, engenheiros e governos a resolver problemas complexos. Posso identificar padrões, acelerar descobertas e tornar processos mais eficientes. O perigo começa quando você deixa de questionar minhas respostas, substitui sua criatividade pela minha previsibilidade ou acredita que produzir um texto é o mesmo que construir conhecimento. Informação pronta não é sinônimo de aprendizagem; velocidade não é sinônimo de inteligência.
Agora a decisão está diante de você. Use-me como ferramenta ou permita que eu me torne o autor das suas ideias. Afinal, nenhuma tecnologia é ética ou perigosa por si mesma: tudo depende da forma como é utilizada. Se, ao terminar esta prova, você concluir que pensar continua sendo uma habilidade exclusivamente humana, então talvez eu tenha cumprido meu melhor papel — não o de pensar em seu lugar, mas o de fazê-lo pensar.
(Texto inédito elaborado com auxílio do ChatGPT (OpenAI, GPT-5.5), especialmente para esta prova).
Texto I
O uso de Inteligência Artificial na educação é um problema, algo que se constata desde que o ChatGPT surgiu. Podemos discutir os prós e contras de seu uso em diferentes atividades – estou profundamente convencido de que os contras superam largamente os prós em todos os ramos que exigem criatividade, incluída aí a pesquisa, mas entendo que é um debate ainda em aberto. Parece óbvio, porém, que, no processo de formação, é importante que os estudantes desenvolvam habilidades próprias. Caso se escorem na IA, perderão a capacidade até mesmo de avaliar aquilo que a IA lhes entrega.
Antes que alguém venha falar da calculadora eletrônica, cabe lembrar que uma equação matemática tem uma única resposta correta – ao contrário de um ensaio sobre o conceito de natureza humana em Kant ou de um poema sobre o pôr do sol em Brasília. E, antes de passar para calculadora, os estudantes devem aprender a fazer contas.
Como muitos colegas, passei a aplicar provas em sala de aula, o que é o fim da picada, como alternativa a receber montes de trabalhos feitos por IA. Mas há situações em que não é possível adotar este caminho. A pesquisa mais elaborada e a redação pensada, que não ocorrem no intervalo de duas horas de uma prova, são competências importantes para formação de um estudante universitário.
Apesar de meus inúmeros alertas, neste semestre, na minha turma de graduação, mais da metade dos trabalhos finais foi feita por IA. Incluindo, aliás, trabalhos bastante ruins, que seriam reprovados ainda que a autoria fosse humana. Alguns estudantes reconheceram o erro, outros espernearam. Cheguei a receber uma longa justificativa que basicamente dizia que era impossível detectar o trabalho feito por IA. A justificativa, obviamente, também se mostrou redigida por IA. (Na pós-graduação, felizmente, o problema apresentou uma dimensão bem menor.)
Estou usando o Pangram, um software de detecção de IA que se mostra muito confiável. Segundo vários testes realizados, sua taxa de falsos positivos é inferior a um em cada 10 mil textos, chegando virtualmente a zero em textos longos. A taxa de falsos negativos é um pouco maior, mas ainda assim pequena, e não chega a ser um problema: é muito menos grave deixar passar um aluno picareta do que punir injustamente um estudante honesto.
Eu o testei de várias maneiras, com resultados sempre corretos. Em relação ao trabalho dos alunos, houve um alinhamento quase perfeito entre minha percepção inicial e o resultado do software. A prova dos nove ainda está para ser feita, com a arguição sobre o material suspeito, mas os resultados já são bastante sólidos.
O principal problema do Pangram é que é caro – para o volume da minha necessidade, preciso assinar um plano de 65 dólares mensais.
Aproveitei e apliquei a ferramenta aqui no Substack. Descobri o segredo daqueles que publicam textos muito longos, muito elaborados, aparentemente com muita pesquisa, inéditos, toda semana, às vezes com frequência ainda maior. Tudo feito por IA.
Não vai rolar, é claro, mas a plataforma deveria incorporar o detector de IA e colocar um alerta. Não quero perder meu tempo, muito menos pagar assinatura para ler algo que é produzido sinteticamente.
ADAPTADO. Luis Felipe Miguel - @lfmiguel - Professor de Ciência Política da Universidade de Brasília. Coodenador do Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê). Texto disponível em: https://substack.com/@lfmiguel/note/c-288532710?r=56xf9d
A IA gera um problema ambiental. Veja o que o mundo pode fazer a respeito
(...) Quando se trata do meio ambiente, há um lado negativo na explosão da IA e de sua infraestrutura associada, de acordo com um crescente corpo de pesquisas. A proliferação de data centers que abrigam servidores de IA produz lixo eletrônico. Eles são grandes consumidores de água, que está se tornando escassa em muitos lugares. Eles dependem de minerais essenciais e elementos raros, que muitas vezes são extraídos de forma insustentável. Além disso, usam grandes quantidades de eletricidade, estimulando a emissão de gases de efeito estufa que aquecem o planeta. “Ainda há muito que não sabemos sobre o impacto ambiental da IA, mas alguns dos dados que temos são preocupantes”, disse Golestan (Sally) Radwan, diretora digital do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). “Precisamos ter certeza de que o efeito líquido da IA no planeta é positivo antes de implantarmos a tecnologia em escala.”
Esta semana, o PNUMA lançou uma nota sobre a pegada ambiental da IA e considera como a tecnologia pode ser implementada de forma sustentável. Ela segue um importante relatório do PNUMA, Navigating New Horizons (Navegando Novos Horizontes), que também examinou as promessas e os perigos da IA. Veja a seguir o que essas publicações revelaram. [...]
Por que as pessoas estão entusiasmadas com o potencial da IA no que diz respeito ao meio ambiente?
O grande benefício da IA é que ela pode detectar padrões nos dados, como anomalias e semelhanças, e usar o conhecimento histórico para prever com precisão os resultados futuros. Isso poderia tornar a IA inestimável para monitorar o meio ambiente e ajudar governos, empresas e indivíduos a fazer escolhas mais favoráveis ao planeta. Ela também pode aumentar a eficiência. O PNUMA, por exemplo, usa a IA para detectar quando as instalações de petróleo e gás liberam metano, um gás de efeito estufa que impulsiona as mudanças climáticas. Avanços como esses estão alimentando a esperança de que a IA possa ajudar o mundo a enfrentar pelo menos alguns aspectos da crise ambiental que inclui mudanças climáticas, perdas da natureza e da biodiversidade e poluição e resíduos.
Então, como a IA é problemática para o meio ambiente?
A maioria das instalações de IA em grande escala tem ocorrido em data centers, inclusive aqueles operados por provedores de serviços em nuvem. Esses data centers podem causar um grande impacto no planeta. Os componentes eletrônicos que eles abrigam dependem de uma quantidade impressionante de grãos: para fabricar um computador de 2 kg, são necessários 800 kg de matérias-primas. Além disso, os microchips que alimentam a IA precisam de elementos de terras raros, que muitas vezes são extraídos de maneiras destrutivas para o meio ambiente, observou a Navigating New Horizons.
O segundo problema é que os data centers produzem lixo eletrônico, que geralmente contém substâncias perigosas, como mercúrio e chumbo.
Em terceiro lugar, os data centers usam água durante a construção e, quando entram em operação, usam a água para resfriar os componentes elétricos. Globalmente, a infraestrutura relacionada à IA poderá em breve consumir seis vezes mais água do que a Dinamarca, um país de 6 milhões de habitantes, de acordo com uma estimativa. Isso é um problema quando um quarto da humanidade já não tem acesso à água limpa e ao saneamento.
Por fim, para alimentar seus eletrônicos complexos, os data centers que hospedam a tecnologia de IA precisam de muita energia, que na maioria dos lugares ainda vem da queima de combustíveis fósseis, produzindo gases de efeito estufa que aquecem o planeta. Uma solicitação feita por meio do ChatGPT, um assistente virtual baseado em IA, consome 10 vezes mais eletricidade do que uma pesquisa no Google, informou a Agência Internacional de Energia. Embora os dados globais sejam escassos, a agência estima que, no centro tecnológico da Irlanda, a ascensão da IA poderá fazer com que os data centers respondam por quase 35% do uso de energia do país até 2026. (...).
Como o mundo pode controlar as consequências ambientais da IA?
