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Q2464429 Português
TEXTO 2


          Marianne teria se considerado menos culpada se tivesse conseguido dormir na noite que se seguiu à partida de Willoughby. Sentiria menos vergonha de encarar sua família, na manhã seguinte, se não houvesse se levantado precisando ainda de mais descanso do que quando se deitara. Mas os sentimentos que a haviam mergulhado na desgraça impediam-na de conseguir livrar-se dela. Passara a maior parte da noite acordada, pensando e chorando. Levantara-se com dor de cabeça, sem vontade de falar e sem vontade alguma de comer; induzia a mãe e as irmãs a sofrerem ao proibi-las de tomarem qualquer tentativa para consolá-la. A sensibilidade dela era incrivelmente grande!

          Saiu assim que o café da manhã terminou e passou a manhã inteira caminhando sem destino pelos bosques de Allenham, lembrando-se das alegrias do passado e chorando pelas tristezas do presente.

        A tarde passou naquele mesmo clima de sensibilidade profunda. Marianne tocou ao piano todas as músicas preferidas que costumava tocar para Willoughby, cantou todas as árias em que suas vozes soavam perfeita e alegremente unidas. Houve momentos em que permaneceu imóvel como uma estátua, fitando perdidamente as linhas das músicas que ele havia escrito para ela, até que seu coração ficou tão pesado que seria impossível suportar mais tristeza.

        Esse constante alimentar da dor profunda continuou nos dias seguintes. Marianne passava horas ao piano, chorando e cantando alternadamente, a voz em certos momentos completamente afogada por lágrimas. Também nos livros, como na música, ela provocava um sofrimento intenso e profundo comparando os contrastes entre o passado e o presente. Lia apenas e somente os livros que eles tinham lido juntos. (AUSTEN, Jane. Razão e sensibilidade. São Paulo: Nova Cultural, 2003)
Com relação à concordância verbal e nominal, assinale a alternativa incorreta:
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Tema central: A questão aborda concordância verbal e nominal, especificamente o uso dos verbos impessoais (como o verbo “haver” no sentido de existir) e a concordância entre sujeitos e verbos nas frases do texto. Trata-se de um ponto fundamental da sintaxe na norma-padrão, amplamente cobrado em concursos para cargos administrativos.

Análise da alternativa incorretaAlternativa D:

No trecho citado, o verbo “haver” aparece na locução verbal “haviam mergulhado”. Neste contexto, “haver” é usado como verbo auxiliar do particípio “mergulhado”. Nesses casos, o verbo “haver” deixa de ser impessoal e passa a concordar normalmente com o sujeito (“os sentimentos”). Segundo Bechara (Moderna Gramática Portuguesa), “haver”, ao ser auxiliar, adquire flexão comum (plural), por isso: “Os sentimentos haviam mergulhado...” está correto.

Logo, a afirmação da alternativa D, que sugere a possibilidade de usar “havia” no singular porque seria impessoal (“oração sem sujeito”), é equivocada. Ela confunde o uso de “haver” quando tem sentido de “existir” (impessoal/singular: “houve manifestações”) com o uso como auxiliar, que exige flexão.

Por que as demais estão corretas?

A) Trabalha a concordância do demonstrativo “esse” com o substantivo “alimentar”. “Esse” concorda em gênero e número com “alimentar” (masculino, singular).

B) O verbo “haver” usado no sentido de “existir” (“Houve momentos...”) é impessoal, por isso permanece no singular, independentemente do termo seguinte. Regra clara das principais gramáticas (Cunha & Cintra, Bechara).

C) O verbo “costumava” concorda com o sujeito “Marianne” (3ª pessoa do singular), como determina a regra de concordância verbal.

Atenção à pegadinha: Muitos candidatos confundem o verbo “haver” nas locuções: se for auxiliar, faz flexão; se for principal e equivaler a “existir”, é impessoal.

Regra de ouro:Quando o verbo ‘haver’ é auxiliar, ele concorda com o sujeito; quando é principal e tem sentido de existir, é impessoal (singular).

Referências: Bechara, Moderna Gramática Portuguesa; Cunha & Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo.

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Comentários

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Alguém poderia explicar por que a letra D é a correta?

O verbo “haver” nos sentidos de “existir”, “acontecer”, “ocorrer” é um verbo impessoal, ou seja, não possui sujeito, e é empregado na terceira pessoa do singular, independente do tempo verbal. Veja: a) Havia pássaros no céu. Entretanto, neste caso, ele é utilizado como verbo auxiliar, neste caso ele é conjugado, enquanto o principal é flexionado no particípio ("mergulhado").

A alternativa incorreta é a letra D.

Análise detalhada:

A) Correta. No trecho "Esse constante alimentar da dor profunda", o pronome "esse" concorda com o substantivo "alimentar", que assume função verbal. Essa concordância é chamada de concordância por atração. O substantivo "alimentar", por sua vez, concorda com o sujeito oculto "eu" (1ª pessoa do singular), que é quem alimenta a dor.

B) Correta. No trecho "Houve momentos em que permaneceu imóvel", o verbo "haver" permanece no singular na norma culta porque, nesse caso, funciona como verbo impessoal, ou seja, não possui sujeito. O verbo indica a ocorrência de um fato, sem referência a um agente.

C) Correta. No trecho "Marianne tocou ao piano todas as músicas preferidas que costumava tocar para Willoughby", o verbo "costumava" está em concordância com o sujeito "Marianne". A concordância verbal se dá na 3ª pessoa do singular do pretérito imperfeito, indicando uma ação habitual no passado.

D) Incorreta. No trecho "Mas os sentimentos que a haviam mergulhado na desgraça impediam-na de conseguir livrar-se dela", o verbo "haver" não pode ser usado no singular. Apesar de se tratar de uma oração sem sujeito explícito, o verbo "impediam" indica que a ação de "haver mergulhado" se refere à 3ª pessoa do plural (os sentimentos).

Regras gramaticais em jogo:

  • Concordância por atração: Ocorre quando um termo concorda com outro que está mais próximo, mesmo que não seja o seu termo regente.
  • Verbo impessoal: Não possui sujeito, indicando fenômenos da natureza, tempo, etc.
  • Concordância verbal: O verbo deve concordar com o sujeito em número e pessoa.

Observações importantes:

  • A concordância verbal e nominal é fundamental para a clareza e coesão da língua portuguesa.
  • Dominar as regras gramaticais permite uma comunicação mais eficaz e evita erros de interpretação.
  • Em caso de dúvidas, consulte dicionários, gramáticas ou busque ajuda de um profissional da língua.

Caso eu esteja equivocado, peço desculpas.

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