No último parágrafo do excerto, o narrador-personagem cont...

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Q4443518 Literatura
    Começou a aula de escrita. Custa-me dizer que eu era dos mais adiantados da escola; mas era. Não digo também que era dos mais inteligentes, por um escrúpulo fácil de entender e de excelente efeito no estilo, mas não tenho outra convicção. Note-se que não era pálido nem mofino: tinha boas cores e músculos de ferro. Na lição de escrita, por exemplo, acabava sempre antes de todos, mas deixava-me estar a recortar narizes no papel ou na tábua, ocupação sem nobreza nem espiritualidade, mas em todo caso ingênua. Naquele dia, foi a mesma coisa; tão depressa acabei, como entrei a reproduzir o nariz do mestre, dando-lhe cinco ou seis atitudes diferentes, das quais recordo a interrogativa, a admirativa, a dubitativa e a cogitativa. Não lhes punha esses nomes, pobre estudante de primeiras letras que era; mas, instintivamente, dava - lhes essas expressões. Os outros foram acabando; não tive remédio senão acabar também, entregar a escrita, e voltar para o meu lugar. 

    Com franqueza, estava arrependido de ter vindo. Agora que ficava preso, ardia por andar lá fora, e recapitulava o campo e o morro, pensava nos outros meninos vadios, o Chico Telha, o Américo, o Carlos das Escadinhas, a fina flor do bairro e do gênero humano. Para cúmulo de desespero, vi através das vidraças da escola, no claro azul do céu, por cima do morro do Livramento, um papagaio de papel, alto e largo, preso de uma corda imensa, que bojava no ar, uma coisa soberba. E eu na escola, sentado, pernas unidas, com o livro de leitura e a gramática nos joelhos.

Machado de Assis. Conto de escola. In: Alfredo Bosi et.al. Machado de Assis.
Coleção Escritores Brasileiros. São Paulo, Ática, 1982. p. 192. 



Considerando o texto apresentado e aspectos da BNCC para o componente curricular de língua portuguesa, julgue o item a seguir. 
No último parágrafo do excerto, o narrador-personagem contrasta os movimentos amplos do papagaio de papel "que bojava no ar" com a imobilidade a ele imposta em sala de aula e realça seus anseios de liberdade e seu sentimento de inadaptação à escola, o que evidencia a crítica do autor da obra a um modelo de ensino de época, já superado pelos métodos da escola contemporânea. 
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