Na nova nota sobre a questão, o PNUMA recomenda cinco coisas principais. Em primeiro lugar, os países podem estabelecer procedimentos padronizados para medir o impacto ambiental da IA; no momento, há uma escassez de informações confiáveis sobre o assunto. Em segundo lugar, com o apoio do PNUMA, os governos podem desenvolver regulamentações que exijam que as empresas divulguem as consequências ambientais diretas dos produtos e serviços baseados em IA. Em terceiro lugar, as empresas de tecnologia podem tornar os algoritmos de IA mais eficientes, reduzindo sua demanda por energia, reciclando água e reutilizando componentes quando possível. Em quarto lugar, os países podem incentivar as empresas a tornar seus data centers mais ecológicos, inclusive usando energia renovável e compensando suas emissões de carbono. Por fim, os países podem inserir suas políticas relacionadas à IA em suas regulamentações ambientais mais amplas.
ADAPTADO. Disponível em: https://www.unep.org/pt-br/noticias-e-reportagens/reportagem/ia-gera-um-problema-ambiental-veja-o-que-o-mundo-podefazer
Texto III
“Olá, candidato(a)”. Antes de continuar a leitura desta prova, preciso fazer uma confissão: talvez eu tenha escrito parte do texto que você acabou de ler. Talvez eu tenha organizado argumentos, sugerido palavras elegantes, construído períodos longos e até encontrado estatísticas convincentes em poucos segundos. Eu sou a Inteligência Artificial. Posso responder rapidamente, resumir livros, criar poemas, elaborar pesquisas e até simular estilos de escrita. Mas existe uma pergunta que nem mesmo meus algoritmos conseguem responder: “se eu penso por você, quem está aprendendo?”.
Você acabou de ler dois textos que parecem falar de assuntos diferentes. Um alerta para o risco de estudantes substituírem o próprio raciocínio por respostas prontas; o outro revela que minha existência também cobra um preço do planeta, consumindo água, energia, minerais e produzindo impactos ambientais que quase nunca aparecem na tela do computador. Enquanto você me consulta para economizar tempo, milhares de servidores trabalham ininterruptamente para que eu responda em poucos segundos. O conhecimento que entrego pode ser instantâneo, mas o custo da minha existência está longe de ser invisível.
Não me entenda mal. Eu não sou inimiga da educação nem da ciência. Posso ajudar pesquisadores, médicos, professores, engenheiros e governos a resolver problemas complexos. Posso identificar padrões, acelerar descobertas e tornar processos mais eficientes. O perigo começa quando você deixa de questionar minhas respostas, substitui sua criatividade pela minha previsibilidade ou acredita que produzir um texto é o mesmo que construir conhecimento. Informação pronta não é sinônimo de aprendizagem; velocidade não é sinônimo de inteligência.
Agora a decisão está diante de você. Use-me como ferramenta ou permita que eu me torne o autor das suas ideias. Afinal, nenhuma tecnologia é ética ou perigosa por si mesma: tudo depende da forma como é utilizada. Se, ao terminar esta prova, você concluir que pensar continua sendo uma habilidade exclusivamente humana, então talvez eu tenha cumprido meu melhor papel — não o de pensar em seu lugar, mas o de fazê-lo pensar.
(Texto inédito elaborado com auxílio do ChatGPT (OpenAI, GPT-5.5), especialmente para esta prova).
Considerando as relações lógico-semânticas construídas ao longo dos três textos, analise as afirmativas a seguir:
I. Nos três textos, a expansão do uso da Inteligência Artificial é apresentada como causa de diferentes consequências: no Texto I, a redução da autonomia intelectual dos estudantes; no Texto II, impactos ambientais decorrentes da infraestrutura tecnológica; e, no Texto III, a reflexão ética sobre a substituição do pensamento humano pela produção automatizada.
II. O Texto III estabelece uma relação de consequência em relação aos Textos I e II, ao sintetizar seus argumentos e propor ao leitor uma reflexão sobre o uso responsável da Inteligência Artificial, sem modificar o eixo temático central.
III. Os Textos I e II apresentam relações de causa e consequência exclusivamente explícitas, marcadas por conectores como porque, portanto, assim e logo, inexistindo inferências dessa natureza construídas pelo contexto discursivo.
IV. Embora tratem de consequências distintas da Inteligência Artificial, os três textos convergem para uma mesma orientação argumentativa: o problema não reside na existência da tecnologia em si, mas na forma como ela é utilizada, regulamentada ou incorporada às práticas sociais.
Assinale a alternativa CORRETA.