Os recentes acontecimentos ocorridos nas comunidades de base
da pirâmide no Rio de Janeiro têm origem na histórica ausência do
Estado que, nesses territórios, não entrega os serviços básicos de
água, luz, gás, telefone, internet, educação, saúde, transporte e
segurança. Em alguns casos, esses serviços foram privatizados,
não são fiscalizados de maneira efetiva e simplesmente não
existem.
O fato explica o crescimento assustador das facções do crime e
da milícia nas últimas décadas, que ocupam espaços deixados
pelo Estado, oferecendo serviços de maneira ilegal e extorsiva a
uma população que se vê obrigada a aceitar as regras impostas
pelo poder paralelo. Mas não foi sempre assim.
Em 2008, o Estado implantou as Unidades de Polícia Pacificadora
(UPPs), programa elogiado internacionalmente, que tinha a
finalidade de retomar esses territórios, ocupando 40 favelas
cariocas, beneficiando 1,5 milhão de pessoas, sendo bemsucedido no período de realização dos megaeventos de 2014
(Copa do Mundo) a 2016 (Olimpíadas), o que mostra que a
capacidade para resolver o problema existe.
No entanto, passados esses eventos, a maioria das comunidades
continuou carente de serviços básicos e o programa perdeu força
porque se apoiou apenas nas ações de polícia e segurança e
deixou de implantar ações sociais em parceria com empresas
para qualificar as pessoas e investir no empreendedorismo local
para aumentar a renda global do território.
Nesse cenário, algumas estratégias devem ser consideradas
na questão das milícias no Rio de Janeiro, que se tornou um
desafio complexo e multifacetado e requer abordagens integradas
como o fortalecimento das instituições de segurança, investindo
na capacitação de juízes, promotores e policiais, para garantir
punições adequadas para membros de milícias, além de combater
a corrupção e a impunidade dentro das forças de segurança.
Desenvolver unidades de inteligência especializadas em rastrear
as milícias também é uma ação importante para reduzir seu
poderio financeiro, utilizando tecnologia e análise de dados para
identificar seus líderes e estruturas, evitando que esses grupos
cresçam e se expandam.
Implementar programas de desarmamento para reduzir o acesso
das milícias a armas de fogo e reforçar o controle de armas para
evitar a entrada ilegal de armamentos no estado.
Mas a solução não se dá apenas por este vetor, que foca nas
consequências, mas também pela implantação de políticas sociais
nas comunidades, que devem ser realizadas visando atacar as
causas do problema, com o objetivo de melhorar as condições
de vida, reduzindo o recrutamento dos jovens e promovendo
programas de emprego e educação.
Além disso, realizar campanhas de conscientização pública para
apoiar as ações do Estado, estabelecendo canais de comunicação
seguros para os moradores denunciarem atividades ilegais,
prestando apoio às testemunhas e incentivando sua participação
no combate às milícias.
A cooperação interinstitucional entre diferentes níveis de governo
também deve ser articulada para combater as milícias, trabalhando
em conjunto com organizações da sociedade civil e ONGs.
É importante dizer, por fim, que, no curto prazo, as ações
mais ostensivas da polícia devem sim ser realizadas, mas as estratégias acima apontam caminhos complementares que
devem ser seguidos para resolver o problema de forma efetiva no
médio e longo prazo. Só assim teremos uma solução sustentável
para o desequilíbrio social que se arrasta há décadas no estado.
Em “[...] esses serviços foram privatizados, não são
fiscalizados de maneira efetiva e simplesmente não existem” (1º
parágrafo), a vírgula poderia ser substituída por um conectivo,
sem alteração do sentido do trecho. Esse conectivo é: