[...] A criação de uma ética para as novas conquistas
genéticas que nos garanta “amar o nosso ruim como a nós
mesmos” é prioritária no terceiro milênio. Imaginemos o que teria
acontecido se nossos ancestrais primatas dispusessem da
tecnologia para evitar o diferente e o “outro. Imaginemos se pudessem ter evitado o Homo sapiens como produto de algo que
fosse identificado na época como um rompimento de padrões e
um possível convite ao “mal”.
O mundo da excelência e da competição tem que resgatar
seu amor ao diferente, ao exótico, ao feito à mão, ao
individualizado, ao não-perfeito, à surpresa, ao descontrole e ao
imprevisível. Como poderemos tolerar os outros e amá-los, se não toleramos em nós o que é “outro”, o que está fora de padrão
e de expectativas?
Não há identidade sem o outro; não há bom sem o ruim; não
há bem sem o mal. Essa é a maneira como o ser humano
enxerga a tensão da vida. Qualquer tentativa de engenharia que vise extirpar o “outro-ruim” corre o risco de inventar um “bom" monstruoso, que seja desagradável, horrendo e destrutivo. Com certeza o verbo dessa nova frase fundadora do futuro não seria mais o mesmo. Afinal amar é o sentimento capaz de apreciar o diferente. Só poderemos integrar nosso "ruim" a nós se pudermos processá-lo por meio do sentimento de amor.
Num mundo só bom não há espaço para o humano. Entender isso é o grande desafio de nossa civilização. Mas sem dúvida implica coisas muito difíceis, tais como amar ou acolher
nosso "ruim". Em nossa fraqueza está nossa grandeza. É isso que chamamos de consciência humana - uma "terceira via" entre a ingenuidade animal e a ignorância da dominação. [...]